A República dos vazamentos
O eleitor pode não distinguir denúncia legítima de operação política
O Brasil, país criativo, coleciona apelidos para si mesmo com a devoção com que outros povos colecionam vitórias. Já escrevi aqui sobre a “República da Atenção” — aquela em que capturar o olhar, com verdades ou mentiras, é o que importa. Acrescento uma expressão que faltava: a “República dos Vazamentos”.
Brasília não é uma caixa d’água com furos. É uma caixa d’água projetada com furos, cujos escoamentos podem ter destinatário e horário nobre. Pelas aberturas escorrem investigações sigilosas, disputas entre ministros, mensagens de aplicativos e boatos plantados com o esmero de quem cultiva orquídeas.
Vazar, na capital, é uma forma refinada de conversa. E os que hoje se indignam com a torneira aberta amanhã estarão, discretamente, pedindo emprestada a chave. Aliás, entre muitos, a conversa privada por telefone já é considerada pública. Vale lembrar que a Operação Lava-Jato deu grande impulso ao uso do WhatsApp para conversas telefônicas por ser criptografado.
“Brasília é uma caixa d’água feita com furos, cujos escoamentos podem ter destinatário e horário nobre”
Convém fazer uma distinção que a indignação seletiva costuma dispensar. Há o vazamento de interesse público — o que expõe o que o poder queria esconder do cidadão e que a imprensa tem o dever de apurar. E há o vazamento estratégico, com destinatário certo e cronograma calculado, que serve para desgastar rivais, proteger aliados ou influenciar decisões. Tratá-los como iguais é o método preferido de quem sabe que o cinismo generalizado é a melhor forma de camuflar operações e episódios pouco recomendáveis.
O fenômeno se intensifica em ano eleitoral. Neste século, o falso dossiê de 2006, que envolvia o então candidato ao governo de São Paulo José Serra e sua atuação como ministro da Saúde, pode ser considerado um marco — o episódio legou ao léxico nacional a palavra “aloprados”. Mas, desde o Império, toda eleição relevante recebeu sua dose de documentos convenientes, delações oportunas e investigações que amadurecem, com precisão de calendário, perto do voto.
A campanha de 2026 reúne os ingredientes para ampliar o fenômeno. Os escândalos do INSS e do Banco Master produziram uma safra documental raramente vista — na qual até o vazamento já é investigado. A esse arsenal soma-se a inteligência artificial. O material falso nem precisa ser bom: basta durar algumas horas e obrigar o alvo a passar semanas desmentindo. E há o efeito colateral, mais corrosivo: qualquer registro verdadeiro e desconfortável pode agora ser dispensado como “montagem”. A dúvida, que era virtude cética, virou álibi.
Os favoritos à Presidência têm rejeições próximas a 50%. Nesse equilíbrio precário, não é preciso destruir o rival — bastam um ou dois pontos percentuais para mudar o jogo. O vazamento é a arma de precisão da política de margens estreitas. Considerando que uma parcela pequena de eleitores vai decidir o pleito, salvo fato novo, um vazamento minimamente acreditável pode alterar o rumo da eleição. Daí a necessidade de as campanhas não apenas divulgarem notícias ruins sobre adversários, mas prepararem vacinas que reduzam o dano. Enquanto o custo do vazador seletivo ficar próximo de zero, o instrumento seguirá sendo usado — e o eleitor perde a capacidade de distinguir denúncia legítima de operação política. Não é falha moral do eleitor. É a engenharia do sistema que pode induzir o cidadão ao erro.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







