A eleição que Lula não compreendeu
O desafio do presidente não se limita apenas a superar Flávio Bolsonaro
Lula chegou ao domingo convencido de que venceria já no primeiro turno. Saiu dele em segundo lugar, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03% de Flávio Bolsonaro. Para alguns, o resultado não surpreendeu. Já havia a percepção, contrária às pesquisas, da existência de uma onda azul sustentada por quatro fatores que o presidente parece não ter compreendido.
O primeiro foi a própria campanha. Lula não esteve em sua melhor forma, fez declarações desnecessárias e não ofereceu uma mensagem de conciliação a um país cansado da polarização. Preferiu mobilizar os eleitores que já tinha a conquistar os moderados de que precisava. Admitiu que essa foi sua campanha menos organizada desde 1989, mas a responsabilidade não cabe apenas aos auxiliares. A orientação política vem do candidato.
O segundo foi a persistente desaprovação ao governo. A expansão dos gastos e as medidas de apelo popular não se converteram em aprovação. O desgaste ultrapassou a economia e alcançou a imagem do presidente, seu estilo de governar e a percepção de que o país continua prisioneiro dos mesmos conflitos.
O terceiro foi o voto silencioso, visível em Brasília, onde a campanha foi surpreendentemente morna. Quase não houve carreatas ou motociatas, e poucas bandeiras apareceram nas ruas. Ainda assim, Flávio obteve 51,31% dos votos no Distrito Federal e só perdeu na Asa Norte e na Asa Sul. Brasília, que reúne traços do Centro-Oeste, do Sudeste e do Nordeste, mostrou que o silêncio das ruas escondia preferências definidas.
“Já havia a percepção, contrária às pesquisas, da existência de uma onda azul sustentada por quatro fatores”
O fenômeno não foi local. Flávio venceu em todos os estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste, e as pesquisas da véspera, que davam Lula numericamente à frente, não captaram a onda azul que se desenhava nos dias anteriores ao primeiro turno.
O quarto fator foi a percepção, em parte do eleitorado, de proximidade entre Lula e setores do STF. Para esses eleitores, o Supremo deixou de ser visto apenas como árbitro e passou a integrar o conflito político. Somada à exposição excessiva da primeira-dama, essa percepção deu a Flávio dois cabos eleitorais involuntários.
Lula perdeu a oportunidade de ser mais Alckmin do que Janja. Abandonou a frente ampla, que nunca se consolidou como projeto de governo, e apostou numa retórica latino-americana de confronto para conquistar eleitores que não eram seus.
Nesta coluna, adverti que o favoritismo escorregava de suas mãos. O presidente ainda pode recompor sua campanha. A reação inicial, porém, ao prometer expor a “biografia tenebrosa” do adversário, sugere a repetição do erro: insistir no confronto quando parte do eleitorado está cansada da radicalização.
Seu desafio não se limita a enfrentar Flávio Bolsonaro. O presidente precisa reduzir um antilulismo que ultrapassou as fronteiras do bolsonarismo e alcançou eleitores sem vínculo com a direita. Esses eleitores não serão conquistados pela mesma campanha que os afastou.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016





