A eleição que Lula entendeu
Enquanto Flávio subiu no salto, o presidente acordou para o páreo
Entre o nascimento e a morte, tudo está sujeito a interpretação. As eleições deste ano renderam enredos que se prestam a muitas, e vale revisitar alguns deles antes que a poeira assente.
Lula parecia convencido de que o primeiro turno estava resolvido e caiu das nuvens quando terminou atrás. Flávio Bolsonaro saiu da primeira rodada com a parada ganha, ao menos na cabeça dele e dos aliados, que já disputavam vagas no ministério.
Às vésperas do segundo turno, todas as pesquisas o mostravam à frente, e uma casa no Lago Sul estava preparada para a festa. Foi lá que os estatísticos, inclusive os do PL, avisaram que não ia dar. O churrasco da vitória terminou em oração.
Desconfio que Lula só passou a acreditar na vitória quando esses mesmos estatísticos, com poucas urnas apuradas, anunciaram a virada. Seu rosto revelou a surpresa. Nunca, numa disputa presidencial de dois turnos, o derrotado da primeira rodada havia vencido a segunda.
Muitos atribuem o resultado ao medo do bolsonarismo, que sem dúvida pesou. Há outro dado a considerar. No primeiro turno, Flávio encarnava a mudança. No segundo, a maioria concluiu que essa mudança seria para pior e preferiu a continuidade. Lula ficou com três de cada quatro votos em jogo entre as rodadas, mesmo com Caiado e Cury apoiando o adversário, e a abstenção teve a maior queda entre turnos desde a redemocratização.
Lula fez duas campanhas. Na primeira, fraca, o favoritismo escorria pelas mãos, e sem a notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida, que ele explorou nos palanques, talvez tivesse perdido ali mesmo. No segundo turno, acordou. Acelerou a campanha e radicalizou o discurso, o que me pareceu um equívoco e se revelou acertado. A campanha de Flávio no segundo turno andou de salto alto. Lula não calçou as sandálias da humildade, mas se comunicou melhor e entendeu, enfim, a eleição que disputava.
“O governo terá de ser eficiente para aprovar medidas antes da nova legislatura, que não lhe é favorável”
O amanhecer foi de ressaca. O Ibovespa caiu 13,9%, com o primeiro circuit breaker desde 2020, e o dólar teve a maior alta diária desde 1999. O discurso da vitória não ajudou. Lula voltou a associar o adversário ao “milicianismo” e prometeu regular as plataformas. Flávio, que dissera que respeitaria qualquer resultado, recusou-se a reconhecer a derrota. A temperatura subiu quando a Polícia Federal pediu a apreensão dos passaportes de Flávio, sete minutos depois da confirmação do TSE, e Alexandre de Moraes atendeu na mesma noite, sem ouvir a PGR. Flávio não entregou os documentos e embarcou para os Estados Unidos. O bolsonarismo ganhou o argumento da perseguição. Será roteiro de documentário.
Já Lula não pode comemorar por inteiro a extraordinária vitória e ficou aborrecido com a decisão de Moraes. No governo há quem avalie que a medida sequestrou a agenda do país com a decisão sobre Flávio Bolsonaro num momento em que se tentava estabelecer consensos.
Em meio à confusão, o quarto mandato já começou, e o governo terá que ser eficiente para usar os próximos meses para aprovar medidas antes de encontrar a nova legislatura, que não lhe é favorável. Sobretudo, para tentar construir credibilidade com os agentes econômicos. Posto que as circunstâncias políticas, judiciais e econômicas do pós-eleição são desafiadoras, o governo Lula 4 precisará ser muito melhor do que Lula 3. A crise institucional, que ardia alta antes das eleições, segue intensa.
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Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019






