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Uma esquerdista diferente: dura com imigração, assustada com Rússia

Mette Frederiksen governa a Dinamarca com um modelo diferente, em termos de social-democracia, e fala até em 'rearmamento espiritual'

Por Vilma Gryzinski 29 ago 2025, 08h52

Não deve ser nada fácil a vida da primeira-ministra Mette Frederiksen, tendo Donald Trump nos seus calcanhares, com a história de que a Groenlândia deve pertencer aos Estados Unidos, e Vladimir Putin bufando na nuca dos países nórdicos, uma ameaça tão concreta que a política de 47 anos, tendo começado a carreira como sindicalista, falou recentemente na necessidade de preparar um dos países mais pacifistas do mundo para não apenas um reequipamento bélico, mas também um “rearmamento espiritual”.

É quase impensável que uma líder de centro-esquerda use termos assim, evocando indiretamente uma conexão religiosa num dos países europeus mais indiferentes à herança cristã. E sendo ela de um partido que “passou boa parte do século XX reduzindo a influência da Igreja da Dinamarca na vida pública”, segundo Ibhen Thranholm escreveu na Spectator.

Segundo ele, o “problema maior” que a primeira-ministra tão ousadamente identificou é que os jovens dinamarqueses, vivendo num dos países de mais elevado padrão de vida do mundo, nem sequer cogitam de lutar numa guerra. Pois guerra é o terrível espectro que muitos estadistas escandinavos divisam no horizonte desde que a Rússia invadiu a Ucrânia com pretensões imperialistas, a ponto da Suécia romper a tradição de neutralidade e entrar para a Otan.

“Alguns admitem abertamente que não morreriam pela Dinamarca – nem pela democracia nem pela bandeira e certamente não por um estado moderno de bem-estar social que promete tudo, mas não inspira nada”, segundo Thranholm.

JOIAS DE FAMÍLIA

Se alguém da direita falasse em “rearmamento espiritual”, todo mundo sabe o que aconteceria – ela seria chamada de fascista para baixo. A mesma coisa acontecesse em relação à política linha dura que a primeira-ministra assumiu em relação à imigração, implantando um dos sistemas mais rigorosos da Europa em relação a solicitantes de asilo.

As exigências vão do micro – quem quer viver bancado pelo estado enquanto o pedido de asilo é analisado precisa entregar todos os seus bens, inclusive joias de família – ao macro: é ativamente incentivado que os refugiados não só se integrem à sociedade dinamarquesa como retornem a seus países quando situações de conflito se resolvem.

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A palavra “integração” é levada ao pé da letra: recentemente, foi desativado um conjunto habitacional que havia se tornado quase que exclusivamente habitado por albaneses ou refugiados vindos de países muçulmanos orientais, segundo a política de não permitir “guetos”. Também não é permitido o reagrupamento familiar, fora de cônjuge e filhos. O princípio, seguido, por exemplo no Reino Unido, permite a entrada em média de vinte parentes do asilado, incluindo sogros, irmãos, primos e cunhados.

O resultado é que os dinamarqueses podem olhar – às vezes literalmente, por causa da ponte que une os dois países – para seus adversários da Suécia, principalmente a cidade de Malmö, com quase metade dos moradores sendo de origem estrangeira, e ter um sentimento de alívio por não enfrentarem problemas como aumento da criminalidade, gangues de tráfico e contrabando, crimes sexuais e integração zero com uma sociedade avançada, à qual muitos desprezam exceto na hora de receber os benefícios.

MENSALIDADE ALTA

Frederiksen não tem a beleza nem o pedigree da mulher que foi primeira-ministra antes dela, Helle Thorning-Schmidt, e já tomou uma decisão que foi, merecidamente, considerada uma das mais autoritárias e extremas da história recente: a ordem de sacrificar todas as martas – os animais com a pele mais cobiçada do mundo, mais conhecidos pelo nome em francês, vison, ou mink, em inglês – das criações no país para evitar propagação da covid. Estava errada e muitos dinamarqueses ainda lembram da inútil matança,

A maioria dos cidadãos – ou súditos, porque a Dinamarca é uma monarquia – concorda que o país funciona como um clube com mensalidade alta, sob a forma dos impostos mais dolorosos do mundo, mas com benefícios compensadores, incluindo não só universidade gratuita para todos, como um estipêndio equivalente a 900 dólares por mês para os estudantes durante todo seu período de ensino, até o pós-doutorado.

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Se o clube admitir membros que só recebem, em vez de pagar, acaba falindo – motivo pelo qual a Dinamarca tem 12,5% de população de origem estrangeira, contra 20% na Alemanha e um pouco mais na Suécia.

“Pensar de maneira social-democrata tradicional significa que não se pode abrir as portas a todo mundo que quer entrar”, disse a primeira-ministra ao New York Times. Caso contrário, “é impossível ter uma sociedade sustentável, principalmente se é de bem-estar social”. E quem acaba pagando “o preço mais alto são os menos ricos”.

RETÓRICA OU AVISO

Muitos analistas atribuem à linha dura – ou justa – da primeira-ministra, reflexo de uma mudança no Partido Social-Democrata como um todo, o fato de que a nova direita anti-imigração não cresceu na Dinamarca.

O governo também faz levantamentos sobre o comportamento dos imigrantes que seriam rejeitados por outros partidos de esquerda. Mas, graças a eles, se sabe que comunidades procedentes da Índia, do Sri Lanka e do Vietnã se saem bem no sistema educacional e no mercado de trabalho. Não vão bem os provenientes de Iraque, Síria, Líbano e territórios palestinos.

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Tirem suas próprias conclusões. Os dinamarqueses estão tirando – e apoiando a primeira-ministra, a mais bem avaliada da Europa Ocidental (Emmanuel Macron está no fim da fila).

Já é alguma coisa, mesmo para um país de apenas seis milhões de habitantes, com Trump querendo abocanhar a Groenlândia – houve um protesto oficial esta semana pela atividade de “agentes civis” americanos na gigantesca ilha do Ártico, que continua a ser um território dinamarquês, um resquício colonial num país tão politicamente correto – e Putin de olho em todo o resto ou no mínimo desestabilizar toda a região.

Falar em “rearmamento espiritual” pode ser um inútil exercício de retórica – ou um aviso de que nem um presente altamente bem resolvido garante um futuro de paz e segurança. O que se pode esperar de um Putin capaz de mandar dois mísseis destruírem a sede do Conselho Britânico em Kiev? Em outros tempos, isso já seria uma declaração de guerra.

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