Trump parece já ter decidido que vai atacar o Irã – só falta saber como
O presidente americano impõe condições que, do ponto de vista do regime teocrático, são inaceitáveis, numa brincadeira de gato e rato
Todo mundo viu como terminou a escalada de concentração bélica e de ultimatos para Nicolás Maduro. Com muito mais em jogo, Donald Trump está fazendo a mesma coisa com o regime iraniano. Por exemplo, impôs três condições impossíveis: eliminação definitiva de todo o enriquecimento de urânio e dos estoques já feitos, limitação do número e do alcance dos mísseis balísticos iranianos e fim do apoio às organizações armadas que o Irã sustenta no exterior, incluindo Hezbollah no Líbano, Hamas em Gaza e os hutis do Iêmen.
Seria magnífico para a paz mundial se o Irã concordasse, mas as condições são do tipo inaceitável pela lógica interna de um regime sustentado no confronto com o Ocidente em geral e com os Estados Unidos em particular, inclusive através da busca nada disfarçada de armas nucleares.
Aceitá-las equivaleria a uma rendição e provavelmente racharia o regime, já notavelmente enfraquecido pela derrocada econômica e pela extensão dos protestos em massa que, mesmo sufocados com base numa repressão de dimensões pavorosas, podem voltar a eclodir diante de qualquer sinal de enfraquecimento da estrutura do poder.
A movimentação de autoridades estrangeiras também indica que todo mundo está pensando a mesma coisa: como reagir diante da iminência de um ataque americano. Baixaram em Washington, entre outros, o chefe da inteligência das Forças de Defesa de Israel, o país mais diretamente envolvido, pela alta probabilidade de um ataque retaliatório iraniano, e o ministro da Defesa da Arábia Saudita. Cada um com uma agenda antagônica: o israelense para compartilhar alvos e o saudita para tentar evitar um conflito.
COLABORAÇÃO PRECIFICADA
Os sauditas já disseram que não autorizarão o uso de seu espaço aéreo no caso de um ataque americano, principalmente pelo medo de que o regime iraniano também faça uma retaliação, atingindo suas vitais instalações petrolíferas.
Mas todo mundo pode mudar de ideia e a colaboração, no momento, está sendo precificada. Trump já fez enormes concessões ao manda-chuva que considera seu amigo pessoal, o príncipe Mohammad Bin Salman, incluindo a promessa de venda de caças F35, contra, obviamente, os interesses de Israel.
Seria essa a hora de cobrar a conta? A proibição do uso do espaço aéreo saudita complicaria operações militares americanas, feitas a grande distância, mas os Estados Unidos têm capacidade bélica para fazer praticamente qualquer coisa, mesmo que com mais dificuldades.
O que irão fazer, exatamente, é o grande objeto de especulação. Uma tentativa de decapitação dos figurões do regime? Israel já fez isso, em escala limitada, na guerra de junho do ano passado.
Foi altamente eficiente na capacidade de demonstrar que o país pode atacar quem quiser, como quiser, mas nem de longe com alcance de mudar o regime – a garantia mais sólida de que seu maior inimigo poderia ser desconstruído por dentro.
DESESTABILIZAÇÃO MUNDIAL
Com os Estados Unidos, obviamente, a conversa é outra. É um país muito mais poderoso e as condições são consideradas mais positivas para uma mudança de regime, com todo o universo de consequências desconhecidas que isso implica – e com a oposição da ala trompista que não quer saber de jeito nenhum de aventuras em outros países. Note-se que nem na Venezuela o governo Trump tentou fazer isso, optando por capturar Maduro e senhora e pressionar a interina Delcy Rodríguez a colaborar – uma tentativa sem precedentes de mudar paulatinamente uma estrutura autoritária.
Os iranianos são muito mais organizados do que os venezuelanos, que não seguiram os manuais das caríssimas armas estrangeiras compradas para fingir que eram poderosos, não fizeram a manutenção e, em alguns casos, deixaram a chave de sistemas sofisticados nas mãos dos fornecedores. Perderam de dez a zero.
Todos os analistas concordam que o quadro é diferente no Irã, onde forças bem equipadas, com experiência de combate na Síria e no Líbano, teriam condições de apresentar uma resistência maior. Também pode haver uma guerra interna entre forças de segurança favoráveis a um acordo e as dispostas a combater até a morte, o que provocaria um quadro de desestabilização mundial devido ao petróleo envolvido no Irã e nos vizinhos.
ALGO MAIS AUDACIOSO
As decisões finais, nas condições existentes, são tomadas pelo aiatolá Ali Khamenei – e ele consistentemente sempre optou pelo confronto.Sua eliminação, no fundo do bunker onde está escondido, teria a vantagem de favorecer um acordo com líderes políticos mais dispostos a negociar e a desvantagem de insuflar o fanatismo não só das forças mais doutrinadas, mas também de milícias xiitas no Iraque e do Hezbollah no Líbano, que o veneram literalmente como diz seu título, ridículo a ouvidos estrangeiros, de líder supremo, acima inclusive de nacionalidades.
Em junho do ano passado, quando Israel atacou instalações nucleares e líderes militares iranianos, Trump ordenou uma reação localizada. Desfechou-se assim o incrível ataque dos bombardeiros B2, conhecidos pelas formas únicas desenhadas para enganar radares e pelo apelido de “avião do Batman”, que saíram dos Estados Unidos, dispararam as bombas capazes de perfurar montanhas contra instalações nucleares escondidas e voltaram, sem pousos intermediários.
O sucesso da operação, somado à captura cirúrgica de Maduro, talvez tenha inspirado Trump a pensar em algo muito mais audacioso. O mundo inteiro tenta adivinhar o que será. A concentração, no Oriente Médio, de aviões de reabastecimento no ar, de rastreamento de radares e de resgate de pilotos abatidos indica que não será pequeno.
As apostas do jogo do gato com o rato vão ficando mais altas.





