Templo é dinheiro: queda do abade de Shaolin foi corrupção ou política?
No epicentro do kung fu, o escândalo envolvendo chefe dos monges mostra como o governo chinês tem poder sobre tudo, até a religião budista
Quem nunca assistiu um filme de kung fu com os prodígios alcançados por lutadores treinados nas artes marciais do templo de Shaolin, geralmente com Jackie Chan? Pois essa divulgação universal – alguns chamariam de vulgarização – dos ensinamentos do templo existente desde o ano de 477 foi em grande parte produto da cabeça boa para negócios de Shi Yongshin, o monge expurgado pelas autoridades chinesas por apropriação indébita, “relações imorais” e outros comportamentos que contrariam totalmente os princípios mais elevados do budismo.
A queda do abade que era chamado de “monge CEO” provocou grande choque no mundo do kung fu. E também uma dúvida fundamental: é possível que, num regime que tudo sabe, uma figura de tanto destaque tenha ocultado suas tramoias por tanto tempo?
Nada acontece por acaso no país que tem o maior partido do mundo, o Partido Comunista da China, com estarrecedores 100 milhões de membros de carteirinha. Se Shi Yongshin caiu agora foi porque estava no momento certo, politicamente. Seus malfeitos são conhecidos há no mínimo dez anos. Segundo o New York Times, “em 2015, um ex-discípulo o acusou de desvio de fundos do Templo Shaolin, enquanto uma carta anônima alegou que ele tinha várias amantes e desviava dinheiro para elas”.
Os monges budistas devem se desligar das posses materiais e ser celibatários – com a vantagem de que ninguém discute se deveriam se casar, como acontece com os padres católicos.
BONECOS LABUBU
A grande sabedoria de Shi Yongshin foi entender a sede que havia no Ocidente por ensinamentos orientais, principalmente se acompanhados de golpes que partem ao meio uma pilha de tijolos apenas com a lateral da mão e o controle da força vital, como acreditam, adestrada por anos de meditação e disciplina.
A sacada de Shi foi acompanhada por mudanças nas forças superiores: em lugar de desprezar e até destruir todos os ensinamentos tradicionais, como aconteceu durante o maoísmo, os líderes comunistas viram as vantagens de valorizar a cultura milenar como parte do projeto de transformação da China em superpotência mundial, disputando a hegemonia com os Estados Unidos.
Os chineses não são particularmente religiosos, mas incorporaram uma espécie de renascimento controlado do budismo. As práticas aceitas são apenas as submetidas ao estado – tanto que o budismo tibetano tal como o representado pelo Dalai Lama, o seu líder nacionalista exilado, é reprimido. A minoritária religião católica também era praticada em segredo, mas o papa Francisco fez um acordo altamente discutível que dá ao estado chinês o poder de interferir na nomeação de bispos. Nas regiões muçulmanas onde existe um movimento separatista, a repressão é brutal e as mesquitas só podem divulgar sermões pré-aprovados.
O mundo criado por Shi Yongshin não tinha esses dilemas. Vendeu franquias do templo, criou um show internacional para mostrar as habilidades dos monges e abriu as portas para a turistização desenfreada, com lojas de suvenir, incluindo, segundo o Times, os cobiçados bonecos Labubu, e guias oferecendo serviços.
TRÍADE DE DESEJOS
O escândalo de Shaolin não é o único envolvendo o budismo. Recentemente, a Tailândia foi abalada com o escândalo da mulher que gravou no celular milhares de imagens de sexo com monges budistas, usadas para chantageá-los.
Ao contrário da China, a Tailândia é um país profundamente religioso e até há não muito tempo vigorava o sistema de todas as famílias mandarem seus filhos para passar um período nos templos, vivendo uma vida de desapego material tão grande que tinham que mendigar todos os dias para poder comer.
O budismo é uma filosofia e uma religião transmutada em centenas de ramificações por toda a Ásia. Atrai ocidentais desde o fim do século XIX com a promessa de responder dúvidas fundamentais – ou pelo menos diluí-las na prática do desapego de todos os desejos.
É apenas humano quando esses desejos reaparecem, sob a forma da tríade poder, dinheiro e sexo? E as autoridades que tudo sabem deram corda para uma personalidade conhecida como Shi Yongshin até que ele se enforcasse?





