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Tanques versus drones: quem leva a melhor nessa guerra assimétrica

Como força atacante, é natural que os russos percam blindados cuja história começou na I Guerra Mundial - diferente é o uso maciço de drones

Por Vilma Gryzinski 21 mar 2022, 07h59

Piadinha ucraniana à moda antiga: “Nunca pergunte a idade de uma mulher, o salário de um homem e onde um agricultor ucraniano conseguiu seu sistema antimísseis”.

É um veículo esse tipo que aparece na foto acima, entre várias cenas que fizeram sucesso nas redes sociais com agricultores ucranianos usando seus tratores para guinchar blindados, inclusive os legendários tanques russos, que encrencaram ou foram abandonados no interior do país.

Outra piada, essa da vida real, segundo o Telegraph. Volodymyr Zelenskiy usou de seus dotes de humorista num telefonema com Boris Johnson. Louvando o sistema antitanque britânico conhecido como NLAW – que os ucranianos pronunciam, como fariam os brasileiros, “nilav” -, ele cantou, parodiando a música dos Beatles: “All I need is NLAW”.

Tanques russos encrencados ou detonados (258, segundo o último balanço do blog Oryx), os sistemas sofisticados que os tiram de combate, como o NLAW e o americano Javelin, e os mísseis turcos Bayraktar – cujos ataques são montados com trilha sonora para efeito propagandístico- estão conseguindo atrasar o que parece inevitável: a conquista de diferentes cidades colocadas na lista de pontos estratégicos russos.

Muito antes que a guerra acabe, os especialistas estão procurando tirar lições, inclusive sobre o desempenho dos equipamentos bélicos – e dos homens que os controlam.

Os percalços enfrentados pelos tanques russos na etapa inicial, alinhados em infinitas colunas que pareciam obedecer um manual obsoleto, levaram vários especialistas a cogitar se os blindados estariam superados na guerra moderna, uma hipótese que existia antes mesmo da operação na Ucrânia.

Desde o ano 218 antes de Cristo, quando Aníbal cruzou o Ródano com 37 elefantes de guerra – além de  38 mil soldados de infantaria e oito mil de cavalaria -, o mundo bélico é fascinado por  vetores capazes de avançar sobre o campo inimigo com uma couraça resistente e aterrorizante.

O tanque estreou na I Guerra Mundial, como uma tentativa de quebrar o impasse da guerra de trincheiras, mas ganhou celebridade com a tática da blitzkrieg usada pela Alemanha nazista para penetrar rapidamente as fileiras inimigas, com blindados, infantaria e cobertura aérea. Para derrotar um inimigo bem equipado, motivado e inventivo, a União Soviética apelou às contra-ofensivas em massa, com enorme sacrifício de vidas  e o uso de até 60 mil tanques.

Poder de fogo, resistência, mobilidade e capacidade de penetração fizeram do tanque a própria imagem da guerra convencional desde então. A última grande batalha de tanques foi na Operação Tempestade no Deserto, a invasão coordenada pelos Estados Unidos para liberar o Kuwait da forças de ocupação iraquianas, em 1991.

Como o nome indica, o terreno desértico parece ter sido feito para confrontos do tipo, embora muitos iraquianos estivessem mais ocupados em se render em lugar de lutar em nome de Saddam Hussein. A falta de combatividade se refletiu nos resultados. Na batalha de 25 de fevereiro, os americanos destruíram 186 tanques iraquianos e perderam quatro.

Desde então, as guerras se tornaram assimétricas e os pontos contra os tanques aumentaram. São cada vez mais caros  e complicados, por causa dos equipamentos high tech; os sistemas portáteis antitanques explodem um grandalhão a um custo muito menor; não servem para muita coisa nas guerras urbanas (exceto, claro, para a destruição em massa de casas e edifícios) e um simples drone tem uma capacidade desproporcional de destruição.

Os drones em operação na Ucrânia estão sendo ajudados pela rede de satélites Starlink, de Elon Musk, que melhora a velocidade das conexões. Musk prometeu colocar mais satélites em órbita para ajudar os ucranianos – e foi convidado por Zelensky a visitar a Ucrânia quando a guerra acabar.

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Quando isso vai acontecer, não dá para dizer. Como? Toda a lógica indica que a superioridade bélica russa acabará se impondo, mesmo a um preço muito mais alto do que Vladimir Putin esperava pagar – são impressionantes as imagens da fila de ônibus do exército russo, com as janelas cobertas de branco, atravessando a Belarus com corpos de soldados tombados em combate.

É impossível acreditar em qualquer número divulgado por todas as partes, pois faz parte da guerra da informação manipulá-los. Em princípio, por serem submetidos ao escrutínio da imprensa, os números da inteligência americana seriam um pouco menos distorcidos. Os sete mil mortos que havia contabilizado até o fim da semana passada seriam catastróficos, mas as forças russas têm como absorvê-los se forem mantidos a disciplina e os planos, obviamente adaptados à realidade (“Nenhum plano sobrevive ao contato com o inimigo”, alertava Eisenhower).

A tomada da cidade de Mariupol tem importância estratégica e simbólica para os russos. Foi lá que, durante 2014, o ano onde se gestaram as crises atuais, um improvisado Batalhão Arzov, os ultranacionalistas com tinturas neonazistas, reconquistou a cidade, tomada por forças pró-Rússia.

O Arzov continuou a ser muito forte em Mariupol e melhorou muito sua capacidade de combate e de propaganda. São do batalhão os vídeos feitos por drones mostrando tanques russos explodindo como num game, ao sim de músicas patrióticas.

As forças russas estão muito perto de fechar o semicírculo que vai de norte a sul da Ucrânia, pelo lado oriental, conquistando liberdade de ação para avançar sobre Kiev.

Acontecerá um milagre para salvar Kiev? É nessas horas que entram no mapa antecedentes históricos. O mais conhecido deles é o chamado Milagre do Vístula, referência à batalha de 1920 em torno de Varsóvia, quando forças polonesas (com aliados ucranianos, tendo os dois países se tornado independentes) em posição de desvantagem derrotaram, contra todos os prognósticos, o exército de outro país recém-formado, a União Soviética.

O arquiteto do ataque era Lênin, o comissário da Defesa era Trotski e o objetivo era levar a revolução bolchevique, na ponta da baioneta, até a Alemanha e daí para toda a Europa, atravessando uma Polônia que mal começava a se reconstruir como país.

Os poloneses mais devotos acreditam até hoje que os russos perderam batalhas vitais por causa de uma aparição de Nossa Senhora, abrindo o manto protetor sobre suas forças. Também ajudou o fato de que os poloneses haviam decifrado o código das comunicações por rádio do inimigo, possibilitando assim que soubessem antecipadamente seus movimentos.

Haverá um milagre do Dniepre, o rio que atravessa Kiev? Avançarão os tanques russos, superados ou não, sobre a capital ucraniana, numa batalha que multiplicará por várias vezes a destruição vista até agora?

Lênin achava que, quando o Exército Vermelho se aproximasse de Varsóvia, os comunistas poloneses se rebelariam e levariam o país junto. Os próprios comunistas poloneses haviam avisado que isso não aconteceria.

Os invasores de hoje também achavam que seriam recebidos de braços abertos pela população que tem o russo como primeira língua e não a insultos e manifestações inacreditavelmente corajosas de protesto em lugares já sob ocupação.

Vladimir Putin agora está avaliando se também recebeu prognósticos errados – e corre que pelo menos dois chefes de inteligência já estão em detenção domiciliar por causa disso. 

Contra informações erradas, nem o maior contingente de tanques do mundo, como tem a Rússia, dá jeito.

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