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Surpresa, surpresa: brasileiros e vizinhos apoiam captura de Maduro

Os índices são maiores ainda do que nos Estados Unidos; os venezuelanos, maiores interessados, esperam em massa um futuro melhor

Por Vilma Gryzinski 16 jan 2026, 06h42 •
  • A esquerda deveria analisar muito bem as pesquisas sobre a intervenção cirúrgica dos Estados Unidos para capturar Nicolás Maduro e levá-lo à justiça americana: brasileiros, chilenos, argentinos e, acima de tudo, venezuelanos, na maioria, apoiam a operação. O déspota é execrado pela população como ditador e protetor do tráfico de drogas. Quase 80% dos venezuelanos acham que a sua vida vai melhorar e 57% dos brasileiros consideram erradas as críticas do presidente Lula da Silva a Donald Trump.

    Associar-se voluntariamente a uma figura abominável como Maduro é um erro político que a esquerda comete, imaginando ter a vantagem moral de condenar uma intervenção estrangeira tão completamente fora do padrão. Não tem, do ponto de vista da maioria da população brasileira: 66%, segundo a pesquisa Quaest, acham que o Brasil deveria se manter neutro e para 51%, Lula errou. Outros resultados já foram amplamente divulgados: uma maioria de 46% aprova a operação e 39% desaprova.

    Ao contrário da versão maciçamente defendida pela esquerda e por órgãos de imprensa, os brasileiros põem o petróleo em terceiro lugar como motivação (lembrando: se fosse o fator principal, era só Trump aceitar as propostas de Maduro para negociar, como ele tentou fazer quando ainda acreditava ter o domínio da situação). A maioria – 31% – acha que foi para controlar o narcotráfico, outra manifestação muito forte de como os cidadãos comuns abominam a criminalidade.

    Na Argentina, a divisão é maior, retratando a força do partido peronista e a visão de que apoiar a intervenção americana equivale a endossar Milei: 47% foram contra e 38% a favor. O governo argentino deveria se manter à margem da questão, para 41%, e apoiar Trump, para 48%. Sobre a natureza do chavismo, não há ilusões: 67% dizem que não é uma democracia, contra apenas 15% endossando tal insanidade.

    CAUTELA E ESPERANÇA

    O apoio à operação é maior no Chile – 58% -, refletindo um anseio da população para que a Venezuela se normalize e diminua a pressão sofrida pelo país devido à grande quantidade de refugiados venezuelanos. Ao todo, 95% dos chilenos classificaram Maduro como ditador.

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    As maiores comemorações da queda de Maduro foram da comunidade venezuelana. Ao contrário, no estranho regime instaurado a partir da captura do déspota, que mantém todas as estruturas da ditadura e vai abrindo portas de saída aos poucos, a atitude dos venezuelanos é de cautela misturada a uma grande esperança.

    Segundo a importante pesquisa da Economist, mais de 50% dos venezuelanos apoiam a intervenção e menos de 15% são contra. Os 36% que preferiram não avaliar refletem o ambiente de medo natural, visto que os repressores continuam com os instrumentos de repressão. Mas nada menos que 70% esperam que sua situação econômica melhore nos próximos doze meses.

    Sobre o futuro do país, 68% acham que deveria haver novas eleições presidenciais. María Corina Machado teria 48% dos votos e Delcy Rodríguez, a interina que está fazendo negócios com Trump, 11%. Precisa dizer mais? Ou os que chamam a líder oposicionista de “grande perdedora” ou até de “ofensiva” — algo inacreditável para definir a coragem extraordinária dela — não ligam para os números?

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    POLITICAMENTE INCONVENIENTE

    Nos Estados Unidos, o resultado reproduz a divisão entre trumpistas e antitrumpistas, com a impossibilidade para os adversários de endossar qualquer coisa que o presidente faça, nem que seja salvar a vida de um condenado à forca, como aconteceu no Irã. No total, 45% são contra a captura de Maduro e 40% a favor. Uma maioria significativa de 57% acha que Trump deveria ter pedido autorização do Congresso, embora a lei o autorize a fazer o que fez e, obviamente, pedir o endosso do Legislativo tiraria o mais importante componente da operação, o fator surpresa.

    Também prevalece, na casa dos 62%, a visão de que o principal motivo de Trump foi acessar o petróleo venezuelano (seguem-se remover um líder corrupto, com 42%, e interromper o tráfico de drogas, 37%; a oposição ao trumpismo explica os 31% que debitam a intervenção ao desejo de distrair as atenções de problemas internos e, para 29%, a motivação foi aumentar o poder global dos Estados Unidos). Há um apoio de 50% a levar Maduro a julgamento por tráfico de drogas, contra apenas 20% com posição oposta. Também é grande a oposição – 61% – a que os Estados Unidos dirijam a Venezuela pelos próximos anos, mostrando como os americanos foram imunizados às interferências externas negativas como no Iraque.

    Em resumo: amplas maiorias nas Américas execram Maduro e seu regime e as opiniões sobre a intervenção americana têm influência partidária relativa. Não são, por enquanto, daquelas que mudam votos internamente, mas fica o tema para a esquerda refletir. Defender Maduro, além de moralmente abominável, é politicamente inconveniente. O discurso anti-americano tem sérios limites quando envolve manter o alinhamento com um ditador associado ao narcotráfico.

    Isso que ainda nem vieram à tona revelações sobre outros tipos de comprometimento, inevitáveis quando o processo começar a se desenrolar.

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