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Situação na Venezuela é surreal – mas resultados como a anistia são ótimos

Integrantes do regime fingem que não aguentam mais as ordens dos Estados Unidos e no fim acabam fazendo o que os americanos mandam

Por Vilma Gryzinski 2 fev 2026, 07h13 • Atualizado em 2 fev 2026, 07h14
  • “Liberdade, liberdade”, entoaram familiares de presos políticos assim que ouviram pelos celulares que a presidente interina Delcy Rodríguez havia mandado um projeto de anistia geral para a Assembleia Nacional. Muitas mulheres choraram e deram gritos de alegria ao mesmo tempo. “Deus é bom, Deus nos escutou”, disse a emocionada tia de um preso, Johana Chirinos. Deus e o presidente Donald Trump. Sem a captura de Nicolás Maduro e sem a surreal mudança de regime sem mudar seus integrantes, não haveria anistia nenhuma.

    Também não haveria a decisão de fechar o Helicóide, o tétrico prédio com formato de pirâmide em espiral que se transformou na Venezuela no que o DOI-Codi foi no Brasil: sinônimo de torturas e abusos – no caso venezuelano, em escala muito maior e com a diferença de que não há organizações armadas de esquerda. Inclui-se na lista de barbaridades os casos dos menores torturados com choques elétricos e sacos plásticos na cabeça para “confessar” que haviam sido pagos por María Corina Machado para participar de protestos contra o chavismo.

    Pensem nisso: adolescentes cruelmente torturados, não há quatro ou cinco décadas atrás, mas no ano passado. Mulheres violentadas, homens submetidos a condições atrozes, visitantes obrigadas a ficar nuas, tudo isso acabou. É uma notícia maravilhosa. Acelera a libertação a conta-gotas de presos políticos – cerca de 700 casos comprovados, incluindo jornalistas, advogados e um ex-governador, fora vários milhares em circunstâncias similares. A lentidão vinha causando muita angústia para as famílias.

    Acabou, acabou, acabou. Mesmo se a forma ainda cause surpresa, pois segue um modelo iniciado desde a captura de Maduro. A presidente interina permite-se declarações arrebatadas, até desafiadoras, em favor de venezuelanos resolverem “nossa questões” – e acaba fazendo o que os americanos mandaram. Foi assim com a nova lei sobre a administração dos recursos petrolíferos. Delcy anunciou o projeto e a Assembleia Nacional o aprovou unanimemente. A presidente interina comemorou ao lado do irmão, que preside o órgão legislativo, Jorge Rodríguez. Até o deputado Nicolasito Maduro Guerra, o filho Ronaldinho do próprio, estava lá, todo sorridente.

    DISCURSO ANTIAMERICANO

    Faz parte da encenação surrealista, ou do realismo mágico, para ficar nas nossas paragens, fingir que tinha sido ideia deles abrir a exploração do petróleo, arruinada pela incompetência e a corrupção, a empresas americanas. Delcy e companhia posaram para fotos em poses triunfantes.

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    Delcy também apresentou o projeto de anistia como iniciativa própria.

    Muitos oposicionistas, obviamente, ficam frustrados com o método americano. Queriam ver o regime derrubado, as suas figuras mais criminosas responsabilizadas perante a justiça, as instituições expurgadas – e, claro, María Corina como presidente, considerando-se que foi ela quem elegeu Edmundo González na eleição presidencial que Maduro roubou com inacreditável cara de pau, achando que poderia continuar até o fim da vida fazendo o que quisesse e ainda ganhando a cumplicidade de governantes vizinhos de esquerda.

    A vida e a Força Delta mostraram que ele se enganou redondamente. A eleição presidencial roubada poderia ter sido o início de uma transição controlada, mas Maduro obviamente não quis nem saber. Acabou numa penitenciária federal do Brooklyn. Até os cubanos, campeões do antiamericanismo e instigadores de Maduro, estão declarando “capacidade e disposição para dialogar com os Estados Unidos”. Bateu o medo.

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    A presidente Delcy fala em “nosso refém” ao se referir a Maduro e usa outros termos do discurso antiamericano de praxe, mas vai cooperando. Talvez ainda esteja sob o impacto do ultimato que, segundo uma gravação vazada, ela disse ter ouvido, juntamente com outros figurões do regime, no dia da captura de Maduro: tinham quinze minutos para decidir se colaboravam ou seriam mortos. Pode ter sido apenas um instrumento de pressão, pois os Estados Unidos não saem matando líderes estrangeiros que não tenham vidas americanas nas mãos, mas os bolivarianos acharam melhor não arriscar.

    AS REGRAS MUDARAM

    O que vai dar tudo isso? Como a Venezuela evoluirá para a democracia? Marco Rubio, o secretário de Estado que virou o CEO da Venezuela, disse que não haverá mais intervenções militares, que a captura de Maduro apenas visou um indiciado pela justiça America por tráfico de drogas e que é de interesse do país cujo dossiê agora está em suas mãos colaborar, inclusive para receber os ingressos provenientes do petróleo cuja comercialização está a cargo dos Estados Unidos.

    Nada disso é de acordo com as regras do manual das relações internacionais. Tem um fortíssimo aspecto do que poderia ser chamado de “diplomacia dos porta-aviões”, substituta contemporânea da diplomacia das canhoneiras, usada especialmente pela Inglaterra do século XIX. Um país se comporta mal, Trump mobiliza um porta-aviões – ou mais, como no caso do Irã – e pode haver uma solução pacífica, no máximo com uma operação cirúrgica como a captura do Bigodão que fazia dancinhas e provocava o presidente americano, imaginando-se protegido pelas regras vigentes até 3 de janeiro passado.

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    As regras mudaram, ainda está difícil entender o que isso implica de mudanças nas relações internacionais e as atenções no momento estão voltadas para o Irã, enquanto os porta-aviões manobram no teatro de operações do Oriente Médio.

    Mas é difícil não ver que a Venezuela, mesmo sem mudança de regime, sem democracia e com as mesmas dificuldades econômicas persistentemente cultivadas ao longo de 25 anos de bolivarianismo, está melhor sem do que com Maduro. E infinitamente melhor com a anistia política. Um detalhe final: o comerciante iraniano Erfan Soltani, de 26 anos, que seria enforcado por participação nos protestos contra o regime, motivo para Trump ameaçar mandar os bombardeiros, foi solto sob fiança no sábado. Mais uma notícia a ser comemorada. A diplomacia dos porta-aviões está funcionando para o bem até agora.

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