Se “não sobrou praticamente nada”, por que a guerra do Irã continua?
Donald Trump retratou uma realidade, fora o exibicionismo exacerbado pelos resultados bélicos, mas o inimigo mantém capacidade de atacar
O Irã está dobrado ou o regime teocrático ainda tem fôlego para o que os especialistas chamam de “horizontalização” do conflito? As duas coisas podem ser, simultaneamente, verdadeiras.
Donald Trump tem motivos para se jactar, como fez ontem ao dizer que “não sobrou praticamente nada” para ser alvejado, “só uma coisinha aqui, outra ali”, e ele pode dar o conflito por encerrado a hora que quiser.
Os números confirmam que a capacidade de ataque do Irã com mísseis balísticos foi intensamente afetada, girando na casa dos 80% ou 90%. Um levantamento publicado pelo Jerusalem Post mostra, dia por dia, como ataques de mísseis e drones contra Israel foram sendo reduzidos. No primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro, o Irã disparou 480 mísseis balísticos. No segundo, houve um aumento, 520. A partir daí, os números foram declinando: 400, 350, 250, 150, 100, 70, 50, 40. Os drones começaram com 720 e, na última contagem, foram 60. No total, a redução foi de 92%.
Os números que ampararam a declaração do presidente americano são tão fortes que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu julgou necessário dizer que “ainda não acabamos” e que o objetivo final é permitir aos iranianos assumir a mudança de regime. Tradução: não tão depressa, Trump.
MERCADOS CONVULSIONADOS
As duas declarações mostram que não existe sintonia total, embora Israel e Estados Unidos ajam concomitantemente, com grande coordenação. Para Israel, é de importância existencial aproveitar a chance única de eliminar o regime cuja razão de ser é implantar mundialmente a religião muçulmana e extirpar a nação judaica da face da Terra. Para Trump, perfeitamente ciente de que 54% dos americanos não concordam com a guerra, convém sondar as águas para ver as reações caso ele dê o conflito por encerrado.
A seu favor, pesam os balanços acima citados sobre a extensa degeneração dos sistemas iranianos de ataque, uma Marinha inteira hoje praticamente no fundo do mar, o número bastante reduzido de apenas sete baixas fatais até agora entre as forças americanas, o estreitamento da aliança com os países do Golfo Pérsico que, em diferentes escalas, buscaram uma reaproximação com o Irã e agora estão levando bomba.
Mesmo com a capacidade de ataque drasticamente reduzida, bastam uns poucos drones para causar um estrago tremendo, como aconteceu com o novo fechamento do aeroporto de Dubai. Uma simples ameaça levou à evacuação das instituições bancárias de Dubai e do Catar. A ideia de que os emirados eram ilhas de condições favoráveis a turistas, influenciadores e moradores estrangeiros tem sido cruelmente desmentida pela realidade.
Sem contar as ameaças que convulsionam o mercado de gás e petróleo, sua fonte de subsistência. Simples lanchas carregadas de explosivos incendiaram navios no lugar mais perigoso do mundo hoje, o Estreito de Ormuz. Trump está igualmente pressionado pelo aumento do preço do petróleo. A baixa da gasolina, promovida pelo aumento das licenças de exploração, era uma das maiores bandeiras de seu governo. A inflação também parecia ter sido domada. Trump tem que manter as conquistas econômicas e mostrar mais serviço, principalmente na questão do custo de vida, se não quiser ver o Partido Republicano moído nas eleições de novembro para o Congresso.
PRECEDENTE DO VIETNÃ
O regime iraniano, que pode se dar ao luxo de pairar acima de questões comezinhas como popularidade e aprovação, sabe muito bem como tudo isso pressiona Trump. Quem sofre mais, o presidente americano com o barril de petróleo a 120 dólares, ou a elite iraniana, que ameaça tratar seu próprio povo como inimigo, literalmente, caso ouse protestar, nas palavras de um dos porta-vozes militares?
Apesar da assombrosa eliminação de 49 dos homens mais poderosos do país, incluindo o líder supremo Ali Khamenei, as forças armadas e de segurança estão relativamente intactas e são poucas as cenográficas cerimônias de enterro de seus mortos, usadas como arma de propaganda.
Entre analistas que procuram ter alguma neutralidade – praticamente impossível, num ambiente em que a maioria da mídia e do mundo acadêmico torce para Trump se dar mal (e, consequentemente, o regime iraniano se dar bem) -, alguns precedentes históricos são lembrados. Inclusive o do Vietnã, onde “os Estados Unidos ganharam todas as batalhas em onze cruentos anos, mas famosamente perderam a guerra”, segundo um comentário no Telegraph.
O Vietnã é lembrado também como um exemplo de horizontalização, o espraiamento de uma guerra em que o adversário tem a supremacia aérea absoluta. “A escalada horizontal de uma guerra acontece quando um estado alarga o escopo geográfico e político de um conflito em vez de intensificá-lo verticalmente num único teatro de operações”, explicou na Foreign Affairs o acadêmico Robert Pape.
‘POSIÇÃO VANTAJOSA’
Obviamente, os americanos também aprenderam muito com as guerras do passado, e têm hoje instrumentos incomparáveis com os de cinquenta anos atrás, mas a clareza de objetivos da Fúria Épica continua a ser um problema.
Vitória será o que Donald Trump declarar como vitória? Como o público americano interpretará isso? E como poderá ser considerada vitoriosa uma campanha em que o novo líder supremo, o Khamenei júnior (ferido no primeiro dia dos ataques, como antecipado aqui; com o detalhe agora de que foi atingido nas pernas) clama por vingança pela família inteira exterminada?
“No momento, estamos em posição vantajosa”, disse um funcionário da chancelaria iraniana, Kazem Gharibabadi. “Olhem para o estado da economia global e dos mercados energéticos – eles estão sofrendo muito”. Segundo ele, o Irã determinará quando a guerra vai acabar.
Parece insanidade, mas reflete uma posição coesa do regime, expressada por funcionários de escalão mais baixo porque o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, além de ferido, praticamente não mantém nenhum tipo de comunicação, para não ter o mesmo destino que o pai.
“Estamos à frente do cronograma”, vangloriou-se Trump, mencionando uma campanha calculada para durar seis semanas. “Causamos mais danos do que achávamos possível”.
Qual narrativa prevalecerá?





