“Provavelmente, nenhum de nós terá um emprego.” Com palavras bem diretas, um gênio que entende do assunto, Elon Musk resumiu o futuro próximo no qual a inteligência artificial e a robotização assumem todas as funções. “Se você quiser fazer um trabalho que é como um hobby, poderá fazer. Mas, caso contrário, a inteligência artificial e os robôs fornecerão todos os bens e serviços que você quiser.” Como adquiri-los? Musk acha que haverá uma espécie de bolsa-família de alto valor, bancada por impostos cobrados das empresas robotizadas. Receberemos para ficar em casa.
De uma forma estranha, será a realização de uma das previsões mais conhecidas de Karl Marx. O filósofo do comunismo, com tantas profecias atabalhoadas, nas quais tantos acreditaram, de alguma forma — e nos termos pertinentes à época —, prognosticou essa mistura de ócio, lazer e atividades intelectuais. “Posso caçar de manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noite, fazer críticas depois do jantar, sem nunca me tornar caçador, pescador, pecuarista ou crítico”, escreveu ele. Estranho, não?
“Seremos seres mais desenvolvidos, que caçam de manhã e escrevem críticas à noite?”
Quando apelamos a Marx, geralmente a coisa está feia. O que acontecerá com centenas de milhões de pessoas com o ócio subsidiado pela inteligência artificial? Seremos seres mais desenvolvidos, que caçam de manhã e escrevem críticas à noite? Os grandes contingentes de jovens desempregados na Europa, mantidos com benefícios sociais (modestos, nada comparáveis à previsão de fartura das futuras bolsas), dão uma dica: em vez de seres livres da escravidão do trabalho, que cultivam o corpo e a mente, vemos contingentes humanos que enchem bares ou ficam nos games e sites pornô o dia inteiro. Muitos se tornam espectros sem direção. O velho e ridicularizado conceito de que o trabalho dignifica o homem (e também provê bem-estar psíquico, segundo Sigmund Freud) tem argumentos sólidos a seu favor. Uma vida sem trabalho desestrutura praticamente tudo.
Os seres humanos são bons para encontrar soluções — ou acomodações — para novos problemas, e não é recomendável olhar para o espantoso mundo novo que se aproxima rapidamente de nós como se fosse uma catástrofe e não um novo universo de possibilidades. Novas gerações se adaptarão a novas condições, como sempre na história da humanidade. Mais complicado é para a geração atual, à qual caberá fazer a transição. Ficar em casa em frente de uma tela já é o que praticamente todo mundo faz. E se não for preciso nem parar para os intervalos do trabalho? E se desistirmos até de nossa maior vantagem competitiva — a capacidade de aprender — e deixarmos a IA fazer isso por nós?
Vamos lembrar Marx de novo, já que estamos nesse momento saudosista. “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, assim, as relações de produção, e com elas todas as relações da sociedade. Revoluções constantes da produção, perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, incerteza e agitação sem fim distinguem a era burguesa de todas as anteriores”, escreveu o velho alemão. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado e o homem é finalmente obrigado a encarar com sentidos sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com sua espécie.” Elon Musk provavelmente assinaria embaixo. É só não contar quem é o autor.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008







