Os estudiosos do comunismo falam — e escrevem — abundantemente sobre a Nova Política Econômica implantada por Lênin em 1921. Dependendo da tendência ideológica, a NEP é discutida até hoje como um erro conceitual ou um lance de gênio do criador do comunismo na vida real, ao abrir controladamente as comportas da iniciativa econômica para tirar a nascente União Soviética do buraco negro provocado simultaneamente por uma revolução total, uma guerra civil e uma guerra mundial. Em qualquer das interpretações, foi um sucesso apenas temporário, rapidamente revertido para não deixar nenhuma impressão de concessões ao capitalismo. Mas ficou a ideia de grandes planos para conduzir a economia, contrariando em tudo o espírito libertário. Scott Bessent, o homem a quem Donald Trump encarregou de conduzir o que seria uma nova política econômica americana, não tem nada de libertário. Ao contrário, apesar do ânimo capitalista, quer corrigir erros do excesso do liberalismo da era da globalização. Vale a pena conhecer suas propostas, inclusive para ter uma ideia melhor do espaço onde entra o Brasil. Bessent defende uma espécie de protecionismo inteligente.
“Uma das ideias é nunca mais deixar os Estados Unidos dependerem da China até para esparadrapos”
Em primeiro lugar na lista, está reassumir as áreas vitais das economias avançadas: os Estados Unidos precisam ter a preponderância em matéria de semicondutores, inteligência artificial, computação quântica, manufatura avançada, minerais críticos e farmacologia — note-se que são todas áreas de extrema competição com a China. “A resistência na cadeia de comando não obriga que todos os componentes sejam domésticos, o que seria irrealista e desnecessário. Mas ela nos obriga a conhecer nossas vulnerabilidades e a reduzi-las antes que as crises se apresentem.” Tradução: nunca mais deixar os Estados Unidos precisando da China até para esparadrapos, como aconteceu durante a pandemia. Outro ponto da NEP de Bessent: reciprocidade comercial. “Os países não devem ter acesso ao nosso mercado sem dar acesso ao mercado deles.” O Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos, mas nesse ponto a discussão é como a do lobo e do cordeiro, partimos de uma posição de fraqueza. Não há reciprocidade que mude isso. Entender essa realidade é essencial para não ter ilusões. Contestar a predominância do dólar, que Bessent chama de liderança financeira, outro pilar da política que defende, também não ajuda a conquistar simpatias em Washington.
A coluna final da NEP de Bessent é promover a prosperidade das famílias americanas, a base da economia saudável. Muitos fatores trabalham contra isso no momento, inclusive o aumento da gasolina decorrente da alta instabilidade no Oriente Médio. Negociar redução de tarifas nessas circunstâncias é praticamente um ato de magia. Mas não temos alternativas. O secretário do Tesouro já disse que “ter acesso a produtos baratos não faz parte do sonho americano”. Precisava ser mais claro? Argumentos com base apenas no preço não são mais definitivos.
A famosa frase de Lênin sobre dar um passo atrás para depois avançar dois à frente foi dita sobre o recuo tático para o capitalismo do tempo da NEP. Precisamos calcular bem para onde nossos passos nos levarão, com responsabilidade e sem exibicionismo eleitoreiro.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006





