O presente manipula o passado
Não é só mais uma aula chata: a História tem importância existencial
“A História será boa para mim porque eu pretendo escrevê-la”, provocou o gigantesco Winston Churchill — e cumpriu, tendo produzido dezenas de volumes sobre sua trajetória incomparável. A História, no entanto, está fazendo das suas: Churchill hoje é ensinado nas universidades, dominadas pelo pensamento esquerdista mais rasteiro, como representante de todos os males do colonialismo, um líder cruel que não agiu para impedir a grande fome na região indiana de Bengala, com cerca de 3 milhões de mortes. Existem vários argumentos contrários, mas quem está interessado na verdade quando pesa mais a doutrinação? Se alguém ainda usar dinheiro em espécie quando for ao Reino Unido, notará que as notas de 5 libras com a efígie de Churchill estão a caminho da extinção. Animais da fauna local substituirão o legendário primeiro-ministro — e também o matemático Alan Turing e a escritora Jane Austen, um gay e uma mulher, mas não suficientemente woke para os tempos atuais. Todos foram dados como “contenciosos” e representantes de “uma visão retrógrada do Reino Unido que implica um grande risco de divisão e controvérsia”. Depois reclamam quando a extrema direita argumenta que a história britânica está sendo sabotada, num movimento destinado a apagar a identidade nacional.
“A visão crítica é importantíssima, mas quando se transforma em visão única distorce o debate”
O passado, sabemos todos, é constantemente reescrito, inclusive por causa da famosa premissa de George Orwell (“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”). A visão crítica é importantíssima, mas quando se transforma em visão única distorce um debate que deveria nos enriquecer e ajudar a entender não só quem fomos, mas quem queremos ser hoje. Outro exemplo anglo-saxão de como o pensamento woke deforma o debate: os museus históricos americanos hoje são focados nos males de seus personagens mais importantes, não na multiplicidade de fatos, contraditórios, que marca a história americana. A distorção é tal que, mesmo quem não concorda em nada com Donald Trump, deveria admitir a realidade da conclusão de uma comissão que analisou os posicionamentos da Smithsonian Institution, o complexo de museus históricos em Washington, e concluiu que o objetivo parece ser apagar o legado histórico da nação. Exagero conservador? Com aberrações como chamar Cristóvão Colombo de “ladrão” e alegar, falsamente, que Benjamin Franklin fazia experiências com choques elétricos em escravos, fica difícil atribuir tudo a uma intenção doutrinária da direita.
É o mesmo espírito que inspira o deturpado ensino de História no Brasil, onde figuras como dom João VI são apresentadas como personagens grotescos, em lugar de entender o rico momento histórico que as guerras napoleônicas criaram, unindo a distante província dos papagaios aos terremotos políticos na Europa. É possível admirar Churchill e reconhecer seus muitos erros? E até sentir uma saudadezinha da nota de 5 libras? Perfeitamente. Pelo menos num mundo onde a complexidade dos acontecimentos históricos não seja substituída pela pobreza do pensamento reducionista e celebrar a vitória na II Guerra Mundial seja considerado um incentivo a visões nacionalistas, mesmo que isso também pese. Afinal, Churchill deixou ensinado que “a maior lição na vida é saber que até os tolos às vezes estão certos”.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004







