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O homem do porrete: Cabello desafia companheiros e até Donald Trump

Com político preso pela segunda vez, o aliado de Cuba e homem forte mostra disputa interna no regime e reabre pergunta: por que está solto?

Por Vilma Gryzinski 11 fev 2026, 07h05 •
  • “Alguns políticos acham que podem fazer o que lhes der na cabeça e enganar o país violando as condições com as quais lhes foi dada a liberdade”. Assim, falando grosso e como dono do poder, Diosdado Cabello, o ministro do Interior e principal colaborador de Cuba na Venezuela, justificou o injustificável: a prisão de Juan Pablo Guanipa, braço direito de María Corina Machado, poucas horas depois de ser solto da mais execrável prisão política do país, onde passou nove meses literalmente na escuridão, uma punição que repugna às consciências de todo o mundo.

    A segunda prisão seguiu os métodos habituais, com agentes sem identificação interceptando o alvo na rua, quando dirigia. Guanipa passou várias horas desaparecido e acabou “devolvido” para cumprir prisão domiciliar.

    É óbvio que a brutal intervenção representa um desafio aos dois principais dirigentes políticos da Venezuela, os irmãos Rodríguez, ela, a presidente interina Delcy, ele, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge.

    O que os irmãos Rodríguez fazem durante o dia, procurando uma transição sem quebra de hierarquia, um estranho e inédito processo supervisionado pelos Estados Unidos, Diosdado Cabello, o homem do porrete – literalmente, pois ele ganhou infâmia num programa de televisão onde empunha a arma – desfaz durante a noite.

    NORMALIZAÇÃO IMPOSSÍVEL

    É impossível não se perguntar como Cabello, que responde aos operadores cubanos em ação na Venezuela, está livre para conspirar contra os integrantes do regime cooptados para colaborar com os Estados Unidos depois da captura de Nicolás Maduro.

    Como o presidente agora recolhido ao sistema prisional americano, Cabello foi investigado oficialmente por tráfico de drogas nos Estados Unidos e havia uma recompensa por sua captura – 25 milhões de dólares, metade da de Maduro.

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    Enquanto ele estiver em operação, obviamente é impossível qualquer projeto, mesmo longínquo, de normalização e transição democrática.

    Com Diosdado Cabello, o plano de Donald Trump não pode dar certo e os irmãos Rodríguez ficam desmoralizados.

    ACONTECIMENTOS TRAUMÁTICOS

    Jorge Rodríguez tem sido o principal porta-voz dessa transição para, segundo uma entrevista ao Newsmax, restabelecer a normalidade institucional, reduzir a polarização e construir consensos básicos para avançar na direção de um novo calendário eleitoral. Ou seja, fazer o que os americanos mandam para redemocratizar o país e, em última instância, promover eleições legítimas, mas num processo soft, sem mais acontecimentos “altamente traumáticos”, como ele classificou a extração de Maduro.

    O presidente da Assembleia Nacional parece ter ensaiado um discurso perfeito – embora espantoso, considerando-se sua ficha. Disse ele: “O interesse da Venezuela é seguir adiante e promover a saúde, a educação e a cultura através de uma economia de mercado livre”. Sumiu assim, num passe de mágica decorrente da ação fulminante da Força Delta, o fracassado socialismo do século XIX, responsável por arruinar o país de tal maneira que quase um terço da população teve de buscar a sobrevivência em outras paragens.

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    Ah, sim, e também existe um entendimento crescente com os Estados Unidos.

    Se isso se realizasse, seria muito bom para a Venezuela, embora frustrante para os que querem, com razão, ver os responsáveis pela perseguição política e a ruína econômica pagar por seus crimes – sem contar o vergonhoso terceiro lugar de país mais corrupto do mundo da lista da Transparência Internacional (só perde para o Sudão do Sul e a Somália).

    EXPERIMENTO SEM PRECEDENTES

    Existe, obviamente, um Cabello no meio do caminho. Ele continua a operar as forças policiais e os serviços de inteligência, com forte presença cubana. Chamou a captura de Maduro de “ataque bárbaro e traiçoeiro”. Deve sentir-se seguro para falar isso e mandar prender e soltar. Nesse caso, torna-se mais importante do que Delcy Rodríguez e seu irmão.

    Qual o motivo de tanta segurança? Não teria visto como foi fácil para as forças especiais americanas baixar de helicópteros e levar embora Maduro e esposa?

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    Um ex-integrante do governo falou em off para o New York Times que Cabello, que tem a patente de tenente-coronel, era um mistério até para integrantes do regime, com poucos aliados conhecidos, exceto alguns militares.

    “Ele é tão ruim quanto Maduro, se não mais”, disse ao jornal uma analista do Eurasia Group, Risa Grais-Targow. Sem dúvida nenhuma, muito mais. Quem sujava – e continua a sujar – a mão na repressão direta é ele. Agora, passou a intimidar os detentores visíveis do poder.

    Será interessante ver como Trump e seu CEO para a Venezuela, o secretário de Estado Marco Rubio, lidam com Diosdado Cabello para seguir adiante com o experimento sem precedentes que estão fazendo na Venezuela.

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