Não é só no Brasil: direita trumpista também briga; motivo é a guerra
Antes era só no jornalismo, com nome como Megyn Kelly, mas demissão de um assessor importante mostra racha sobre campanha no Irã
Os judeus manipulam todas as alavancas do poder nos Estados Unidos, Israel arrasta os Estados Unidos para guerras que não são do interesse americano e Benjamin Netanyahu enganou Donald Trump sobre o Irã, levando-o a um conflito indesejável. Maluquices desse tipo foram incorporadas pelo discurso da esquerda descabeçada, agora também se propagam entre a direita mais dura nos Estados Unidos. De forma menos tosca, foi isso que disse Joe Kent ao pedir demissão do cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, levando para dentro do governo Trump uma batalha antes travada na esfera de comentaristas e influenciadores.
Na explosiva carta de demissão, Kent, um veterano com onze missões de combate no Afeganistão e no Iraque, disse que Trump foi “enganado” por Israel, levando-o a acreditar que o Irã representava uma ameaça para os Estados Unidos. “Isso é uma mentira e a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra no Iraque, que custou a nosso país as vidas de milhares de nossos melhores homens e mulheres”.
A própria mulher de Kent, uma linguista que falava português e árabe e trabalhava com criptologia para os SEALS, morreu no atentado de um homem-bomba do ISIS numa lanchonete no interior da Síria.
Note-se a distorção, clássica do antissemitismo: quem matou Shannon Kent foi o Estado Islâmico, mas a culpa, segundo o viúvo, foi de Israel.
A segunda mulher de Kent, Heather Kaiser, escreve no Greyzone, um site virulentamente contra Israel e onde circulam teorias conspiracionistas malucas, como a de que o FBI manipulou iranianos e um paquistanês para parecer que planejavam o assassinato de Donald Trump.
‘COVARDES E MENTIROSOS’
O foco de todos os conspiracionismos mais extremados é Tucker Carlson, o ex-apresentador da Fox que virou uma força independente e tem um público enorme, principalmente na zona de homens jovens de direita que não têm a tradicional simpatia por Israel das faixas etárias mais velhas e informadas sobre os horrores antissemitas do passado.
Muito do que ele diz é irreproduzível, de tão absurdo. Agora está dedicado a pintar a si mesmo como um perseguido pela CIA. Trump, perfeitamente consciente da influência de Carlson, tentou intermediar uma aproximação com a causa israelense e foi um desastre. Carlson não saiu do aeroporto Ben Gurion, onde a segurança é notoriamente severa, e voltou aos Estados Unidos dizendo mais barbaridades ainda sobre Israel.
A guerra do Irã deixou essa ala do trumpismo em surto. É fato que Trump prometeu não envolver mais os Estados Unidos em intervenções para mudar o regime de países do outro lado do mundo, com enormes custos em vidas e gastos, além de resultados desastrosos. Ele também não “vendeu” uma narrativa convincente sobre a necessidade de bombardear o Irã – deixando o flanco aberto tanto a argumentos razoáveis, como também irrazoáveis, ancorados num antissemitismo nada oculto.
Megyn Kelly, outra ex-Fox que virou potência por direito próprio, apresenta argumentos razoáveis – “não vale a pena morrer por um país estrangeiro” -, mas perde a razão quando parte para cima de comentaristas a favor da guerra, atacados por serem judeus, como Ben Shapiro e Mark Levin. Ela inventou até uma expressão para eles, “Israel firsters”, os que pensam acima de tudo nos interesses israelenses, em lugar do “América em primeiro lugar”. Shapiro diz que os que pensam como ela são “covardes, mentirosos e odeiam a América”.
A direita antissemita é um fenômeno antigo nos Estados Unidos, remontando à década de trinta, que parecia pertencer ao passado, mas que revive em circunstâncias diferentes e com personagens de grande apelo popular, como Nick Fuentes e até Kanye West, seja lá como se chame atualmente.
FENÔMENO ISOLADO
Joe Kent aproximou-se dessa turma quando tentou ser deputado. Ele também é próximo de Tulsi Gabbard, a ex-democrata que parecia trabalhar para Vladimir Putin de tanto entusiasmo pelo czar russo e que foi premiada por Trump como diretora de Inteligência Nacional, um cargo vital, com acesso e coordenação de todas as instituições de segurança. Estranhamente, Tulsi desapareceu do mapa e não está presente em momentos em que deveria ser indispensável, como as reuniões nas quais Trump e equipe acompanham em tempo real intervenções como a da captura de Nicolás Maduro e o início do bombardeio do Iraque.
Também anda em silêncio o vice-presidente JD Vance, da ala anti-intervencionista, mas sem traços de antissemitismo.
As brigas internas, como sabemos, são as que mais expõem as entranhas dos partidos envolvidos. A figura de Trump impõe um grande senso de união entre diferentes alas do Partido Republicano e o racha representado por Joe Kent ainda é um fenômeno isolado. Muito dependerá de como se desenvolve a guerra no Irã, que começou há apenas três semanas e deixou até agora onze baixas entre as forças americanas, um número bem limitado.
O que virá pela frente é imponderável, mas Donald Trump já sabe que não enfrenta apenas a oposição do Partido Democrata e da maioria esmagadora da mídia. A dissidência está latente entre suas próprias legiões e é virulenta. Imaginem como progredirá se a guerra se eternizar ou envolver operações terrestres, com o consequente aumento do número de baixas, e mantiver ou até aumentar os preços altos do petróleo.
A oposição, como é da natureza da política, tenta tirar partido dessas divisões internas. Depende de Trump – e de fatores incontroláveis como uma campanha para derrubar um regime só com bombardeios – evitar que seu rebanho se disperse. No Brasil, qualquer erro da esquerda costuma ser apresentado tolamente não como um equívoco em si, mas como algo que “dá munição para a direita”. Trump tem pela frente um bocado de munição para desativar.





