Mulheres vão para esquerda, mas as líderes de direita vivem ascensão
Na Inglaterra, a parlamentar Suella Braverman foi mais à direita ainda, aderindo ao partido de Nigel Farage, exemplificando sucesso conservador
Para a política britânica, foi um choque. Uma figura importante do Partido Conservador, Suella Braverman, que já ocupou cargo equivalente ao de ministra do Interior, anunciou espetacularmente que estava mudando de barco e aderindo ao Reforma, o partido de direita populista sem nenhuma tradição, mas com popularidade arrasadora nas pesquisas, fruto da ascensão quase inacreditável de Nigel Farage.
Ao todo, oito políticos importantes já largaram seus barcos e entraram para o Reforma, em geral pelo mesmo motivo: o modelo político atual está esgotado, conservadores e trabalhistas viraram praticamente uma coisa só e o eleitorado precisa desesperadamente de uma alternativa, principalmente na esfera da imigração e da economia.
Outros dois nomes importantes do Partido Conservador, Robert Jenrick, que chegou muito perto de ser eleito líder do partido, e o ex-ministro da Fazenda Nadim Zahawi haviam feito a mesma transição há menos de duas semanas. Muito provavelmente entusiasmados com a ideia de que, se a eleição fosse hoje, o Reforma elegeria estarrecedores 396 parlamentares (começou com quatro), a maior ascensão já vista numa história política que praticamente criou o modelo parlamentarista seguido em tantos países.
Curiosamente, a deserção de Suella a coloca em confronto direto com a única estrela do Partido Conservador do momento, Kemi Badenoch, a líder dos tories. Suella é descendente de indianos, com o sobrenome original de Fernandes, remetendo à colonização portuguesa de Goa. Kemi nasceu numa família nigeriana como Olukemi Olufunto Adekoke.
PANTERA CONTRA COELHINHO
Que duas mulheres pertencentes a minorias étnicas sejam desafiadoramente de direita deixa a esquerda enlouquecida. Ambas são ótimas nas artes da oratória, tão valorizadas no Reino Unido, onde as sessões semanais nas quais se confrontam os políticos do governo e os da oposição parecem provocantes e bem-humorados debates universitários (se as universidades aceitassem argumentadores de direita, claro).
Kemi tem feito picadinho do primeiro-ministro Keir Starmer, ao qual contesta como uma pantera brincando com um coelhinho assustado, e recuperou alguns pontos para os conservadores, mas parece condenada pelo refluxo histórico: os eleitores de esquerda nunca votariam nela e os de direita se sentem, justificadamente, enganados pela inépcia de seus representantes para confrontar questões existenciais, como a da imigração, e estão aderindo em massa ao Reforma.
Mas não deixa de ser interessante que duas mulheres agora se digladiem pelos votos da direita e justamente no país de Margaret Thatcher, o modelo supremo de todas as políticas conservadoras. Outras aspirantes a Thatcher, no mundo, incluem Giorgia Meloni, a primeira mulher a chefiar um governo na Itália, de forma regular e estável, para surpresa dos que previam exatamente o oposto, e a japonesa Sanae Takaichi, que assumiu o risco de antecipar eleições com apenas três meses de governo.
Marine Le Pen é um nome consolidado na França – embora atualmente inelegível, além de ser de direita apenas em relação à imigração, defendendo um governo grande e protetor, sem nada do liberalismo tradicional – na França, até a direita é de esquerda nesse ponto.
ESQUERDISTA CONSERVADORA
Mais uma curiosidade: a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, agora bajulada pelos que a imaginam uma gigante na resistência à cobiça de Donald Trump sobre a Groenlândia, também mistura as duas tendências. É da centro-esquerda tradicional, mas implantou um sistema de enormes exigências aos aspirantes a se radicar no país, incluindo a integração obrigatória e até a entrega de joias e outros valores trazidos por imigrantes que desfrutarão de benesses do Estado.
A política linha-dura é muito popular entre os dinamarqueses, que constantemente fazem comparações com os péssimos exemplos vistos na vizinha Suécia em matéria de liberalidade autodestrutiva com a imigração, e deve garantir à primeira-ministra, que já foi chamada de conservadora de esquerda, uma terceira reeleição.
A ascensão de políticas de direita coincide, curiosamente, com uma espécie de esquerdização em massa do eleitorado feminino, um fenômeno especialmente visível nos Estados Unidos, onde o voto de eleitoras com instrução universitária teve uma diferença de 38 pontos contra Donald Trump em 2024.
É também grande e até majoritária a participação feminina em movimentos de esquerda, como as manifestações a favor do Hamas e, agora, os protestos contra os agentes de imigração do ICE.
DEBATE MAIS INTERESSANTE
Mulheres brancas de nível universitário viraram as mais radicais, talvez sentindo-se protegidas por privilégios naturais a ponto de desafiarem agentes armados, como lamentavelmente fez Renee Good, incentivada pela companheira a não ouvir a ordem de parar, levando-a a arrancar com seu SUV quando agentes do ICE a cercavam. Terminou na terrível tragédia de sua morte inútil.Não é uma boa ideia desafiar agentes da lei ou ir armado com uma Sig Sauer a uma situação de confronto com eles, o que provocou outra morte lamentável, a do enfermeiro Alex Pretti.
Candidatos que prometem mais programas governamentais costumam ser beneficiados por mais votos do eleitorado feminino por motivos óbvios – as mulheres de menor renda, não as mimadas esquerdistas universitárias, dependem mais desses benefícios.
Lula da Silva teve 58% do voto feminino em 2022, contra 42% para Jair Bolsonaro (homens votaram ao contrário: 47% contra 53%).
Mulheres de direita quebram esse padrão. Quando são não-brancas, como Suella Braverman ou Kemi Badenoch, a quebra dos estereótipos é maior ainda. E o debate fica muito mais interessante pela visão única que trazem a ele. Vale a pena, aos que rejeitam suas ideias, suspender nem que seja por alguns instantes as concepções preconcebidas e ouvir o que têm a dizer.





