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Mundialista

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Irã atacou árabes para forçá-los a pressionar Trump; deixou-os furiosos

A tática de bombardear vizinhos e ameaçar sua produção de petróleo não está funcionando, inclusive porque EUA e Israel têm hegemonia

Por Vilma Gryzinski 3 mar 2026, 16h11 •
  • O predomínio americano é tamanho que Donald Trump já está trolando o inimigo – “Eles querem conversar. Eu disse que é tarde demais”, foi uma de suas frases mais bombásticas. Não é recomendável fazer isso no meio de uma guerra, onde o inesperado está sempre atrás do próximo míssil, mas Trump é Trump. Não vai exercer nunca a continência verbal, principalmente diante do sucesso estonteante dos ataques americanos e da atitude dos aliados que ele cultiva, como o Catar – um dos dez países que o Irã mirou com mísseis e drones, numa atitude indicadora de desespero. Em vez de forçar os vizinhos árabes a pressionar Trump para suspender a Fúria Épica e voltar à mesa de negociações, o Irã está conseguindo deixá-los furiosos, ainda mais por causa do efeito em sua única fonte de renda, as reservas de petróleo e gás.

    Os ataques contra o Catar, por exemplo, quebram toda a multifacetada política de ambiguidade seguida pelo emir Tamin Bin Hamad Al Thani. Por exemplo, ele financia e abriga líderes do Hamas, mas ao mesmo tempo cultiva uma proximidade até excessiva com Trump. O presidente americano chegou a aceitar de presente do Catar um novo e caríssimo avião para substituir o Air Force One. É totalmente impróprio, mas típico de Trump. O sorriso exuberante do emir quando se encontra com Trump indica que ele ou acha que pode comprar o presidente dos Estados Unidos ou pelo menos desistiu da política de aproximação com o Irã.

    Outros países da região, como Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, também estão furiosos. Não são ataques pontuais. Segundo balanço de ontem dos EAU, o Irã disparou 186 mísseis e 812 drones contra os minúsculos emirados. Até o neutro Kuwait tem sido um dos mais atacados, por abrigar bases americanas e também porque o regime iraniano partiu para a opção maximalista. Cenas dramáticas mostram o estado de espírito dos kuwaitianos. Um piloto americano ejetado, depois de seu F-15 ser derrubado por fogo amigo, quase levou uma pancada de cano de ferro na cabeça de um cidadão que o confundiu com um iraniano. Em outra cena, uma piloto abre um sorriso quando ouve “Obrigado por nos ajudar”. Uma frase simples e significativa.

    Vários desses países do Golfo tentaram até recentemente uma abertura para o Irã. A Arábia Saudita revogou uma ruptura de muitos anos. Em troca, levaram tiro, pancada e bomba.

    QUEIMANDO PONTES
    Muito dessa reaproximação foi fruto da política de Joe Biden, que condenou ostensivamente o príncipe todo-poderoso, Mohammed Bin Salman, pelo assassinato do jornalista dissidente Jamal Khashoggi. Uma atitude moralmente correta, mas revogada quando a situação do petróleo se agravou e Bush teve que voltar atrás, visitando pessoalmente a Arábia Saudita para mendigar o aumento da produção, numa espécie de pedido de desculpas tácito.

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    Trump, ao contrário, trata o príncipe com a maior deferência, a ponto de ter partido para sua defesa quando ele visitou Washington e enfrentou perguntas de jornalistas americanos sobre Khashoggi. “Ele não sabia”, bradou, reclamando também que aquilo não era forma de tratar um convidado – um tremendo absurdo, uma vez que o papel de jornalistas não é reverenciar convidados do governo.

    Mas Trump, evidentemente, tem um ótimo trânsito entre os países do Golfo. Com seus interesses ameaçados, eles se voltam para o gigante americano. A estratégia do Irã foi assim resumida por Steven Erlanger no New York Times: “Danificar a infraestrutura de gás e petróleo nos países vizinhos, fechar o Estreito de Ormuz à navegação e interromper o tráfico aéreo, de forma a convulsionar as economias do Golfo Pérsico e aumentar os preços globais da energia e a inflação. O Irã também tentará exaurir o número dos caros interceptadores de mísseis de seus inimigos”.

    Se o preço é queimar pontes com os vizinhos, o regime parece não estar mais preocupado, uma vez que prevalece o modo sobrevivência existencial e o impulso de tocar fogo no circo.

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    “Ao contrário de seus inimigos, o Irã se preparou para uma longa guerra”, proclamou Ali Larijani, dado como potencial substituto do pulverizado aiatolá Khamenei, o que o deixa em uma posição de altíssimo risco.

    INFORMANTE IN LOCO
    Israel, obviamente, também se preparou – aliás, desde 2001, por ordem do falecido Ariel Sharon, a prioridade número um do país é o Irã. Mesmo debaixo de bombas, muitos israelenses celebraram ontem o feriado religioso do Purim, referente à eliminação de um inimigo persa na era bíblica – é impossível não fazer a ilação com o fim apoteótico de Ali Khamenei, pulverizado com mais 48 figurões do regime logo nos primeiros trinta segundos da guerra.

    A operação foi propiciada tanto pela inteligência israelense quanto pela CIA, que tinha até um informante in loco para confirmar a presença do aiatolá num bunker supostamente blindado. Segundo o Financial Times, Israel hackeou as câmeras dos sinais de trânsito de Teerã para seguir as pistas do aiatolá, cuja obra final foi autorizar o hedionda repressão contra seu próprio povo, com mais de trinta mil mortes nos protestos de janeiro.

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    Este é outro fator imponderável: a reação interna dos iranianos que execram o regime, agora fragilizado. Fora as comemorações espontâneas quando a morte dele foi anunciada, aos prantos, por um apresentador da televisão oficial, não surgiram sinais de outras ondas de protesto.

    Em suma: a enorme superioridade dos Estados Unidos e de Israel infligiu danos praticamente impensáveis, mas o regime resiste como uma fera acuada. Os vizinhos que se modelaram como países estáveis, capazes de atrair moradores e turistas estrangeiros, estão pagando um preço alto, mas por enquanto não insuportável, por viver onde vivem.

    O conflito também expõe a fratura entre os sunitas, a vertente majoritária do Islã, predominante entre os árabes, e o Irã xiita. A perda da ilusão de que se entenderiam, unidos inclusive pela execração a Israel e as consequências de Gaza, é um dos múltiplos resultados de uma guerra cuja extensão e duração continuam imprevisíveis. Mas o xeque Al Thani não parece no momento inclinado a brigar com Trump e fazer o jogo do Irã. Como qualquer outro líder político, ele tem mais interesses do que amigos, mas basta olhar para os países em volta e ver quem continua no mundo dos vivos e quem foi para outra dimensão. Ao contrário de canastrões de outras plagas, ele não acha que está na hora de se preparar para o pior.

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