Indomável: Corina não pode receber o Nobel, mas suas palavras vivem
Vale a pena ouvir o discurso que a líder da oposição mandou para a cerimônia à qual o regime de Maduro a impediu de chegar a tempo
Mais forte do que os mísseis disparados pelos caças F18, mais blindada do que a couraça do porta-aviões Gerald Ford, mais poderosa do que a força-tarefa americana no Caribe. Parece absurdo falar assim da líder oposicionista María Corina Machado, provável futura presidente democrática da Venezuela, mas do fundo de sua impotência, ela pode mais do que todas as forças americanas congregadas por Donald Trump para pressionar Nicolás Maduro até cair.
A mulher que não pode aparecer em público na Venezuela e que viveu uma sequência de riscos, “com muita gente que arriscou sua vida”, para chegar a Oslo, mesmo depois da cerimônia de entrega, na qual seus filhos a representaram, mostrou o que é o poder imbatível da narrativa de quem luta contra a tirania. Poucas forças no mundo se comparam a ele, inclusive pela capacidade de advertir a todos os autoritarismos em formação.
Disse ela no discurso que não pôde fazer pessoalmente: “Desde 1999, o regime se dedicou a desmantelar nossa democracia: violou a Constituição, falsificou nossa história, corrompeu as Forças Armadas, expurgou juízes independentes, censurou a imprensa, manipulou as eleições, perseguiu a dissidência e devastou nossa biodiversidade”.
“A economia desabou em mais de 80%, a pobreza superou os 86% e nove milhões de venezuelanos se viram obrigados a fugir. Não são números, são feridas abertas”.
“A migração forçada que buscava nos fraturar, terminou nos unindo em torno de um propósito sagrado: reunir nossas famílias em nossa terra”.
TERROR DESENCADEADO
María Corina relembrou um episódio ocorrido durante a campanha presidencial reprimida, na qual ela foi proibida de concorrer, mas conseguiu eleger seu substituto, Edmundo González, num resultado avassalador de quase 70% dos votos, toscamente fraudado pelo regime. Assim foi o relato:
“Em maio de 2023, durante um ato de campanha na localidade de Nirgua, aproximou-se de mim uma professora chamada Carmen. Contou que havia visto ali sua chefe de rua, uma operadora do regime que decide, casa por casa, quem ganhará uma sacola de comida e quem será castigado com a fome. Surpresa, Carmen perguntou a ela: ‘O que está fazendo aqui?’. A mulher respondeu: ‘Meu único filho, que foi embora para o Peru, pediu que eu viesse. Disse que se vocês ganharem, ele regressará. Diga o que tenho que fazer’. Nesse dia, o amor venceu o medo”.
María Corina também relatou a repressão desencadeada depois da vitória de seu candidato, comprovada com registros dos boletins eleitorais feitos por voluntários muitas vezes com grande risco:
“A ditadura respondeu aplicando o terror. Duas mil e quinhentas pessoas foram sequestradas, desaparecidas ou torturadas. Marcaram suas casas, tomaram famílias inteiras como reféns. Sacerdotes, professores, enfermeiras, estudantes: todos perseguidos por compartilhar um boletim eleitoral”.
ESCRAVIDÃO SEXUAL
“Mais de 220 adolescentes detidos depois da eleição foram eletrocutados, espancados e asfixiados até dizer a mentira que o regime precisava difundir: que haviam sido pagos por mim. Mulheres e adolescentes encarceradas continuam hoje submetidas à escravidão sexual, obrigadas a suportar abusos em troca de uma visita familiar, um prato de comida ou o simples direito a tomar um banho”.
As palavras de Corina são transformadoras por terem uma visibilidade mundial proporcionada pelo Nobel da Paz. Também devem ser lembradas por quem cai na jogada fácil de protestar contra o imperialismo americano, como se a operação no Caribe estivesse acontecendo no vácuo.
Foram igualmente impactantes as palavras do presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Jorgen Watne Frydnes. Sem a cautela habitual da diplomacia nórdica, ele advertiu: “Os regimes autoritários aprendem uns com os outros. Compartilham tecnologias e sistemas de propaganda”.
“Por trás de Maduro estão Cuba, Rússia, Irã, China e Hezbollah, que proporcionam armas, sistemas de vigilância e vias de sobrevivência econômica. Fazem com que o regime seja mais forte e mais brutal”.
LONGO E DIFÍCIL CAMINHO
Quantas vezes ouvimos a tribo dos analistas condenar o imperialismo russo, cubano ou chinês e suas intervenções na Venezuela, com impacto direto no Brasil?
Ficam as palavras da guerreira María Corina:
“A principal aprendizagem que nós venezuelanos podemos compartilhar com o mundo é a lição forjada através desse longo e difícil caminho: se queremos ter democracia, precisamos estar dispostos a lutar pela liberdade”.
“A liberdade é conquistada a cada dia, na medida em que estivermos dispostos a lutar por ela”.
Quantas vezes ouvimos intelectuais e outras figuras importantes da esquerda terem a nobreza de deixar suas crenças políticas de lado para denunciar a situação de mulheres presas nas condições descritas por María Corina, repudiada nessas esferas por ser de direita, e condenar Nicolás Maduro pela perseguição à indômita líder oposicionista que provavelmente o substituirá depois de restaurada a democracia?
Sem as sofisticações do mundo intelectual, disse Trump sobre Maduro: “Os dias dele estão contados”. Pouco depois, foi interceptado um petroleiro venezuelano, com comandos americanos “chovendo” de helicópteros. O jogo ficou mais pesado e María Corina muito provavelmente não saiu da Venezuela, escapando primeiro por mar até Curaçao, por causa do Nobel, mas pelo risco de intensificação da repressão contra ela. Também é possível concluir que agentes americanos já estão operando em território venezuelano.






