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Facada no coração da monarquia: preço por proteger ex-príncipe Andrew

Por mais que o rei Charles tenha feito para destituir o irmão de todos os privilégios, fica a imagem de que ele foi tratado com condescendência

Por Vilma Gryzinski
19 fev 2026, 10h26 • Atualizado em 19 fev 2026, 10h27
  • Ex-príncipe, ex-duque, ex-filhinho protegido da mamãe e ex-morador de um palacete no belíssimo parque em torno do castelo de Windsor, Andrew, reduzido ao sobrenome inventado de Mountbatten Windsor, ainda tem muitos estragos a causar ao irmão, talvez arrastando irreversivelmente na lama o prestígio da monarquia – sendo esta uma instituição arcaica que sobrevive apenas pela aura de respeito que a cerca, como representante da continuidade histórica do país (países, na verdade, considerando-se que o reino é composto por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte).

    A esta altura, todos já sabemos que ele se tornou o primeiro integrante do alto escalão da família real a ser preso na história moderna. E também que a detenção está ligada à divulgação de documentos oficiais quando ele era uma espécie de embaixador plenipotenciário para relações comerciais – não as relações sexuais que teve com jovens menores e maiores oferecidas como recompensa pela “amizade” com Jeffrey Epstein.

    Amizade entre aspas porque o milionário abusador tinha interesses, não amigos, e Andrew era o maior peixe, na escala social, capturado em sua rede de influências, ampla em tal escala que Epstein era um dos americanos mais poderosos, fora da estrutura do governo.

    Mas a acusação de má conduta em cargo público ganhou força por causa da divulgação em massa de mensagens e imagens tiradas dos arquivos de Epstein. As duas acusações, assim, se misturam, o desvio de função e o possível abuso de meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade – enfatizado pela divulgação de duas fotos em que o ex-príncipe aparece de quatro diante de uma jovem deitada no chão, simulando um atendimento médico ou alguma perversão sexual, com Epstein ao fundo.

    IMAGENS DESASTROSAS

    A quantidade de arquivos, com uma enxurrada de mensagens comprovando como ele mentiu ao tentar minimizar seu relacionamento com Epstein, leva a opinião pública a consolidar a percepção de que a família real, a começar pela venerada rainha Elizabeth II, foi condescendente demais com o ex-príncipe, permitindo primeiro que ele continuasse sua trajetória cheia dos maiores privilégios do mundo mesmo depois de um acordo na justiça civil – 15 milhões de dólares, bancados pela mamãe – com Virginia Giuffre, decorrente da acusação de que ela havia sido expressamente enviada à Inglaterra, aos dezessete anos, para fazer sexo com Andrew.

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    Charles fez o que a mãe não tinha tido coragem de fazer. Primeiro, afastou-o de todas as funções públicas. Insensatamente, o príncipe, como ainda era, resolveu aparecer num evento familiar, a cerimônia fúnebre em homenagem à duquesa de Kent. Ficou na posição protocolar, bem atrás de Charles e do herdeiro do trono, William.

    Tentou se enturmar, fez comentários por todo lado e até uma brincadeira imprópria para a ocasião. William pareceu o mais estoico de todos os príncipes da história, mas as imagens foram desastrosas. A partir daí, foi selado o destino de Andrew, com a perda de todos os seus títulos e honrarias e a expulsão do palacete para um casarão bem sem graça numa propriedade particular de Charles.

    Sua prisão demonstrou que ainda havia mais espaço para ele cair, mas o fato principal é o estrago que faz na monarquia. Pesquisas indicam que a instituição tem uma imagem positiva para 57% da população, um apoio sólido mas distante da unanimidade de um passado nem tão distante assim. Charles nem de longe tem a aprovação maciça de sua mãe, ficando também pouco acima dos 50%. Os mais bem cotados são os príncipes de Gales, William e Kate. Depois de enfrentar com dignidade um câncer precoce, a princesa ocupa o topo da lista, com 76% de aprovação. William fica quase empatado, com 75%.

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    BÔNUS E ÔNUS

    O futuro da monarquia, uma instituição de mil anos, antecedendo a época da conquista normanda, parece assim atrelado ao casal que ocupará o trono num futuro não muito distante, como rei e rainha consorte. A beleza, a elegância e a correção impecável de Kate tornam-se assim de uma importância existencial.

    Charles tem 77 anos e, depois de uma vida inteira esperando para se tornar rei, é inimaginável que abdique em favor do filho, mais popular e não comprometido com a condescendência autodestrutiva em relação a Andrew.

    Ou era inimaginável. Charles mal fala com Harry, o filho caçula; não tem nenhum relacionamento com os netos mais novos e agora enfrenta a realidade chocante de ter um irmão na cadeia. Nada disso é sua culpa, mas entre o bônus de desfrutar de privilégios incomparáveis, incluindo os nove castelos, palácios e palacetes de que desfruta, também existe o ônus de arcar com as encrencas familiares.

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    E tentar superar a facada no coração da monarquia que Andrew desferiu com seu comportamento execrável. No passado distante, o príncipe caído poderia ser levado para a Torre de Londres e ter o corpo separado da cabeça por traição. Hoje, são as pesquisas que determinarão o que acontecerá com uma instituição tão hábil em se adaptar a mudanças e continuar a impressionar o mundo a ponto de que, quando se fala em rei ou rainha, a primeira imagem que vem à cabeça seja a dos monarcas britânicos. Mesmo sem nenhum poder, eles continuam a ter soft power em enorme escala.

    Irá tudo isso ser arruinado por um príncipe louco por ganhar dinheiro e fazer sexo com jovens bonitas, dois traços nada estranhos ao comportamento masculino, mas que no caso dele ultrapassaram os limites da legalidade?

    A maldição de Epstein cada vez se irradia mais.

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