Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Mundialista

Por Vilma Gryzinski Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Domesticando Milei: conseguirá cumprir promessa de moderar discurso?

A linguagem cheia de insultos é uma marca registrada, mas o presidente tem que conquistar eleitores – ou eleitoras – que rejeitam isso

Por Vilma Gryzinski 8 ago 2025, 08h31 •
  • Como seria bom se todos os líderes políticos usassem a linguagem com responsabilidade e dessem bons exemplos de comportamento. Ou fossem obrigados a fazer isso por puro cálculo político, o que parece ser o caso de Javier Milei, catapultado à Casa Rosada com base num discurso agressivo, cheio de palavrões e insultos pouco compatíveis com um acadêmico formado nos princípios mais requintados do pensamento econômico. É difícil ver como ele conseguirá cumprir a promessa de deixar de falar como um caminhoneiro e ver “se eles estão em condições de debater as ideias”.

    Tomara que consiga. Ideias não faltam a Milei e o projeto de reformas extremamente liberalizantes ainda se mantém de pé, apesar dos prognósticos de que há muito ele deveria ter tomado um helicóptero e sumido da Casa Rosada, deixando o país em mais uma de suas episódicas e avassaladoras crises.

    Todos que fizeram previsões assim são, obviamente, “idiotas, imbecis, ignorantes”. Isso na versão mais amena. Num paciente levantamento, o jornal La Nación constatou que ele “nos últimos cem dias, deu 28 entrevistas e discursos nos quais incluiu 611 insultos”.

    “Nos primeiros doze meses na Casa Rosada, o presidente desfechou 4 149 insultos e desqualificações contra quem identificou como adversários”. As metáforas – quando não as palavras nuas e cruas – frequentemente são de natureza sexual, incluindo repetidas alusões a sexo anal como forma de domínio.

    BAIXO CALÃO

    É claro que a imagem de autenticidade, de “dizer as coisas como elas são”, é uma faceta das múltiplas manifestações de Milei, um dos personagens mais intrigantes do panorama político atual. O estilo também combina com a maneira de falar algo escrachada dos argentinos de Buenos Aires, sob a dupla influência do baixo calão espanhol e italiano, ambos igualmente extremos. Políticos peronistas, de forma geral, raramente foram conhecidos pela contenção verbal.

    “Dois em cada três argentinos consideram violenta a forma de comunicação do presidente e a desaprovam”, anotou o El País, o jornal espanhol de esquerda que torce desesperadamente pelo fracasso de Milei. “Entre os acima de 60 anos, a rejeição chega a 77%”.

    Continua após a publicidade

    Entre as mulheres, a rejeição é maior ainda.

    Milei ușa em público, e no exercício do mais alto cargo, a linguagem que se tornou corriqueira nas redes sociais. O encerramento de suas falas resume isso: “Viva la libertad, carajo”, palavras que usaremos pela última vez aqui, só para rememorar a imagem pública construída por Milei.

    BATALHA CULTURAL

    A linguagem chã obviamente faz parte de um contexto maior. Disse ele num discurso no mês passado, em que descreveu as três frentes de batalha de seu governo: “A frente da gestão, onde realizamos as reformas que a Argentina exige de forma urgente; a frente política, onde construímos o poder institucional necessário para tornar estas reformas possíveis; e a frente da batalha cultural, onde combatemos para promover as ideias da liberdade e derrotar as ideias do socialismo”.

    “A batalha cultural é talvez a mais adversa de todas as frentes em que combatemos”. Nesse discurso, ele defendeu “certos valores de raiz judaico-cristã, o trabalho como vocação, a responsabilidade individual, a previsão e o respeito pela lei”. Invocou o Gênesis, quando “Deus dá a Abraão, quando o instala em Canaã, duas ordens: multiplicar-se e cultivar a terra. Longe de ser um obstáculo moral, a riqueza pode ser vista como uma bênção para os que são fiéis aos mandamentos”.

    Continua após a publicidade

    “O Criador é um Deus rico e misericordioso que supre as necessidades de seus fiéis”.

    “A ética do capitalismo moderno encontrou na tradição judaico-cristã um terreno fértil para desenvolver-se. Como explicou celebremente um dos pais da sociologia, Max Weber, a disciplina, a frugalidade, o trabalho duro, a poupança e o senso de vocação que o protestantismo promove concretamente funcionam como a matriz cultural da qual pode emergir o espírito do capitalismo”.

    “Bilhões de pessoas foram resgatadas da pobreza, o analfabetismo foi praticamente erradicado e a expectativa de vida melhorou exponencialmente”.

    MUNDO DAS IDEIAS

    É uma bela discussão, da qual um presidente ilustrado como Fernando Henrique Cardoso participaria com entusiasmo. num hipotético debate com Milei. Como conciliar o autor do discurso com o presidente que chama os adversários de “mandris”, “ratazanas” e “baratas” – cucarachas, no original?

    Continua após a publicidade

    Milei está num momento difícil, com várias derrotas na Câmara dos Deputados, onde foram aprovados gastos que batem de frente com o preceito do equilíbrio fiscal (“Perdemos todas”, admitiu um integrante do governo), com as eleições municipais e estaduais se aproximando e a eterna corda bamba do dólar enfrentando a realidade da suspensão dos controles cambiais.

    Cumprindo pena por corrupção em prisão domiciliar, Cristina Kirchner continua a ser uma força política – tanto que o slogan escolhido pelo partido de Milei foi justamente “Kirchnerismo nunca mais”. No momento, os peronistas estão dez pontos à frente na província de Buenos Aires, o coração onde tudo é decidido na Argentina.

    Irá um Milei mais contido verbalmente atrair os votos que evitarão uma derrota acachapante? Será mais Max Weber e menos torcedor do River Plate? Poderá a batalha cultural ser travada só no mundo das ideias e não dos xingamentos?

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).