Adivinhem quem está rindo agora? Falha campanha de ódio a Melania
Antes de ver o documentário sobre a mulher do presidente americano, a imprensa em peso decretou que havia fracassado; um erro
As salas estavam vazias, só havia jornalistas na plateia e o documentário sobre Melania Trump era um fracasso. Esta versão foi infinitamente repetida por jornalistas, refletindo o ódio que ela desperta não só por ser mulher de Donald Trump, mas também por passar a impressão de que não liga a mínima para os críticos que dizem que ela é feia, malvestida e fracassada.
Estas últimas palavras parecem exageradas? Pois é exatamente a conclusão a que chegam os artigos de 90% da imprensa, americana e estrangeira. As reações ao documentário que ela tomou a iniciativa de fazer, conseguindo um financiamento de 45 milhões de dólares da Amazon, vão muito além do obrigatório espírito de crítica e do saudável ceticismo que todos os jornalistas devem ter em relação aos poderosos e seus agregados.
Foram praticamente unânimes as reportagens tentando ridicularizar o documentário e sua protagonista – não porque qualquer documentário a favor geralmente seja tedioso, até bajulatório, mas sim por bronca contra Melania. “É Melania o pior filme jamais feito?”, indagou retoricamente Matt Labash no Substack. Não deixa de ser engraçado o esforço para superar a pancadaria da concorrência.
Registre-se a exceção do New York Times, reflexo dos números e da integridade jornalística. Foi, reconheceu o jornal, o melhor lançamento de um documentário nos últimos quatorze anos. No primeiro fim de semana, teve bilheteria de sete milhões de dólares, mais do que o dobro de O Agente Secreto, entre outros quatro indicados ao Oscar de melhor filme. É possível que entre em declínio, mas a estreia foi mais que honrosa.
GESTO DIPLOMÁTICO
Compensa, nem que seja apenas em parte, um dos mais absurdos artigos da história do jornalismo de moda, publicado em novembro passado pelo Times para dizer que o vestido verde usado por Melania no banquete em homenagem ao príncipe saudita Mohammed Bin Salman era um sinal de “fidelidade”, por causa da coincidência com a cor da bandeira islâmica do reino do deserto.
Note-se que quando qualquer mulher famosa com quem as jornalistas simpatizam, como a princesa Kate, usa roupas com referências à bandeira ou outros símbolos nacionais de visitantes estrangeiros, isso é saudado como um sofisticado gesto diplomático. No caso da mulher de Trump, com seu ousado tomara que caia do libanês Elie Saab, foi dado como sinal de nada menos do que subjugação. Obviamente, uma imbecilidade.
Até a beleza deslumbrante de Melania, com seus olhos azuis puxados, rosto quadrado e maçãs do rosto bem altas, de feição eslava, é colocada em dúvida. Ela usa preenchimentos, procedimentos, branqueamentos e outros recursos estéticos? Sem dúvida nenhuma. E continua linda, além de desafiar o tempo, aos 55 anos. Não é essa a ideia de quem recorre à medicina estética?
O lançamento do documentário em que Melania abre uma fresta, bem pequena, em sua intimidade, em geral intensamente preservada, foi num mau momento. O país estava agitado pela segunda morte de um manifestante em Minneapolis e logo depois saíram, no bojo do pacote de três milhões de documentos sobre o caso Jeffrey Epstein, fotos do diretor do documentário, Brett Ratner, em companhia do bilionário suicida e de duas adolescentes.
INTELIGÊNCIA RUSSA
O caso Epstein paira persistentemente sobre Donald Trump, cuja antiga amizade com o abusador de menores continua a ser uma fonte de dúvidas sobre a participação do presidente, à época, em comportamentos repugnantes ou até criminosos.
Melania também já foi arrastada para essa lama, através de um processo do jornalista Michael Wolff, que biografou Trump e iria fazer o mesmo com Jeffrey Epstein. O motivo é completamente absurdo: Melania ensaiou que iria processá-lo por calúnia, ao tentar envolvê-la no caso Epstein, por ocasião do início do namoro com Trump. Note-se que Wolff, de caráter altamente contestável, só tem a ganhar com qualquer processo, qualquer que seja o resultado – ele sempre vai aparecer mais e ganha a vida com isso.
O caso Epstein é infindável e entre os arquivos revelados está um memorando do FBI em que uma fonte confidencial diz que o milionário pervertido era agente do Mossad, uma informação que circula constantemente.
Também é grande a busca por sinais de que ele era usado pelo serviço de inteligência russo para obter informações – e imagens – comprometedoras sobre todos os famosos que não resistiam ao que o milionário tinha a oferecer – sexo, dinheiro e influência. Não apareceram provas concretas, mas indícios baseados na quantidade de vezes em que ele cita Vladimir Putin – e também coloca jovens russas à disposição de seus amigos influentes.
Uma delas, identificada por Irina, foi enviada para ser desfrutada pelo ex-Príncipe Andrew, um dos famosos que perderam muito por causa da “amizade” com Epstein. Seria ela uma agente russa? As implicações são de tirar o fôlego, inclusive por relembrar as acusações, até hoje desmentidas, de que Trump era manipulado pela inteligência russa.
FACHADA INEXPUGNÁVEL
Mas o fato é que a “bala de prata” em relação a Trump ainda não apareceu, embora a situação seja altamente desconfortável para ele e Melania, ambos mencionados 38 mil vezes em 5,3 mil emails e imagens, segundo levantamento do Times.
A mulher de Trump é obstinada e segue o princípio de não dar bola para a torcida. Por causa dessa disposição, cometeu um erro, no primeiro mandato do marido, ao usar um casaco com a frase “Eu não ligo a mínima” escrita nas costas. Era, obviamente, uma resposta aos jornalistas que a execram, mas foi interpretada como uma referência aos imigrantes clandestinos separados das famílias na fronteira com o México, a quem estava indo visitar. Por que ela faria a visita aos menores se não ligava a mínima? É um absurdo lógico, mas a mídia antitrumpista usa qualquer recurso contra a mulher de Trump.
No segundo mandato, Melania tem aparecido muito menos em público e usado muito mais roupas severas, sem decotes, geralmente em preto, e também sem sinal do anel de diamante de 25 quilates que ganhou do marido no décimo aniversário de casamento. Ela agora aparece com muitíssimo menos ostentação de nova rica, mas também sem nenhum medo de usar as grifes mais caras do mundo. Aparentemente, tampouco se importa com a constante boataria sobre seu casamento. Acompanha pouquíssimas vezes o marido em viagens internacionais e vive uma boa parte do tempo separada dele – uma perda para Trump: ao lado de Melania, aumenta seu índice de aceitabilidade, um quesito problemático para o presidente.
A fachada inexpugnável é mantida no documentário, segundo as críticas. Só mostra mais emoção ao ir acender uma vela na igreja em memória da mãe, Amalija, morta em janeiro do ano passado. Melania herdou as feições, o porte imponente e a altura da mãe, que era uma modesta costureira na Eslovênia e com quem diz ter aprendido sobre moda e estilo. A vida como modelo, carreira iniciada como adolescente, linda e sozinha no exterior, deve ter ajudado Melania a se tornar mais resistente a pressões.
Ela aparece pouco e faz pouco como primeira-dama, com uma lista bem reduzida de trabalhos filantrópicos, a atividade tradicional da categoria. Já foi criticada até por uma decoração de Natal na Casa Branca. Não deve ter ficado surpresa com a chuva de críticas ao “pior filme do mundo”, comentário seguido em todas as críticas pela afirmação de que o financiamento foi uma forma de suborno pago por Jeff Bezos. Haja couro grosso para manter aquele sorriso perfeito, sem nenhum sinal de que a armadura esteja abalada.





