Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Vilma Gryzinski Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A vida não está fácil mesmo

E isso se reflete na popularidade de líderes políticos, de Biden a Boris

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 30 abr 2022, 12h47 - Publicado em 30 abr 2022, 08h00

Os americanos estão comendo mais depois da pandemia — e ainda por cima pagando contas até 10% mais altas pelos produtos alimentícios. Também estão mudando de emprego ou simplesmente de estilo de vida, o que causa falta de mão de obra em setores que vão de caminhoneiros a operadores do mercado financeiro, pressionando os salários para cima. Mudanças comportamentais e choque de placas tectônicas como a Covid e a invasão da Ucrânia confluíram para uma inflação de 7,9%. Os resultados são visíveis na popularidade de Joe Biden: seus índices de aprovação despencaram para até 35% — não muito diferente de Jair Bolsonaro, habitualmente retratado como o pior presidente da história da humanidade. O que Biden fez de tão horripilante para cair tanto? Fora ir à caça de combustíveis fósseis no mais errado dos momentos, ele basicamente gastou muito em programas emergenciais, o que de forma geral serve para aumentar, não diminuir, a popularidade. Com preços em alta, a coisa muda.

“Qual economista colocaria no seu planejamento duas encarnações de um vírus mortal, a delta e a ômicron?”

Na Argentina, todo o habitual melodrama político pode ser resumido em dois dados: inflação, 51%; desaprovação a Alberto Fernández, 81%. A rejeição da maioria dos franceses ao nome Marine Le Pen impulsionou a reeleição de Emmanuel Macron, mesmo com uma campanha oposicionista intimamente abraçada ao custo de vida. Mas atenção para o detalhe: a França tem a inflação mais baixa entre os países da União Europeia, 4,2%. E a renda média na verdade aumentou durante o governo Macron.

No Reino Unido, a realidade do mundo pós-pandêmico e a inflação de 7,4% estão pegando forte. O FMI prevê que o reino enfrente “o pior dos mundos”: mercado de trabalho aquecido, como nos Estados Unidos, e preços da energia enlouquecidos, como na União Europeia. Contrariando um dos fundamentos da filosofia conservadora, o governo de Boris Johnson optou pela dolorosa sanidade fiscal e aumentou impostos. A contribuição para a previdência social vai subir 1,5 ponto porcentual agora em abril. Temperado com o caso das festinhas no trabalho durante a pandemia, o resultado é de nível argentino: só 28% dos eleitores continuam fiéis ao primeiro-ministro, um desastre histórico.

Qual economista colocaria no seu programa de planejamento duas encarnações, a delta e a ômicron, de um vírus de alcance global que devastou as atividades produtivas durante quase dois anos? Ou quem imaginaria que as exportações de fosfato vindo da Rússia se transformariam num tema existencial para o Brasil? “Foi uma série de eventos que nunca vimos antes e continua a parecer que vai piorar antes de melhorar”, resumiu para o Guardian o especialista em commodities Josh Linville, falando sobre a crise de fertilizantes agrícolas. Indiretamente, ele resumiu o que “todo mundo” pensava: a Rússia consumaria uma invasão rápida e tudo mais ou menos voltaria ao que era antes. Com sua defesa surpreendentemente valente, os ucranianos resolveram mostrar que “todo mundo” estava errado. E que, aqui, em se plantando tudo dá, contanto que tenha superfosfato triplo, um dos nutrientes atingidos pela tempestade perfeita: suspensão de exportações, gargalo logístico e preços doidos. Acaba tudo no custo da comida no prato, na dor no bolso e nos índices de popularidade política amputados à foice.

Publicado em VEJA de 4 de maio de 2022, edição nº 2787

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo da VEJA! Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.

a partir de R$ 39,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Edições da Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 19,90/mês