A lista do Isis e a morte do diabo vermelho
Estado islâmico sofre derrotas importantes, mas a luta é de longo prazo
O Estado Islâmico está perdendo poder? Pelo lado positivo, pelo menos não está ganhando, em termos de territórios conquistados no Iraque e na Síria. O ápice, em termos territoriais, aconteceu em junho de 2014, quando chegou a controlar uma área maior do que o estado do Paraná. Com a resistência arrancada na marra do governo iraquiano, constituída basicamente por grupos xiitas, os ultra-fundamentalistas perderam cidades como Tikrit e Ramadi.
Sempre correm notícias, de confirmação impossível, sobre fuzilamentos e decapitações de combatentes que se recusam a lutar ou perdem áreas importantes. Alguns também são queimados vivos. Na semana passada, o “ministro da Guerra” do Isis, conhecido pelo codinome de Omar Shishani e pela enorme barba ruiva, o que também lhe rendeu o apelido de Diabo Vermelho, parece ter sido morto num bombardeio americano. A palavra parece é usada porque a morte de Shishani foi grandemente exagerada em ocasiões anteriores.
Outro golpe significativo foi a divulgação dos arquivos digitais, passados ao canal de televisão Sky News por um jihadista desiludido, com os nomes de nada menos que 22 mil combatentes que aderiram à guerra santa do maior grupo terrorista do mundo. A lista secreta traz as fichas com os nomes reais e os codinomes, num total de 23 informações, como se fosse de um departamento de RH.
Os arquivos são importantes principalmente para os organismos de segurança dos países de onde saíram os militantes – e para os quais podem voltar com o objetivo de praticar atentados terroristas como os que aconteceram na França em novembro do ano passado. Ao todo, há homens – e mulheres também, recrutadas para fazer filhos – procedentes de 51 países. Nem todas as fichas registram a procedência, mas as que o fazem trazem informações preciosas. Um exemplo dos países com mais cidadãos mais dispostos a cortar cabeças: Arábia Saudita, com 485 nomes; Tunísia, 375; Marrocos, 140; Egito, 101; França, 35; Alemanha, 18; Grã-Bretanha, 16, e Estados Unidos, quatro. Com se vê, é uma lista incompleta, pois só de pessoas com cidadania britânica que entraram para o Isis são pelo menos mil.
Os candidatos a terroristas geralmente fazem uma entrevista quando chegam na Turquia e, se aceitos, preenchem as tais fichas. A cautela é para evitar infiltração de informantes de serviços de inteligência, em especial os provenientes de países da órbita dos russos, historicamente mestres nesse tipo de espionagem. Os serviços secretos russos também têm experiência, e o previsível prontuário de violência brutal, em lidar com insurgentes muçulmanos por causa das guerras na Chechênia, a república da região do Cáucaso.
As “cabalas dos chechenos” são conhecidas e até temidas por outros militantes do Isis, devido a sua capacidade “russa” de brigar loucamente. O “ministro da Guerra” era – se realmente foi morto – conhecido como Abu Omar, o Checheno (Shishani, em árabe). Nome verdadeiro, Tarkhan Tayumurazivtch Batirashvili, filho de pai georgiano cristão e mãe muçulmana pertencente a uma minoria chechena da Geórgia. Foi sargento do Exército da Geórgia, treinado por americanos em operações especiais, e participou da guerra de 2008 contra os russos. “Desiludido”, entrou para a Al Qaida na Síria e depois aderiu ao Estado Islâmico. Era um dos que mais prometia levar o terror aos russos.
A morte de um comandante, mesmo que importante, não afeta em nada a capacidade operacional do Estado Islâmico. Reconquistar território e diminuir o alcance do grupo é difícil e custoso. Fazê-lo apenas com apoio aéreo dos Estados Unidos e, em medida menor, da Rússia, parece quase tão impossível quanto ganhar a batalha ideológica contra os ultra-radicais muçulmanos. Esta, no final, definirá o futuro do Oriente Médio e de pelos menos partes da Europa.







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