Não se pode dizer que Ensaio sobre a Cegueira seja o melhor livro de José Saramago. No entanto a obra pode ser considerada especial, porque é uma critica ao egoísmo, ao desprezo humano pela sua própria humanidade, à falta de solidariedade e, principalmente, ao medo humano.
Saramago trata do sentimento de pavor com extrema ironia – todos os personagens no decorrer da história agem por medo, transformando suas atitudes em ações primitivas. O medo é gerado pela cegueira branca, matáfora inédita, que significa o absoluto, o valor no seu limite e a mudança de condição. Essa brancura coloca em exposição a pequenez do homem, à mercê de sua mesquinhês escondida sob a capa da civilidade.
Existe um ditado que diz “em terra de cego quem tem olho é rei”. Na história essa ideia se concretiza de forma assustadora, pois existe uma única pessoa que pode enxergar: a mulher do médico. Mas, ao contrário do que reza o dito, nada há de confortável ou de privilégio em ser o monarca: ela, ao mesmo tempo em que vira uma válvula de escape para seu grupo, sofre exatamente porque vê as piores e inimagináveis cenas e fatos que alguém poderia ver. Com maior clareza ela enxerga a brutalidade, a zoomorfização das pessoas, a bárbarie humana em pleno século XX.
Essa bárbarie humana não é algo novo na história da humanidade: ela já esteve presente cotidianamente, desde o Egito Antigo, quando Faraós escravizavam pessoas e as tratavam como animais. Desde então, a situação vem piorando, e um dos exemplos mais recentes disso é a guerra do Iraque, na qual os Estados Unidos criou e mantém o conflito por interesses individuais e na qual ações primitivas se mostram quase que sem constrangimentos pela mídia – estupros, torturas fisícas e psicológicas recorrentes. Ensaio sobre a Cegueira trata desse assunto de uma forma drámatica e aterrorizante: o narrador expõe a animalidade humana sem deixar uma fresta de conforto ao leitor: a cegueira, súbita e branca, contagia primeiro um homem que espera um sinal vermelho abrir. Depois dele, aos poucos, outras pessoas vão ficando cegas e a “treva branca” se alastra. Para prevenir que outras pessoas se contagiem, o governo manda um grupo de cegos para quarentena num manicômio, onde elas sofrem com a falta de higiene, com a fome, com a humilhação, com os conflitos internos e externos: de seres civilizados, passam a seres brutalizados.
Ensaio sobre a Cegueira é uma obra literária que precisa ser lida por reunir a linguagem filosófica e ao mesmo tempo irônica de José Saramago, que, ao desmascarar o caráter brutal humano, esse a grande desgraça da humanidade, o faz, de forma tocante, levando o leitor a refletir sobre sua atuação no mundo.
Joana Saar






