Por que um médico best-seller está implicado no chocante caso Epstein
Reputação do americano Peter Attia é arranhada por divulgação de troca de e-mails com Jeffrey Epstein. Até onde o ser humano pode ir em busca de prestígio?
A revelação bombástica desta semana é que Peter Attia — médico, autor de best-sellers e uma das principais referências globais no universo da longevidade e da medicina preventiva — manteve contato frequente e próximo com Jeffrey Epstein. O caso veio à tona, em meio a tantos outros, com a divulgação de e-mails e outros documentos pela Justiça americana.
Epstein não era apenas um financista bilionário, mas um homem já condenado por crimes sexuais, cercado havia anos por denúncias consistentes de exploração de meninas e jovens mulheres. Ainda assim, conseguiu reunir ao seu redor uma vasta rede de influência, que incluía, nos Estados Unidos, empresários, cientistas, políticos, celebridades e até presidentes.
Nos e-mails trocados entre Attia e Epstein — meticulosamente arquivados por este último ao longo de anos, estratégia que acabou envolvendo um número impressionante de figuras públicas —, observa-se o fascínio explícito do médico renomado pelo acesso a ambientes ricos e poderosos (contraste grande com a persona confiante que aparecia nos seus podcasts e posts nas redes sociais).
Chama atenção também o tom com que ele se refere a mulheres, reproduzindo expressões chulas e objetificantes, em sintonia com o estilo de Epstein. Mais do que proximidade circunstancial, os registros sugerem adesão simbólica a um universo onde dinheiro, status e transgressão funcionavam como moeda social.
Não se trata necessariamente de envolvimento direto em crimes — ao menos nada foi provado até o momento —, mas de algo mais comum: a disposição humana de flexibilizar limites internos quando o contexto oferece prestígio, acesso e capital simbólico.
Não é crime buscar influência, conexões ou ascensão social, mas certos ambientes funcionam como espaços de autorização psicológica, nos quais comportamentos antes contidos passam a ser tolerados, normalizados e, por vezes, valorizados.
O ponto central não é a queda de um ídolo, mas o que esse caso permite enxergar sobre o funcionamento dos sistemas de abuso. Eles raramente se sustentam apenas pela ação direta dos perpetradores. Dependem também da participação ativa ou passiva — e por vezes estratégica — de pessoas socialmente relevantes, altamente capazes, que optam por não ver, não perguntar e não confrontar.
Esse silêncio cria uma blindagem informal em torno de figuras poderosas, permitindo que condutas inaceitáveis persistam por longos períodos. Embora ocorrido nos EUA, o fenômeno — a normalização de comportamentos questionáveis em redes de poder — não conhece fronteiras.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp, e autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram





