Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Mens sana

Por Ilana Pinsky Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
A psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky reflete sobre saúde mental e suas conexões com a nossa sociedade

Ciúme obsessivo: por que ele poderá ser classificado como uma ‘doença’

Psiquiatras e psicólogos debatem se o ciúme desproporcional e descontrolado deveria ser identificado como um transtorno mental à parte

Por Ilana Pinsky
17 mar 2026, 17h00 • Atualizado em 18 mar 2026, 10h59
  • Estou na aula de spinning. Música alta, luz baixa, todo mundo tentando sobreviver à próxima subida imaginária da bicicleta. A moça ao meu lado pedala por alguns minutos, para, pega o celular. Digita rápido. Volta a pedalar. Três minutos depois, o celular aparece de novo. Mais mensagens. O rosto agora está tenso, quase contorcido. Ela pedala mais um pouco, para outra vez, checa a tela. Durante alguns segundos, penso em uma explicação nobre. Talvez seja médica e esteja de plantão. Talvez alguém da família esteja doente. Mas a realidade frequentemente é: ela está respondendo ao namorado que quer saber onde ela está. Ou, quem sabe, é ela quem está perguntando onde ele está — e com quem.

    Cenas como essa são comuns. O celular transformou o ciúme em algo portátil, instantâneo e, em certos casos, incessante. A possibilidade de monitorar os parceiros em tempo real — mensagens, localização em tempo real, redes sociais… — alimenta um ciclo: surge uma dúvida, uma checagem traz alívio momentâneo, logo depois aparece outra dúvida. E o processo recomeça.

    O ciúme, claro, não nasceu com o WhatsApp nem com o Instagram. É uma emoção praticamente universal. Ao longo da evolução, provavelmente teve alguma função adaptativa: sinalizar possíveis ameaças a vínculos importantes.

    De um lado, estão episódios pontuais, ligados a situações concretas ou plausíveis de um relacionamento específico — e, sim, às vezes pode mesmo haver traição, perda de interesse ou medo real de abandono. Por isso, o ciúme “normal” tende a ser temporário: aparece enquanto a situação que o desencadeou persiste, e tende a diminuir quando ela se resolve ou desaparece.

    Mas, do outro lado, aparecem formas mais persistentes e crônicas, quase independentes do comportamento do parceiro. Em pequenas doses, o ciúme pode até servir como um sinal de que algo na relação merece ser conversado. O problema surge quando ele deixa de proteger o vínculo e passa a corroê-lo, não apenas como sentimento, mas pelas reações que desencadeia.

    Um artigo recente publicado na revista científica JAMA Psychiatry reacendeu um debate na psiquiatria: a possibilidade de reconhecer o chamado “ciúme obsessivo” como um transtorno próprio. A proposta toca em uma tensão permanente na área.

    Continua após a publicidade

    Sistemas diagnósticos como o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (apelidado do DSM-5 TR na versão mais atual) e a classificação internacional da Organização Mundial da Saúde (CID-11) precisam ser amplos o suficiente para incluir sofrimentos reais que merecem tratamento. Ao mesmo tempo, precisam levar em conta o risco de medicalizar experiências humanas comuns. Há que atentar para a diferença crucial na intensidade, na persistência e no impacto na vida da pessoa.

    Atualmente, os casos de ciúme patológico acabam espalhados em diferentes categorias diagnósticas. Alguns aspectos lembram muito o transtorno obsessivo-compulsivo: pensamentos intrusivos seguidos de comportamentos de checagem que trazem alívio temporário. Não por acaso, o DSM-5 TR menciona o “ciúme obsessivo” na seção de transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados “não especificados”.

    Em alguns casos, suspeitas de infidelidade também podem aparecer em quadros de ciúme delirante, quando a crença na traição se torna rígida e inabalável, geralmente associada a transtornos psicóticos. Um subtipo especialmente severo de ciúme patológico com características psicóticas é a chamada Síndrome de Otelo.

    Essa condição – em que o indivíduo acredita constantemente e sem evidências na infidelidade da parceira – é particularmente conectada com danos cerebrais causados pelo uso crônico de bebidas alcoólicas e caracterizada por agressividade em relação ao parceiro e a si mesmo. Entre essas possibilidades diagnósticas — e fora delas — há uma área cinzenta: pessoas cujo ciúme é claramente excessivo, intrusivo e incapacitante, mas que não se encaixam bem nas categorias existentes.

    Continua após a publicidade

    O ciúme patológico

    O chamado ciúme obsessivo, ou ciúme mórbido, segue um padrão relativamente característico. Ele envolve pensamentos recorrentes sobre uma suposta infidelidade do parceiro, que surgem de forma intrusiva e difícil de controlar.

    Você se pega frequentemente pensando que seu companheiro pode estar escondendo algo? Ou que talvez esteja se apaixonando por outra pessoa? Já imaginou, sem querer, cenas dele ou dela flertando, beijando ou tendo relações com alguém? Já suspeitou que mensagens possam ter sido apagadas para esconder provas, ou que exista um perfil em algum aplicativo de namoro? Ou ainda: imagens do parceiro com outra pessoa aparecem de forma recorrente, mesmo quando você tenta afastá-las?

    Esses pensamentos costumam vir acompanhados de comportamentos repetitivos e controladores: checar celulares, procurar provas nas redes sociais, pedir reafirmações constantes, monitorar horários ou deslocamentos. A falta de provas não reduz necessariamente o comportamento de checagem. Não são raros os confrontos diretos, acusações e interrogatórios. O resultado não é apenas sofrimento para o indivíduo e o parceiro, mas também um desgaste profundo na relação e, em certas situações, risco aumentado de agressão ou violência.

    Esse padrão não é raro — e pode causar prejuízo significativo. Em um estudo com mais de 1 000 adultos na Suécia — país que, no imaginário coletivo, costuma ser associado a pessoas tranquilas, racionais e pouco dadas a dramas emocionais — níveis elevados de ciúme obsessivo apareceram com força. Ou seja, nem os suecos escapam!

    Continua após a publicidade

    O estudo mostrou associação entre ciúme intenso e pior desempenho no trabalho, nas atividades de lazer e nas relações sociais. Também houve conexão com maior agressividade verbal e aumento no consumo de álcool. Cerca de um quarto dos participantes expressou interesse em receber ajuda psicológica especificamente para lidar com o ciúme, mas poucos realmente procuraram tratamento.

    Defensores de um diagnóstico específico argumentam que reconhecê-lo formalmente poderia trazer benefícios práticos.Para quem sofre, nomear claramente a experiência ajuda a organizar o problema e reduz a sensação de estar simplesmente “perdendo o controle” ou sendo irracional. Também facilita a busca por tratamento, porque cria uma linguagem compartilhada para descrever o que está acontecendo. Para parceiros e familiares, essa identificação também pode ser importante.

    Muitas pessoas convivem com comportamentos de controle, interrogatórios ou suspeitas constantes sem entender exatamente o que está por trás disso. Saber que existe um padrão psicológico relativamente conhecido pode ajudar a contextualizar o problema e, em alguns casos, orientar a busca por apoio ou proteção.

    Do ponto de vista clínico, um diagnóstico mais definido também ajudaria profissionais de saúde mental a formular melhor o caso e planejar intervenções mais específicas. Hoje, o tratamento costuma ser improvisado: às vezes adapta-se protocolos de transtorno obsessivo-compulsivo, outras vezes recorre-se a terapia de casal. Nenhuma dessas abordagens foi desenvolvida especificamente para esse fenômeno.

    Continua após a publicidade

    Uma categoria diagnóstica mais clara poderia estimular pesquisas sobre tratamentos direcionados — desde intervenções cognitivas focadas em pensamentos intrusivos até abordagens relacionais adaptadas à dinâmica do ciúme. Também existe uma dimensão de saúde pública. O ciúme intenso aparece com frequência em casos de violência entre parceiros e em feminicídios. Evidentemente, ele não explica sozinho comportamentos extremos, mas ignorar sua forma patológica tampouco ajuda a prevenir conflitos graves.

    Por outro lado, a cautela é essencial. Nem todo desconforto amoroso precisa — ou deve — ser transformado em um transtorno psiquiátrico. E reconhecer um quadro clínico tampouco significa oferecer qualquer justificativa para comportamentos violentos. O desafio é estabelecer critérios claros que diferenciem insegurança comum, de um padrão persistente, intrusivo e incapacitante.

    Além disso, ainda há muitas perguntas em aberto, particularmente em relação a questões culturais e históricas da definição e tolerância em relação a ciúmes. Até que ponto o ciúme varia entre culturas? Como distinguir o que é culturalmente tolerado do que já se torna patológico — especialmente quando comportamentos vistos como excessivos em contextos mais reservados (escandinavos?) podem parecer relativamente comuns em culturas mais expressivas (latinos?)?

    Além disso, aquilo que consideramos “ciúme normal” muda com o tempo. Normas sobre o que é tolerável em um relacionamento já foram muito diferentes em outros períodos e continuam variando entre culturas — o que torna mais complicado traçar a linha entre emoção humana e problema clínico. Um critério frequentemente sugerido é observar o impacto: quando o ciúme passa a gerar sofrimento intenso para quem o sente, desgaste constante para o parceiro e uma dinâmica de vigilância, acusações e controle que corrói a relação.

    Continua após a publicidade

    Nem sempre, porém, quem vive esse padrão reconhece o problema; alguns chegam a considerar seus comportamentos plenamente justificados. Até que ponto certas normas sociais podem acabar encobrindo níveis perigosos de ciúme — uma questão particularmente relevante em países como o Brasil, onde o ciúme aparece com frequência como motivação em episódios de violência entre parceiros?

    Como sabem muitos casais — e infelizmente também muitas vítimas — no Brasil essa não é apenas uma discussão teórica.

    * Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp e autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).