A Kasa Branca que o mundo precisa
Em artigo enviado à coluna, Daniel Fraiha reflete sobre filme de Luciano Vidigal que está em cartaz nos cinemas
Nomear é um ato de poder. Muitos pensadores já se debruçaram sobre o assunto, desde Platão, que discutia se os nomes das coisas eram arbitrários ou se revelavam sua essência, passando por Nietzsche, para quem a linguagem pode controlar a história e a cultura, até Saussure, Foucault, Edward Said e bell hooks, dentre outros, com visões diversas, mas com pontos de convergência sobre a importância do nome para as coisas e como esse signo carrega consigo traços de essência, de resistência, de identidade e de valor simbólico.
Na Casa Branca americana de 2025, agora comandada por Donald Trump, com sua retórica e postura bélica, voltou a imperar a nomeação das coisas da maneira tipicamente truculenta que há tempos configura o modus operandi da extrema direita no mundo.
Uma das muitas medidas estapafúrdias do novo presidente americano é a tentativa de renomear o Golfo do México para Golfo da América, como uma criança mimada que se acha dona de tudo. A renomeação, que ganhou um dia para chamar de seu em mais uma ação de marketing de Trump recentemente, vem apenas para mostrar poder e sentimento de posse. Uma comunicação violenta e colonialista, como é do estilo Trumpista.
Por aqui, enquanto o Brasil ainda tenta entender como se dará a nova relação entre os dois países, há no cinema brasileiro uma outra correlação indireta muito mais significativa para o cenário da arte e da sociedade, que talvez seja o caminho que nos falta para conectar uma Terra estilhaçada em tantos sentidos.
Trata-se do filme Kasa Branca, de Luciano Vidigal, produzido por TV Zero e Sobretudo Produções, com coprodução da Dualto e da Cavídeo, que está em cartaz nos cinemas, depois de uma bela carreira em festivais. A obra traz uma história de afeto de Dé, um menino negro morador de uma favela na Baixada Fluminense, que conta com a ajuda dos amigos para cuidar da avó nos últimos dias de vida, enquanto se apoiam mutuamente e extravasam a doçura de suas identidades numa fase importante da juventude.
Não é um filme que fala diretamente de política. Não tem relação com a Casa Branca americana. Mas é um filme que consegue contar uma grande história, cheia de afetos, e mesmo indiretamente ser extremamente político. Isso tudo sem cair no caminho panfletário.
Kasa Branca traz um olhar de quem quer ver na tela a vida pulsante, generosa e gregária de tanta gente espalhada pelo Brasil, pelas favelas e periferias, o afeto e a luminosidade do povo preto ainda tão pouco representado em nosso cinema. Traz também um reforço do que há de mais importante em nossa essência como humanidade. O respeito e o amor ao próximo. O olhar para dentro e para fora com carinho, maturidade e esperança.
Luciano Vidigal é um diretor já experiente no audiovisual brasileiro e ainda assim esse é seu primeiro longa-metragem, depois de muitos trabalhos na TV Globo e em curtas premiados para o cinema. Na nova obra, ele traz como tema um Adinkra africano que diz: “O amor sempre encontra o caminho para casa”. A história estabelece isso sem mencionar diretamente a frase, sem ser didática, com poesia e sofisticação estética, ao mesmo tempo em que diverte e emociona.
Com um elenco muito bem nas telas, formado por Big Jaum, Teca Pereira, Diego Francisco, Gi Fernandes, Ramon Francisco, Babu Santana, Roberta Rodrigues, Ingrid Ranieri, Kibba e L7nnon, Kasa Branca, nas palavras de Luciano, é como se fosse o quartel-general desses personagens. É a base deles, onde se fortalecem para enfrentar o mundo.
Isso fica ainda mais claro e forte quando a personagem vivida por Roberta Rodrigues diz para o filho: “A sua cura é você. Dança pra vida, meu filho. Dança pra vida”.
É essa dança que queremos como povo.
Quando a preocupação com a Amazônia, com a Terra, com as guerras e as desigualdades atingiram níveis inaceitáveis, uma Casa Branca afeita à tempestade, como Trump gosta de reverenciar a frase de seu ídolo Andrew Jackson, não pode ser mais a referência do planeta. Buscar a união dos afetos que entraram na mira é uma ação necessária. É o fortalecimento das conexões que reverterá esse tsunami formado no horizonte.
O renomear gratuito e intervencionista não interessa a ninguém que se preocupa de fato com o futuro do planeta e da humanidade. O Golfo da América é apenas um rótulo mal ajambrado de um homem imaturo na cadeira mais poderosa do mundo.
O renomear que realmente faz diferença é o que vem de dentro para fora. O que simboliza e significa uma transformação verdadeira. É o caminho para dar novos sentidos ao nosso futuro, contra quem tenta empurrar goela abaixo do planeta um olhar oblíquo e dissimulado.
É por isso que Kasa Branca, mesmo não sendo político, é também tão político. Porque ressignifica o nome do centro do mundo. A Casa Branca de Washington continua detendo a caneta dos rumos planetários, mas o caminho para casa, aquele que é encontrado pelo amor, aquele que é cura, aquele que é a dança da vida, esse está em outro território. Em outro lar. É o terreno mais completo de Kasa Branca.
É essa Kasa Branca que o mundo precisa.
* Daniel Fraiha é jornalista, roteirista e sócio da Projéteis






