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Matheus Leitão

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Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

A fofoca edificante para 2022

Daniel Fraiha analisa raízes das fake news e o grande desafio do Brasil nas próximas eleições

Por Daniel Fraiha 31 dez 2021, 16h51 • Atualizado em 12 jan 2022, 17h56
  • A pergunta “Quem é Aristides?” diz alguma coisa para você? Não deveria, mas no contexto das redes sociais ela ganha algumas leituras possíveis. Para alguns, é motivo de risos, enquanto para outros, um causador de irritação. Na prática, no entanto, é uma mistura de duas grandes bases da linguagem humana: a fofoca e a ficção, que somadas geram muitas vezes as famosas fake news, como foi o caso da polêmica por trás de “Aristides”. 

    No livro Sapiens (clique aqui para comprar), Yuval Noah Harari traça uma breve história da humanidade e aponta a revolução cognitiva como a base da nossa civilização. A criação da linguagem dos sapiens seria a responsável pelos grandes avanços científicos, sociais, econômicos e tecnológicos ao longo da história, e sua origem estaria justamente nestas duas pontas.

    A teoria da fofoca não é a única levantada por historiadores, mas é uma forte concorrente. A ideia é que a nossa linguagem evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo, e que as informações mais essenciais eram sobre humanos. Nas palavras de Harari, “saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro” seria muito mais importante do que saber apenas onde encontrar caça.

    “Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e sofisticados”, diz o autor do livro, lembrando que hoje a maior parte da comunicação humana continua sendo movida pela fofoca (as redes sociais estão aí para confirmar).

    Essa base da linguagem, no entanto, não era suficiente para reger grandes grupos humanos ao ponto de criar civilizações como as que vieram a existir. Segundo pesquisas sociológicas citadas pelo escritor, o tamanho máximo de um grupo unido por fofoca seria de 150 indivíduos. Mais do que isso inviabilizaria a coesão do bando e criaria cisões. 

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    É nesse ponto que a ficção entraria como grande razão do salto civilizatório humano. Toda cooperação em grande escala, de acordo com Harari, viria justamente de mitos partilhados por grandes grupos de pessoas. Conceitos como nacionalidade, sistemas políticos e econômicos, igrejas etc, são algumas das chamadas ficções criadas pelo homem com a capacidade de fazer grandes quantidades de estranhos cooperarem entre si de maneira eficaz, por conta da crença nestes mesmos mitos. 

    “Dois sérvios que nunca se conheceram podem arriscar a vida para salvar um ao outro porque ambos acreditam na existência da nação sérvia, da terra natal sérvia e da bandeira sérvia”, exemplifica o autor.

    Como roteirista, sou um grande admirador e defensor da ficção, mas é inevitável reconhecer que ela é uma faca de dois gumes. O próprio Harari alerta no livro, afirmando que, apesar de fundamental para o avanço humano, ela pode ser “perigosamente enganosa ou confusa”. 

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    O uso da ficção com esses fins não é novidade. A famosa frase de Goebbels, o ministro da propaganda nazista de Hitler, (“Uma mentira dita mil vezes se torna uma verdade”) é um retrato antigo de algo que já se reproduziu inúmeras vezes na história política do mundo. 

    Nos últimos anos, esse mau uso da ficção se uniu a uma expansão absurda da outra ferramenta básica da linguagem. Com a presença massiva de whatsapp, telegram e redes sociais em todos recantos globais, as mentiras se aliaram à fofoca, e o fenômeno das fake news deu nisso tudo que já se viu à nossa volta. 

    As eleições mundiais mais recentes dão sinais de que talvez as pessoas estejam começando a acordar para os riscos dessas armadilhas, mas ainda tem muita gente com a cabeça enfiada no buraco. A imprensa e as instituições democráticas vêm tentando melhorar as formas de coibir a repetição desses erros, mas os políticos e apoiadores das correntes progressistas precisam ficar atentos para não se encantarem com o ovo da serpente e acabarem caindo na mesma estratégia. Os fins não podem justificar os meios. 

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    Um dos maiores desafios das eleições de 2022 vai ser esse. Conseguir eleger novas frentes democráticas, e varrer do mapa político essa corja bárbara que tomou o Brasil de assalto em 2019, sem cair no jogo de usar mentiras e fofocas para crescer nas votações. 

    O fundamental é renovar a visão, traçar planos concretos, combater a fome, a crise econômica, o racismo, o preconceito e resgatar o Brasil da lama. Mais do que qualquer coisa, o país precisa voltar a ter esperança. 

    Como diz o meme, agora só fofoca edificante. 

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    Daniel Fraiha é jornalista e roteirista, Mestre em Criação e Produção de Conteúdos Digitais pela UFRJ e sócio da Projéteis – Criação e Roteiro

    *As vendas realizadas através dos links neste conteúdo podem render algum tipo de remuneração para a Editora Abril

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