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Letra de Médico

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Pedras nos rins: problema pode ser silencioso e se agravar nesta época

Cálculos renais nem sempre apresentam sintomas e se aproveitam do calor e da falta de hidratação; mas há avanços no tratamento

Por Antonio Corrêa Lopes Neto*
16 fev 2026, 07h08 • Atualizado em 16 fev 2026, 07h10
  • Muitos que estão lendo este texto já se depararam com alguma situação relacionada à pedra nos rins, os chamados cálculos renais, ou conhecem alguém que sofre com este sério problema de saúde. O nome técnico é litíase urinária e estima-se que atualmente atinja ao redor de 10 a 15% da população mundial.

    A literatura médica demonstra que esse número está em franca progressão, sendo que em 1980, 1994 e 2016, essa prevalência atingia 3,8%, 5,8% e 10,1%, respectivamente. E temos notado também aumento na incidência, que significa o crescimento de novos casos em várias partes do mundo. Pelo fato de não se tratar de uma doença com notificação compulsória, os números no Brasil carecem de documentação mais precisa. Publicação de 2025 na Revista Frontiers em Urology, demonstrou que na América Latina houve aumento na incidência de 155 casos/100 mil habitantes em 1990 para 296 casos/100 mil habitantes em 2021, e o Brasil mostrou ser o país com maior incidência.

    Apesar de atingir predominantemente o gênero masculino, o número de casos em mulheres tem aumentado nos últimos anos. Segundo o NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey) nos EUA, houve aumento entre as mulheres de 7,1% em 2010 para 9,8% em 2016, provavelmente devido a mudanças comportamentais, como aumento da obesidade, alterações na dieta e estilo de vida similar aos homens.

    Trata-se de uma doença recidivante em aproximadamente 50% dos casos, o que exige um tratamento mais dedicado para diminuir as recorrências. É um problema que se associa a outras comorbidades, como diabetes mellitus, doença cardiovascular e obesidade.

    Esses números podem ser ainda maiores em regiões mais quentes, onde o risco de desidratação torna a urina mais concentrada e mais suscetível ao acúmulo de cristais e elementos que formam as pedras dentro dos rins. Por esse motivo, os meses de janeiro e fevereiro no Brasil merecem uma atenção especial.

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    Orienta-se que é necessária uma hidratação abundante, que permita uma urina clara, redução no excesso de sal, bebida alcoólica e proteínas. O controle da obesidade também é uma medida fortemente recomendada.

    E por que podemos chamar de “perigo silencioso”? Quando as pedras se encontram dentro dos rins, o indivíduo geralmente não apresenta sintomas. Neste caso, sua detecção será em exames preventivos como ultrassonografia ou tomografia computadorizada. O problema é quando elas migram para os ureteres (canal que conduz a urina dos rins para a bexiga), causando obstrução e a temida cólica renal, que é caracterizada por uma dor habitualmente muito forte, necessitando atendimento hospitalar imediato para analgesia e tratamento. Esse quadro agudo pode ocorrer em momentos desfavoráveis, como durante um voo, em um local com pouca assistência médica ou fora do país.

    Outro cenário que agrava as repercussões dessa doença é que em algumas situações pode ocorrer perda de função renal em casos mais graves ou quando ocorre demora no tratamento. Estudo realizado pela Disciplina de Urologia do Centro Universitário FMABC e publicado na Revista Argentina de Urologia em 2022 demonstrou que 25% das nefrectomias (remoção do rim) foram devido a litíase urinária e suas complicações, como infecções e obstrução. Importante citar que nesta série, 80% eram mulheres.

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    Da mesma forma, estudo americano publicado no Journal of Endourology em 2019 relatou que as mulheres têm 2x mais chances de necessitar nefrectomia em relação ao gênero masculino. Estudo chinês publicado em 2012 demonstrou que das 1.059 nefrectomias realizadas, 9,5% foram decorrentes de litíase urinária e o maior risco de perda de função renal ocorreu principalmente entre as mulheres. Essa informação foi ratificada em publicação na revista americana Journal of Urology em 2017, na qual foi demonstrado que mulheres portadoras de litíase urinária têm 27% mais chances de desenvolver perda de função renal em relação a mulheres sem histórico de pedras.

    A boa notícia é que existem exames diagnósticos extremamente eficazes e acurados para detectar, caracterizar as pedras e a situação dos rins. Tratamentos minimamente invasivos por endourologia, por exemplo, constam de técnicas com utilização de endoscópios, óticas, fibras e lasers, têm excelentes resultados para remoção desses cálculos e preservação dos rins. Além disso, oferecem menos dor e melhor convalescença, permitindo rápido retorno às atividades habituais.

    Entretanto, toda essa tecnologia encarece o tratamento, dificultando o acesso principalmente em serviços públicos, onde o número de casos e pacientes aguardando tratamento é muito grande e nem sempre essas modalidades estão disponíveis. Este é um grande desafio para o Sistema Único de Saúde (SUS), administrar as grandes filas de pacientes que estão em ascensão, realizar o diagnóstico e tratamento precoce, minimizando complicações e principalmente a perda de função dos rins.

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    Robôs têm sido desenvolvidos para auxiliar o manuseio dos equipamentos endourológicos no tratamento de cálculos renais por acesso ureteroscópico, facilitando o procedimento, principalmente para pedras mais volumosas que exigem cirurgias mais longas. Em fase experimental e pré-clínica com resultados promissores, pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, criaram um protótipo de microrrobô magnético do tamanho de um grão de arroz, que “caminha” pelo trato urinário guiado por campos magnéticos externos até chegar às pedras, libera uma substância que através de enzimas e mudanças no pH local visam dissolvê-las e permitir a eliminação espontânea desses fragmentos.

    Outra medida importante é realizar uma investigação clínica para rastrear a origem do desenvolvimento da litíase urinária no paciente. Erros alimentares, distúrbios metabólicos e anormalidades anatômicas estão entre as possíveis causas. A identificação da composição do cálculo é outra informação fundamental para orientar o tratamento clínico do paciente e minimizar as recorrências que podem acontecer. Esta análise atualmente não está disponível nos serviços públicos.

    Concluímos que estamos diante de uma doença muito comum e francamente em ascensão. O aumento do número de casos e o risco de sérias complicações torna um problema de saúde pública que exige cuidado adequado e o mais rápido possível. O custo da tecnologia envolvida nos procedimentos aumenta o desafio a ser vencido. A união entre a classe política, entidades médicas e empresas envolvidas pode ser um caminho para reduzir esses números.

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    Quanto à população, a sugestão é que procure seu médico, investigue se você é portador de litíase urinária e faça o tratamento adequado para minimizar complicações e se livrar desse risco silencioso.

    * Antonio Corrêa Lopes Neto é urologista e supervisor da Disciplina de Endourologia da Sociedade Brasileira de Urologia

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