Os novos (e melhores) exames para detectar e reduzir o risco cardíaco
Biomarcadores permitem avaliar a inflamação nas artérias, fator cada vez mais importante para resguardar o coração
O acúmulo de placas de gordura nas veias e artérias do corpo pode ser a causa de infarto do miocárdio, derrame cerebral e trombose. Sua formação está intrinsecamente associada a hábitos alimentares, sedentarismo, hipertensão arterial, diabetes e elevação das taxas de colesterol no sangue.
O que temos visto é que cada vez mais cedo as pessoas começam a apresentar indícios de inflamação e entupimento nos vasos sanguíneos, o que vai se acentuando gradativamente ao longo do tempo. Também não é por acaso que temos visto cada vez mais casos de infarto em pessoas com menos de 50 anos.
A inflamação nas artérias é um processo que tem sido objeto de maior interesse e estudo na medicina. Sabemos hoje que ela pode prenunciar estragos mais sérios, ligados aos grandes eventos cardiovasculares. Por isso, ganha força o uso de marcadores inflamatórios nos exames de sangue. Trata-se de moléculas que nos ajudam a identificar mais precocemente o problema, intervir e monitorar o tratamento.
Alguns marcadores inflamatórios já são mais conhecidos, como PCR (proteína C reativa) e o próprio LDL-colesterol, também envolvido na inflamação. Existem também exames mais específicos, com boa aplicação clínica, sendo usados para dar maior precisão ao diagnóstico de inflamação vascular, como lipoproteína (a), homocisteína, interleucinas, lipo-oxigenase e fosfolipase A2.
A elevação da PCR em pacientes com fatores de risco cardiovascular pode ser um importante sinal de alerta. Mesmo sendo pouco específica, estudos valorizam seu papel na prática médica.
Já a fosfolipase A2 facilita a quebra da estrutura proteica dos vasos sanguíneos, atraindo as partículas de gordura presentes no sangue. As interleucinas, especialmente IL-1 e IL-6, estão presentes em altas concentrações naqueles pacientes que tiveram infarto do coração ou tromboses e também são identificadas em concentrações razoavelmente altas nas pessoas com risco cardiovascular elevado. As lipo-oxigenases, por sua vez, são potentes ativadores de moléculas inflamatórias e facilitam o acúmulo de coágulos dentro dos vasos sanguíneos.
Um importante estudo recém-publicado pelo jornal da Associação Americana de Cardiologia, com a participação de quase 7 mil indivíduos, mostrou uma forte associação entre o aumento dos níveis sanguíneos da homocisteína e a ocorrência de infarto, derrame cerebral e insuficiência cardíaca. Também foi observado que, nos indivíduos com diabetes, o prognóstico dos eventos cardiovasculares é sensivelmente pior.
As últimas diretrizes brasileiras sobre prevenção de doenças do coração deram atenção especial ao papel inflamatório da lipoproteína (a). Esse marcador pode ser mais determinante para o risco cardiovascular do que o próprio colesterol LDL.
As taxas elevadas de lipoproteína (a) indicam inflamação acentuada dos vasos sanguíneos e maior tendência para formação de placas de gordura e trombos. Além disso, muitos estudos têm mostrado que, nas famílias com propensão genética, os níveis de lipoproteína (a) são muito mais determinantes do que os níveis do colesterol.
A questão que tira o sono dos cardiologistas é como tratar ou mesmo prevenir doenças cardiovasculares, tendo como luz no horizonte uma série de marcadores de risco. Algumas medidas são mandatórias e indiscutíveis, como controle da alimentação e gerenciamento do estilo de vida. Existem medicamentos como as estatinas, frequentemente utilizados na prática clínica, que também ajudam a cercar esses fenômenos perigosos.
A questão cada vez mais crucial é o controle e o tratamento da inflamação nos vasos sanguíneos. Os novos marcadores de risco cardiovascular são unânimes em alertar sobre essa ameaça. Resta estabelecer protocolos individualizados e ainda mais assertivos para que eles possam beneficiar os pacientes.
* Edmo Atique Gabriel é cardiologista e cirurgião cardiovascular e professor da Unilago, em São José do Rio Preto (SP)





