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O que está por trás dos tiques que levaram Lewis Capaldi a parar shows

Condição neurológica envolve circuitos profundos do cérebro e vai muito além de movimentos involuntários

Por Orlando Maia
23 mar 2026, 09h54 • Atualizado em 23 mar 2026, 09h57
  • Um momento que chamou a atenção do público ocorreu durante as apresentações do cantor escocês Lewis Capaldi, conhecido mundialmente pela música Someone You Loved. Em alguns shows, os tiques motores associados à Síndrome de Tourette tornaram-se mais intensos enquanto ele cantava. Em 2023, após episódios públicos de maior dificuldade, o artista anunciou uma pausa nas turnês para lidar com os impactos da condição — afastamento que se estendeu por 2024.

    Para quem observa de fora, a cena pode parecer apenas um movimento involuntário ou um episódio isolado de ansiedade no palco. No entanto, por trás desses movimentos repetitivos existe um fenômeno neurológico mais complexo, que envolve circuitos profundos do cérebro responsáveis pelo controle motor e pela regulação de impulsos.

    A Síndrome de Tourette é um transtorno neurológico caracterizado pela presença de tiques motores e vocais — ou seja, movimentos e sons involuntários, repetitivos e difíceis de controlar.

    O nome da condição remonta ao século XIX. O neurologista francês Jean-Martin Charcot deu visibilidade ao quadro e o nomeou em homenagem ao seu aluno Georges Gilles de la Tourette, que, em 1885, descreveu pacientes com um padrão específico de tiques motores e vocais persistentes.

    Do ponto de vista neurobiológico, a síndrome envolve alterações em circuitos conhecidos como cortico-estriato-tálamo-corticais. Esses circuitos conectam regiões do córtex cerebral, responsáveis pelo planejamento e pelo controle voluntário, a estruturas profundas chamadas gânglios da base, que participam da modulação dos movimentos.

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    Quando esse sistema perde parte de sua capacidade de filtragem e controle, impulsos motores podem escapar de forma involuntária. O resultado são movimentos ou vocalizações que surgem subitamente, muitas vezes precedidos por uma sensação interna de tensão que só alivia quando o tique ocorre.

    Esses tiques podem assumir várias formas. Alguns são discretos, como piscar repetidamente ou mover o pescoço. Outros são vocais e podem incluir sons, palavras ou frases curtas. Há ainda tiques mais complexos, como a coprolalia, quando ocorre a emissão involuntária de palavras socialmente inadequadas, e a copropraxia, caracterizada por gestos obscenos involuntários.

    Esses comportamentos não são intencionais nem refletem a vontade da pessoa. Eles resultam de uma falha momentânea nos circuitos de controle motor do cérebro.

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    Outro ponto importante é que a síndrome raramente aparece isolada. Muitos pacientes apresentam outras condições associadas, como Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), transtornos de ansiedade, além de dificuldades de aprendizagem e alterações do sono. Essa combinação ajuda a explicar por que cada paciente pode apresentar manifestações bastante diferentes.

    Um dos equívocos mais comuns é imaginar que os tiques acontecem de maneira totalmente aleatória ou que seriam apenas um hábito nervoso. Na realidade, muitos pacientes relatam uma sensação interna conhecida como impulso premonitório. Trata-se de uma tensão física ou sensação de pressão que se acumula antes do tique. O movimento surge como uma forma involuntária de aliviar esse desconforto.

    Outro erro frequente é reduzir a síndrome apenas à coprolalia. Apesar de ser o sintoma mais conhecido publicamente, ele aparece em uma minoria dos pacientes. No caso de Lewis Capaldi, os relatos públicos estão relacionados principalmente a tiques motores, que podem se intensificar em situações de estresse, exposição pública ou pressão emocional.

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    Os primeiros sinais da síndrome costumam surgir na infância, geralmente entre os 5 e os 10 anos de idade. Inicialmente, os tiques podem ser discretos e intermitentes. Isso leva muitas famílias a interpretar os sintomas como manias passageiras. Em alguns casos, essa percepção faz com que o acompanhamento especializado seja adiado por anos.

    O problema é que o quadro pode vir acompanhado de dificuldades escolares, ansiedade importante ou sintomas obsessivos, que acabam impactando o desenvolvimento social da criança. Além disso, quando os tiques aumentam de intensidade ou começam a interferir nas atividades cotidianas, a investigação clínica se torna importante para diferenciar a síndrome de outras condições neurológicas ou comportamentais que também podem produzir movimentos involuntários.

    O diagnóstico da Síndrome de Tourette é essencialmente clínico. Não existe um exame de imagem único capaz de confirmar a condição. A avaliação é feita com base no padrão dos tiques, em sua duração, na idade de início e na presença de tiques motores e vocais ao longo do tempo. Também é necessário investigar condições associadas, como TDAH, TOC e outras alterações neuropsiquiátricas.

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    O tratamento depende da intensidade dos sintomas e do impacto na vida do paciente. Em muitos casos, são utilizadas abordagens combinadas, que podem incluir medicações para modular os circuitos neurológicos envolvidos nos tiques e terapia cognitivo-comportamental voltada ao controle de impulsos e ao manejo dos sintomas.

    Nos quadros mais graves e resistentes ao tratamento clínico, existe ainda uma alternativa neurocirúrgica chamada estimulação cerebral profunda, conhecida pela sigla DBS (Deep Brain Stimulation). Esse procedimento envolve o implante de eletrodos em regiões profundas do cérebro associadas ao controle motor. Esses eletrodos são conectados a um gerador implantado sob a pele do tórax, em um princípio semelhante ao de um marca-passo cardíaco. O dispositivo envia estímulos elétricos de baixa intensidade capazes de modular a atividade desses circuitos cerebrais, ajudando a reduzir a frequência ou a intensidade dos tiques em pacientes criteriosamente selecionados.

    A Síndrome de Tourette continua cercada de estigmas e interpretações equivocadas. Movimentos ou sons involuntários muitas vezes são vistos como comportamentos estranhos ou inadequados, quando, na verdade, refletem uma condição neurológica complexa. Reconhecer esses sinais e compreender o que acontece no cérebro é um passo importante para evitar julgamentos e permitir que o paciente receba a avaliação adequada quando necessário.

    Orlando Maia é neurocirurgião do Hospital Quali Ipanema, membro titular da World Federation of Neuroradiology, da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e da Sociedade de Neurocirurgia do Rio de Janeiro

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