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Mais mulheres com bisturi: como consolidar esse progresso?

Cirurgia oncológica vive avanço da presença feminina; ampliar a equidade nos espaços de decisão e fortalecer políticas institucionais são passos essenciais

Por Viviane Rezende de Oliveira* 12 jan 2026, 08h00 •
  • A cirurgia, uma das especializações médicas mais cruciais e complexas, exige decisões rápidas, habilidades técnicas apuradas e resiliência. Tradicionalmente de domínio masculino, esta carreira testemunha a crescente presença feminina. Na cirurgia oncológica, a determinação feminina em “operar o destino que ela quiser” reflete a escolha por um percurso desafiador, mas também revela limites estruturais. A diversidade de gênero, fundamentada em competência e mérito, é um propulsor inegável da excelência e de desfechos positivos para os pacientes.

    A crença de que a rigidez física, longas horas e a complexidade emocional do ambiente cirúrgico seriam incompatíveis com a “natureza feminina” ou à vida familiar criou um ciclo de exclusão. Embora refutada, seus resquícios persistem. Um desafio sutil é o viés inconsciente, que afeta todas as etapas da carreira: tempo de formação, que, na cirurgia oncológica, exige no mínimo cinco anos de treinamento forma. Somado a isso, a escassez de modelos femininos em destaque e de redes de apoio robustas criam um ambiente menos acolhedor. A exaustiva jornada de trabalho, embora desafiadora para todos, é frequentemente exacerbada para mulheres, que acumulam outras responsabilidades.

    Barreiras informais como assédio, questionamentos sistemáticos sobre competência e cobranças desproporcionais relacionadas à maternidade e vida pessoal ainda permeiam processos seletivos e rotina profissional. Tais situações afetam a contratação, permanência e progressão na carreira, levando ao desgaste profissional, especialmente no início da carreira ou durante a maternidade, podendo resultar em evasão precoce. Além disso, a migração de profissionais do SUS para o setor privado fragiliza a assistência em áreas vulneráveis.

    A excelência na cirurgia é medida por critérios objetivos como habilidade técnica, julgamento clínico, trabalho em equipe, taxa de sucesso, minimização de complicações e segurança do paciente. Não há evidências que vinculem a capacidade cirúrgica ao gênero. Estudos mostram que cirurgiãs alcançam resultados e desfechos para pacientes tão bons quanto, ou até superiores, aos de colegas homens. Isso reforça que o foco deve ser a competência e os resultados clínicos.

    Uma equipe cirúrgica heterogênea pode levar a decisões mais robustas e cuidados abrangentes. A prioridade é o bem-estar do paciente e, para isso, precisamos dos melhores talentos, independentemente de quem os detenha. Isso significa ir além de eliminar preconceitos explícitos e atuar contra vieses inconscientes em processos de seleção, avaliação e promoção.

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    Iniciativas como a comissão permanente de cirurgiãs oncológica (Athenas), da SBCO, inspirada na deusa da sabedoria e justiça, buscam a competência e resultados favoráveis. Além disso, a educação continuada sobre inclusão para líderes e equipes de seleção pode criar um ambiente mais justo e meritocrático.

    A igualdade de oportunidades não busca igualar resultados, mas garantir que cada indivíduo, por mérito e capacidade, tenha chances iguais de sucesso. Um ambiente onde o desempenho é o único fator de progressão é a verdadeira meritocracia, incluindo trabalho seguro, políticas antiassédio e valorização da maternidade sem penalização profissional.

    O futuro da carreira cirúrgica é promissor e diverso. Há um reconhecimento crescente de que a inclusão é pilar da excelência. A expansão da presença feminina nas residências de cirurgia oncológica, embora significativa, ainda não se reflete nas posições de liderança. A ocupação da vice-presidência da SBCO por uma mulher é simbólica, construída com anos de dedicação. Porém, representatividade precisa ser regra, não exceção.

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    À medida que mais mulheres ingressam na medicina e na cirurgia, a profissão pode redefinir normas, reter talentos e tornar a carreira mais sustentável. A liderança institucional é crucial para uma cultura de respeito, igualdade e valorização da diversidade. Superar desafios históricos exige um compromisso coletivo com a igualdade de oportunidades, onde competência, resultados e mérito sejam os únicos critérios.

    Garantir a permanência de mulheres qualificadas na cirurgia é crucial para a organização do cuidado oncológico e de todas as especialidades cirúrgicas. Ao abraçar essa visão, a cirurgia se tornará uma profissão mais justa, inclusiva, robusta, inovadora e eficaz, assegurando que os melhores bisturis sirvam à vida e que o destino profissional seja sustentado por estruturas sólidas, equitativas e duradouras.

    *Viviane Rezende de Oliveira é cirurgiã oncológica, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO)

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