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Letra de Médico

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Câncer ocular: as estratégias adotadas pelo Brasil para cercar tumor raro

Em um país continental, com profundas desigualdades regionais, a tecnologia tornou-se uma aliada inesperada

Por Rubens Belfort Neto* 3 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 6 mar 2026, 13h05
  • “Mas, como assim, existe câncer no olho?” Essa talvez seja a frase que nossos pacientes mais escutam ao receber o diagnóstico. A surpresa não é exagerada. Os tumores intraoculares são raros. Em adultos saudáveis, o câncer mais comum dentro do olho é o melanoma uveal — primo do melanoma de pele — e atinge cerca de três pessoas por milhão por ano. Em um país com as dimensões do Brasil e com grande diversidade racial, estimamos algo entre 700 e 1.500 novos casos anuais. É um número relevante do ponto de vista de saúde pública, mas ainda assim extremamente raro.

    E essa raridade é justamente um dos maiores problemas. Estudos sugerem que um oftalmologista geral pode diagnosticar apenas um melanoma ocular ao longo de toda a carreira. Imagine o desafio: manter milhares de especialistas atentos a uma doença que quase nunca verão. O resultado é previsível. Parte dos casos é diagnosticada tardiamente ou inicialmente confundida com outras doenças como descolamento de retina.

    Além disso, o oncologista ocular — o oftalmologista especializado no tratamento de câncer intraocular — é uma figura relativamente rara no Brasil. Poucos centros treinam esses profissionais. E muitos, após anos de formação altamente especializada, acabam atuando em serviços onde o volume de pacientes não justifica a dedicação exclusiva à oncologia ocular, retornando à prática da oftalmologia geral. A consequência é um sistema fragmentado, com acesso desigual ao diagnóstico preciso e ao tratamento adequado.

    Uma vez confirmado o diagnóstico, o tratamento é feito basicamente de duas maneiras. A primeira é a enucleação: a cirurgia que remove o olho comprometido. Do ponto de vista oncológico, ela é eficaz para controlar a doença local. Mas é impossível ignorar o impacto emocional, estético e funcional.

    Perder um olho é mais do que perder visão: é enfrentar um luto simbólico, uma alteração na autoimagem, um medo profundo sobre o futuro. Embora as técnicas modernas de reconstrução orbitária e próteses oculares tenham evoluído muito, o sofrimento psicológico ainda é real.

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    A segunda modalidade é a braquiterapia ocular. Nessa técnica, uma pequena placa radioativa é posicionada temporariamente sobre a parede externa do olho, exatamente sobre o tumor, permitindo tratar a lesão preservando o globo ocular e, muitas vezes, parte da visão. É um tratamento sofisticado, que exige equipe treinada, planejamento preciso e estrutura hospitalar adequada.

    No Brasil, sua disponibilidade é limitada. O Einstein Hospital Israelita é um dos únicos a oferecer o tratamento com sementes de iodo seguindo os protocolos internacionais mais modernos — o único que permite que o paciente não fique internado e isolado durante o tratamento –. O acesso, infelizmente, é limitado aos que podem arcar com o tratamento em um hospital de excelência.

    Fora de São Paulo, este tratamento, que permite tratar os tumores maiores (os mais comuns a serem detectados no Brasil pelo fato de o diagnóstico ser demorado), não está disponível. Apenas recentemente o tratamento com sementes de iodo importadas passou a ser disponibilizado no Hospital de Amor — antigo Hospital de Câncer de Barretos –, ampliando o acesso para pacientes da rede pública. Uma grande vitória para todos que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).

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    Desafio não termina no olho

    Mesmo após o controle do tumor ocular, o paciente precisa ser acompanhado pelo resto da vida. Existe o risco de a doença se espalhar pelo organismo — a chamada doença metastática. De forma curiosa e ainda não completamente compreendida, o fígado é o órgão afetado em cerca de 85% dos casos de metástase. Isso significa que exames periódicos, principalmente de imagem hepática, tornam-se parte da rotina desses pacientes. A boa notícia é que, em 2025, chegou o primeiro remédio aprovado para doença metastática do melanoma ocular, chamado tebentafusp.

    Diante de um câncer raro, de diagnóstico difícil e com tratamento altamente especializado, qual seria a melhor estratégia para o Brasil? Fazer campanhas amplas para a população? Criar programas de rastreamento? Na prática, essas medidas seriam pouco produtivas. A incidência é baixa demais para justificar busca ativa em massa.

    Optamos por outro caminho.

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    Em vez de tentar informar milhões de pessoas sobre uma doença raríssima, decidimos apoiar diretamente quem está na linha de frente: o oftalmologista que atende o paciente com uma lesão suspeita no consultório. Foi assim que surgiu a iniciativa de disponibilizar um número de WhatsApp, totalmente gratuito, acessível a qualquer oftalmologista do Brasil que enfrente um possível caso de câncer ocular. Ele foi carinhosamente chamado de OncoFone.

    A lógica é simples: diante da dúvida, o médico envia fotos, exames e informações clínicas. Em poucos minutos, recebe orientação de um grupo altamente experiente em oncologia ocular. Em muitos casos, o diagnóstico é tranquilizador. Em outros, o encaminhamento rápido pode significar a diferença entre preservar o olho ou perder a chance de tratamento conservador. Deu certo e, nos últimos 40 meses, recebemos 1.055 consultas de todos os estados brasileiros e de países como México, Peru, Argentina, Portugal e Angola.

    Em um país continental, com profundas desigualdades regionais, a tecnologia tornou-se uma aliada inesperada. Não substitui a consulta, não banaliza o diagnóstico, mas encurta distâncias. E, para uma doença em que cada milímetro e cada semana contam, isso pode mudar histórias.

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    O câncer no olho é raro. Mas, para quem recebe o diagnóstico, ele deixa de ser estatística e passa a ser urgência. O tratamento adequado salva a vida do paciente, evita a retirada do olho e permite manter visão para uma vida feliz.

    *Rubens Belfort Neto é especialista em melanoma uveal e outras neoplasias intraoculares. Doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é ex-presidente da Sociedade Pan-Americana de Oncologia Ocular e foi chefe do Setor de Oncologia Ocular do Hospital São Paulo entre 2011 e 2016

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