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Letra de Médico

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A nova epidemia não é só de obesidade – é também de oportunismo

Pseudoespecialistas e até contrabandistas criaram um mercado paralelo para fins de emagrecimento

Por Clayton Macedo* 30 jul 2026, 15h00 | Atualizado em 30 jul 2026, 17h25
A nova epidemia não é só de obesidade – é também de oportunismo Priorizar nos meus resultados Google

Até um tempo atrás, a discussão sobre medicamentos para obesidade acontecia quase exclusivamente dentro dos consultórios, dos congressos científicos e das agências regulatórias. O debate era técnico e falava-se de mecanismos de ação, eficácia, segurança, efeitos adversos e critérios de prescrição.

Agora, infelizmente, a conversa mudou de lugar. Ela saiu da medicina baseada em evidências e foi parar em grupos de WhatsApp, perfis de Instagram, canais de Telegram, grupos de condomínio, academias, clínicas pseudoespecializadas em emagrecimento e mercados paralelos que jamais deveriam participar de decisões relacionadas à saúde e segurança da população.

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A ciência levou décadas para desenvolver as“canetas emagrecedoras”o erro já começa chamando assim, pois são medicamentos para tratar duas doenças extremamente frequentes e potencialmente graves, a obesidade e o diabetes.

Mas, com os resultados impressionantes de perda de peso, uma nova indústria surgiu: a indústria do oportunismo. Formou-se uma economia paralela da esperança, onde pouco importa se existe segurança, registro sanitário, farmacovigilância, rastreabilidade ou avaliação regulatória. O que importa é a promessa. E, principalmente, a velocidade com que essa promessa pode ser convertida em faturamento.

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No início, os protagonistas eram relativamente identificáveis. Algumas raras farmácias de manipulação exploravam zonas cinzentas da regulamentação. Alguns médicos promoviam soluções simplistas para problemas complexos.

Uma nova categoria de profissionais se apresentava como especialista em obesidade e em hormônios sem possuir formação na área, transformando o tratamento em um produto premium de protocolos de hormônios, soros, vitaminas e manipulados antiobesidade destinado a pacientes classificados como “high ticket”.

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Mas o fenômeno cresceu e hoje existe uma verdadeira cadeia informal de comercialização que se expande numa velocidade muito superior à capacidade de fiscalização dos órgãos reguladores.

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São pessoas sem qualquer habilitação em saúde vendendo medicamentos, indivíduos que jamais estudaram farmacologia orientando tratamentos, influenciadores transformando doenças crônicas em oportunidade comercial e grupos privados nos quais medicamentos são anunciados como quem vende roupas.

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Muambeiros “raiz”, que traziam eletrônicos, cigarros, vinhos e perfumes falsificados do Paraguai, hoje trazem tirzepatida ou, pior, retatrutida e peptídeos – substâncias ainda sem aprovação sanitária em nenhum lugar do mundo. Inimaginável, mas real: medicamentos alternativos e falsificados para obesidade também percorrem rotas utilizadas pelo crime organizado para o tráfico de armas e drogas.

Recentemente, uma reportagem amplamente divulgada analisou algumas poucas amostras de tirzepatida comercializadas no Paraguai e revendidas ilegalmente no Brasil. A análise encontrou uma molécula compatível com tirzepatida (apesar de concentrações erráticas e arriscadas).

O problema não foi o dado e sim o que fizeram com ele. Em poucas horas, vendedores clandestinos, atravessadores, influenciadores e comerciantes do mercado paralelo transformaram uma análise laboratorial limitada em uma suposta chancela de qualidade. A mensagem passou a ser simples: “está comprovado que é igual”.

Mas não foi isso que o estudo demonstrou. A própria reportagem reconhecia limitações importantes. Não avaliou esterilidade, perfil completo de impurezas, estabilidade, cadeia de frio, imunogenicidade, bioatividade, equivalência clínica ou farmacovigilância. Mesmo assim, o que circulou nas redes não foram as limitações e sim a manchete.

O oportunismo não compartilha nuances e apenas aquilo que ajuda a vender. E essa talvez seja a característica mais preocupante do momento atual. Existe um esforço crescente para transformar ilegalidade em normalidade, contrabando em alternativa, ausência de registro em vantagem comercial, fiscalização sanitária em obstáculo, cautela científica em exagero e medicina baseada em evidências em opinião.

Queremos mais acesso, mais opções terapêuticas, preços mais justos. Estamos lutando muito por isso. O desafio da incorporação dessas terapias aos sistemas de saúde exige debate permanente e medidas imediatas do governo.

Mas existe uma diferença fundamental entre democratizar o acesso e relativizar a segurança. Inovação não pode significar flexibilização da ciência. E popularização não pode significar substituição da medicina por comércio informal.  

A equidade não pode ser ilusória, com o lucro e o crime travestidos de acesso, com a doença sendo usada para validar a má prática e com a exposição a riscos sendo ignorada.

Quando a ciência cria uma solução, ela cria também uma responsabilidade. E o maior desafio deste momento não é apenas proteger a população da doença: é proteger daqueles que descobriram que é possível lucrar com a dor e a esperança alheia.

* Clayton Macedo é doutor em Endocrinologia Clínica e especialista em Medicina do Esporte e coordenador do núcleo de Endocrinologia do Exercício da Unifesp e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

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