Ruídos eleitorais
Trump tenta favorecer Flávio Bolsonaro, visto como colaborador na disputa com a China
Lula acredita ter mais adversários em Washington do que em Brasília. Não lhe faltam motivos.
Dias atrás, ele pediu ao empresário Joesley Batista, do grupo J&F, ajuda para falar com Donald Trump. O telefonema resultou numa reunião na Casa Branca de quase três horas com Trump. Lula voltou sem acordo, mas celebrou “o sucesso” da visita. “Ele até riu, porque disse que entre eu e ele tem uma ‘química’” — repetia em conversas no Palácio do Planalto.
Então, o clima mudou: “O bolsonarismo ficou muito p… da vida”, disse na semana passada. “E aí, o que aconteceu? Eles foram lá, a família (Bolsonaro) foi lá conversar com o tal do Marco Rubio (chefe do Departamento de Estado).”
Lula se surpreendeu com a recepção ao adversário Flávio Bolsonaro em Washington. Acossado por revelações sobre suas obscuras transações com o antigo dono do Banco Master, protagonista de fraudes financeiras bilionárias, o candidato presidencial do Partido Liberal viajou para rechear o álbum de fotografias de campanha em cenas de encontros com Trump e principais assessores.
Rubio ampliou o desgosto de Lula ao anunciar a classificação das máfias brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas, equiparando-as ao Hezbollah, Hamas, Estado Islâmico e Al-Qaeda. Na prática, a decisão amplia o poder de intervenção do governo dos Estados Unidos no setor financeiro e aumenta a insegurança jurídica em negócios no Brasil. Uma das consequências é a vulnerabilidade de cidadãos e empresas brasileiros a processos em tribunais americanos pelas legislações antimáfia e antiterrorismo e, também, punições liminares como banimento do sistema internacional de pagamentos em dólar.
Mais tarde, no Senado americano, o secretário de Estado disse que a América Latina é cheia de amigos, mas destacou o Brasil como exceção, ao lado das ditaduras de Cuba e Nicarágua (a ressalva ficou fora da transcrição oficial). Rubio é um conservador visto na Flórida como potencial candidato do Partido Republicano na sucessão presidencial de 2028.
“Trump tenta favorecer Flávio Bolsonaro, visto como colaborador na disputa com a China”
Lula evita criticar Trump. Prefere atacar Rubio, um descendente de cubanos a quem chama de “latino-americano frustrado”. Define o secretário como “o anti-América Latina, o inimigo mortal de Cuba, o inimigo mortal de vários países latino-americanos. Eu já disse ao Trump, ele não gosta do Brasil…”. Rubio foi decisivo na indicação do novo embaixador dos EUA no Brasil, Daniel Perez, ex-presidente da Câmara da Flórida.
Horas depois, a agência de defesa comercial (USTR) divulgou sua recomendação para um novo tarifaço sobre as exportações brasileiras e de dezenas de outros países. Começaria em julho no patamar de 25% e logo teria 10% adicionais sob pretexto de repressão à prática de trabalho forçado.
Lula, aparentemente, frustrou-se na expectativa de que a “química” com Trump derivasse em tratamento diferenciado. Admitiu o golpe: “Não tô bem, eu tô depressivo, gente”, disse num comício na cidade de Catalão, no sudeste de Goiás, na terça-feira (2/6). Fez questão de vazar seu mau humor para a plateia: “Esses filhos do Bolsonaro conseguiram ser pior do que ele. Eles são, na verdade, vendilhões da pátria. É isso que se tem que dizer, em alto e bom som: são traidores! O que merecem os traidores da pátria? Pensem, pensem, meditem…”.
A Casa Branca resolveu condicionar as relações com a América Latina à política de segurança interna. Remeteu as negociações, os acordos e os tratados internacionais ao acervo museológico da Guerra Fria. Promove interferências ostensivas e indevidas nas políticas domésticas dos países latinos.
No caso brasileiro, sobram evidências de coerção diplomática, comercial e militar para forçar alinhamento aos interesses dos Estados Unidos na disputa de poder com a China. Insiste-se na submissão de Brasília. Um ano atrás, Trump vinculou por escrito o tarifaço sobre produtos brasileiros à exigência de que Jair Bolsonaro não fosse preso nem julgado por tentativa de golpe de Estado. Deu errado. Ele está inelegível e condenado à prisão até os 97 anos de idade.
Em Washington, agora, joga-se para favorecer o aliado mais disposto à colaboração: o filho senador que Bolsonaro nomeou candidato à Presidência da República. Não será novidade se a bandeira dos EUA prevalecer nos próximos comícios do Partido Liberal. Já aconteceu em São Paulo, com Flávio Bolsonaro no palanque, numa tarde de celebração da Independência brasileira.
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Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998





