“Quem vai trair primeiro?” — é a pergunta mais ouvida nas conversas de líderes do Partido Liberal no Rio de Janeiro. Alguns apostam no senador Flávio Bolsonaro. Outros especulam sobre o ex-governador Cláudio Castro, reputado como “arquivo vivo” pelo conhecimento do subterrâneo da política fluminense nas últimas duas décadas.
A resposta não deve demorar mais do que oito semanas, até a convenção de julho, quando o partido vai aclamar seus candidatos às eleições de outubro. Flávio Bolsonaro, 45 anos, é candidato à Presidência da República. Cláudio Castro, 47, quer disputar o Senado, embora esteja inelegível por decisão judicial que supõe ser reversível. Ambos representam uma renovação geracional nos grupos da direita no Rio, mas preservaram antigos vícios e, agora, se veem enredados numa teia de transações obscuras na política.
A direita fluminense aglutinou-se em 2018 na candidatura presidencial de Jair Bolsonaro. No estado do Rio, deu-lhe sete em cada dez votos na disputa contra Fernando Haddad, substituto de Lula na eleição. Quatro anos depois, garantiu-lhe apoio expressivo à reeleição (56% dos votos estaduais), mas ele acabou ultrapassado por Lula em margem estreita (1,8 ponto percentual na contagem nacional).
Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro atravessaram a última década tentando consolidar posições de liderança no condomínio da direita fluminense, que tem raízes seculares no ativismo católico e, desde os anos 1930, nos movimentos pentecostais. O ex-governador entrou na vida pública pela porta da coordenadoria do Ministério de Fé e Política da Arquidiocese do Rio de Janeiro. O senador se converteu pouco antes de anunciar a candidatura à Presidência e, desde então, integra a bancada evangélica no Congresso.
Houve plena sintonia durante oito anos entre o senador Bolsonaro e o governador Castro. A sociedade Bolsonaro & Castro vicejou na harmonia baseada em interesses eleitorais comuns e no crescente poder de influência sobre negócios do governo do estado do Rio. O epílogo dessa parceria ganhou velocidade em múltiplos inquéritos policiais envolvendo os dois políticos.
“Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro se enredaram em negócios obscuros”
O principal é a investigação sobre a arquitetura de proteção política às fraudes financeiras bilionárias do Banco Master e empresas associadas. Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro escolheram entrar num labirinto de transações financeiras com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Em julho do ano passado, por exemplo, o governo Cláudio Castro somou 2,6 bilhões de reais em aplicações da previdência do funcionalismo fluminense em títulos podres e contas sigilosas administrados pelo Master.
Um mês antes, o tribunal de contas estadual emitiu um “alerta expresso” sobre “graves irregularidades apuradas na alocação de recursos”. Entre outras coisas, avisou que o fundo Rioprevidência estava perdendo 1 milhão de reais por dia útil em manipulações de mercado com papéis de empresas como Ambipar.
No entanto, o governo Castro optou pelo “silêncio informacional”, registrou a relatora do caso, Marianna Montebello Willeman, única conselheira do TCE-RJ que não foi presa em ações policiais anteriores. Era inequívoca a gravidade das irregularidades identificadas em auditorias — ela escreveu —, que “foram acentuadas após o início da apuração, a despeito do alerta expresso” sobre a “gestão temerária dos recursos públicos que expõe a risco a própria viabilidade financeira do regime próprio de previdência social dos servidores estaduais”.
No dia 8 de outubro, por iniciativa da conselheira Willeman, o tribunal comunicou ao governador Castro sobre a destruição do patrimônio dos servidores estaduais com sugestão de intervenção imediata no fundo Rioprevidência. No entanto, os negócios com o Master continuaram. Chegaram a 3,7 bilhões de reais em dezembro.
Coincidência ou não, seis semanas depois o senador Bolsonaro enviou mensagem de áudio ao antigo dono do Master com a cobrança de uma “dívida” de 134 milhões de reais. Aparentemente, já havia recebido ao menos 61 milhões de reais. O ex-banqueiro Vorcaro foi preso no dia seguinte, 18 de novembro. Quando conseguiu transferência para prisão domiciliar, recebeu em São Paulo a visita de Flávio Bolsonaro. Ele já era candidato à Presidência da República; foi cobrar os 73 milhões de reais pendentes, contou na semana passada o presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto.
Enrolados na teia Master, o senador e o governador agora disputam espaço e influência no partido. Por isso, a pergunta mais repetida no PL do Rio é: “Quem vai trair primeiro?”.
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Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





