Mais da metade das obras públicas federais está parada. Ou seja, uma em cada duas obras realizadas com dinheiro federal permanece paralisada. Dos 22 600 projetos mapeados em todo o país, 11 400 estão inacabados. Essa maioria estancada (50,4%) é novidade nos registros do Tribunal de Contas da União.
Os estados com mais obras federais paralisadas são Maranhão (1 225), Bahia (926), Pará (889) e Minas Gerais (874). Não é pouca coisa e custa caríssimo: 16 bilhões de reais, na calculadora dos auditores fiscais. Prevê-se que ainda devem consumir 30 bilhões de reais até a conclusão.
O catálogo de empreendimentos interrompidos reflete um avanço contínuo da dissonância entre o discurso eleitoral e a vida real dos eleitores. Sete em cada dez projetos parados são das áreas de educação e saúde, embora o clamor por melhores serviços públicos educacionais e de saúde esteja visível na miríade de pesquisas eleitorais. São 8 000 escolas, creches e postos de saúde abandonados. A mais comum das paisagens é a interrompida pelo “esqueleto” da construção cercado pelo matagal.
Não é coletânea de obras paradas de um único governo. Entre as mais antigas se destaca a usina nuclear Angra 3. Está em construção há 45 anos na paisagem paradisíaca do litoral de Angra dos Reis (RJ). É um imenso buraco com quase dois terços das estruturas montadas, rodeado de armazéns fechados com maquinário antigo e equipamentos recém-chegados da Alemanha. Gastam-se 100 milhões de reais por ano apenas com manutenção.
A aventura nuclear embalou a ditadura e já custou ao país meio trilhão de reais, ou uma centena de bilhões de dólares. Derivou num impasse que nove presidentes não conseguiram resolver: terminar a usina Angra 3 custa, no mínimo, o dobro do que já foi gasto, e não se sabe qual seria a tarifa de energia necessária para pagar o investimento. Continua insolúvel. Foi tema recorrente de reuniões mensais no Palácio do Planalto nos últimos dois anos. O governo Lula segue sem saber o que fazer com o programa nuclear. Ele agoniza, mas não morre. Sobrevive como uma alegoria da afeição entre políticos civis, chefes militares e empreiteiros, aditivada no Orçamento federal.
“Mais da metade das obras públicas federais está parada. O custo é bilionário”
Inacabada, também, está a estrada para nova subida da serra de Petrópolis (RJ), trecho da BR-040 entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro. É obra parada há trinta anos. Ao analisar os prejuízos milionários já causados ao Tesouro Nacional, Walton Alencar, do TCU, classificou esse empreendimento “um atestado clássico do rematado fracasso do poder público no controle da regularidade e do efetivo cumprimento de muitos contratos de concessão de rodovias”.
Perdas para os cofres públicos se multiplicam no painel nacional de obras paralisadas. Na Paraíba, já dura oito anos a construção de um trecho de apenas 31 quilômetros de rodovia. A “adequação” de um pedaço da BR-230 começou em 2018, no governo Jair Bolsonaro, e estava prevista para ser concluída em três anos e meio. Ainda não acabou, mas o custo por quilômetro aumentou 77% — passou de 9,9 milhões de reais para 17,6 milhões de reais.
Em campanha para o quarto mandato presidencial, Lula tem ampliado a lista de obras prometidas. “Basta o prefeito doar um terreno, vamos fazer um instituto federal de educação em cada município” — anunciou num comício há duas semanas. Escolas técnicas federais existem há 117 anos, desde o governo-tampão de Nilo Peçanha (1909-1910), patrono da educação profissional no país. Educado no Senai de São Paulo, Lula tem mantido foco na expansão dessa rede de ensino profissionalizante, agora com 754 escolas.
O problema é o vício burocrático da inércia, do abandono e do desperdício de dinheiro com milhares de empreendimentos públicos iniciados e nunca concluídos. Entre abril de 2024 e abril de 2025, por exemplo, o governo Lula iniciou 5 505 obras. Cerca de 1 200 foram paralisadas, segundo o inventário do TCU. Ou seja, pouco mais de um quinto (22%) daquilo que começou não acabou. O candidato multiplica promessas de mudança, enquanto o presidente gerencia o atraso.
A quantidade de obras paralisadas e inacabadas e o desperdício de recursos públicos investidos nesses “esqueletos” sinalizam o colapso de um padrão administrativo que atravessa décadas e governos de diferentes matizes políticos. Talvez seja mais barato pagar a comissão dos intermediários e não fazer obra nenhuma, como ironizava o economista e engenheiro Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda no governo Ernesto Geisel (1974-1979).
Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003






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