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José Casado

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Informação e análise

O atraso

No palanque, Lula e Flávio Bolsonaro foram surpreendidos pela jogada de Trump

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 abr 2026, 06h00

Lula tem fascínio pela própria voz. Fala muito, sempre para plateias simpáticas, receptivas a discursos graciosos com pitadas de contundência estudada que até parecem improviso. Com ele, as palavras voam — e, se necessário, os escritos também.

Lula resolveu amplificar as críticas aos Estados Unidos. Atua como se estivesse escalando uma crise, devagar e com o cuidado de só encaixar Donald Trump em moldura caricata. Exemplo: “Tá ameaçando todo mundo, mas não sabe o que é um pernambucano, senão, não vai fazer ameaça nunca aqui. Se ele soubesse da minha descendência com o Lampião, ele tomava muito cuidado. Se soubesse o que é um nordestino nervoso, não brincaria com o Brasil”.

Lula apostou na “química” com Trump. Encontraram-se por meio minuto num corredor da ONU e, na sequência, conversaram algumas vezes ao telefone. A surpresa diplomática da primavera em Nova York inflacionou expectativas sobre a distensão nas relações entre governos. No Palácio do Planalto, análises sobre eventual reunião de presidentes concluíram que, no mínimo, ajudaria a exorcizar temores de ingerência na campanha eleitoral brasileira, realçados pelas recentes intervenções americanas nas eleições da Argentina e da Hungria. No melhor cenário, Lula e Trump definiriam uma agenda para acordos de comércio e de investimentos.

Passaram-se cinco meses, nada aconteceu. Sem convite, Lula não foi à Casa Branca. Tentou, mas não conseguiu encontrar Trump. Não quer dizer que tenha desistido do “amor à primeira vista” — palavras suas. A relação com Trump, porém, parece circunscrita à parábola do falso amor sincero de Nelson Sargento: um finge que gosta, outro finge que acredita.

Lula ensaia mudança de rumo. Tenta atrair Trump ao jogo eleitoral. Acha possível reprisar na campanha a reação ao tarifaço (de até 50%) sobre exportações brasileiras para os EUA em meados do ano passado. Na época, foi útil para dar alguma vivacidade à imagem do candidato à reeleição como líder na defesa da “soberania”. Houve melhoria na avaliação do governo e do presidente candidato, mas foi episódica nas pesquisas de intenção de voto. O objetivo agora é reduzir a alta rejeição (mais de 50%), em que há meses se vê empatado com o adversário Flávio Bolsonaro.

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“No palanque, Lula e Flávio Bolsonaro foram surpreendidos pela jogada de Trump”

Burocratas de Washington repetem há quinze meses que nada mudou, e provavelmente não vai mudar, nas relações com o Brasil. Por isso mesmo, é notável a surpresa e, também, o fastio de Lula com a marginalização na política de Trump para a América do Sul. Permanece o clima gélido na diplomacia, com tendência a crescentes choques de interesses em áreas relevantes no conflito dos EUA com a China. Embate novo é sobre a exploração das reservas brasileiras de minérios essenciais às indústrias de alta tecnologia e de defesa.

O país tem reservas comprovadas de quase todos os 24 minerais classificados como estratégicos ou críticos, mas há quase uma década protela na definição da política setorial. Não sabe, por exemplo, se vai se limitar à exploração e exportação de terras-raras, ou se pretende avançar na industrialização integrada nos segmentos de inteligência artificial, alta tecnologia e defesa. E, muito importante, qual será o papel do Estado.

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Lula atravessou os últimos dias falando sobre a “soberania mineral”. Ninguém, repetiu a audiências em três países europeus, “será dono da nossa riqueza mineral”. Fez um contraponto a Flávio Bolsonaro, que num discurso a ativistas republicanos, em Miami, prometeu aos Estados Unidos “cadeias de suprimento seguras que precisam para materiais críticos”. Metade das reservas conhecidas desses minerais está na Amazônia, região que o ex-presidente Jair Bolsonaro ofereceu outorgar ao governo Trump para exploração.

No palanque, Lula e Flávio Bolsonaro acabaram surpreendidos pela realidade. A americana USA Rare Earth anunciou a compra da única mina brasileira produtora de terras-raras, localizada em Minaçu (GO). A jogada do governo Trump foi executada por empresa privada financiada por um fundo público americano. “É um depósito de argila iônica, o mesmo tipo geológico dos depósitos do sul da China que sustentaram décadas de hegemonia de Pequim”, comentou Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras. “Esse ativo geológico não se encontra em catálogo. Ele simplesmente existe, e agora existe nos Estados Unidos.”

Sem definição consistente e coerente de políticas para o futuro, o país continua patinando na gerência do atraso.

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Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992

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