O tumulto no mercado financeiro na sequência da eleição presidencial mostrou que não haverá dia fácil para Luiz Inácio Lula da Silva. Surpreendidos pela virada do petista no segundo turno, algo completamente fora do radar das pesquisas realizadas na véspera, investidores contabilizavam um enorme prejuízo na bolsa de valores de São Paulo, a B3. Algumas dessas perdas somadas chegaram a 15 bilhões de dólares, equivalentes a 78 bilhões de reais.
É quase o dobro da quantia prevista para investimentos em infraestrutura neste ano. É, também, o dobro do valor das emendas parlamentares ao Orçamento, razão da disputa de poder entre governo e Congresso nos últimos seis anos. As perdas podem ser recuperáveis, mas a sangria foi significativa.
Naquela manhã, enquanto o índice de ações Ibovespa despencava (chegou a -17,34%), o Bank of America fazia uma reunião virtual com duas centenas de clientes. Eles não escondiam a ansiedade por informações sobre o governo Lula-4, o novo Congresso e o futuro da oposição, com a direita rachada pela família Bolsonaro.
A lista de perguntas sugeria aflição com a indecisão ou a escassa sinalização sobre o rumo do país, depois de uma longa campanha, pobre em ideias e indigente em propostas. Na economia, a premissa é a de que a realidade do caixa governamental impõe alguma urgência no “ajuste” das contas públicas, mas sobram dúvidas:
*O anúncio aconteceria neste ano ou o governo tende a adiar, segurando medidas para depois do Carnaval, quando o Congresso estaria em pleno funcionamento?
*Esse “pacote” para reequilíbrio do caixa do governo, certamente, terá sequelas recessivas, mas até onde Lula estaria disposto a aceitar a redução nos gastos públicos e a consequente redução no ritmo de evolução da economia, que vai afetar os mais pobres?
Predomina, também, incerteza sobre o comportamento da oposição. Pela segunda vez em quatro anos, a maioria (51,8%) dos eleitores vetou o retorno de alguém com o sobrenome Bolsonaro à Presidência da República. A clientela de investidores do Bank of America se mostrava cética sobre as chances de unidade na frente de oposição. Discutia, entre outras coisas:
*Os partidos da direita e da centro-direita vão se reorganizar em torno de liderança única ou seguirão fragmentados, sob influência ocasional da extrema direita abrigada no Partido Liberal e comandada pelo clã Bolsonaro?
*Os governadores do PL e do Centrão seguiriam o candidato fracassado, que negara a derrota, reivindicara a anulação da eleição e a cassação do adversário vencedor?
É provável que, no dia seguinte, muitos tenham ficado atônitos com a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, poucas horas depois de ter recebido 59,8 milhões de votos para a Presidência da República. Ele é alvo de investigações há meses por várias transações milionárias suspeitas durante o mandato de senador pelo Rio de Janeiro, que termina no começo de 2027.
“A oposição terá menos Bolsonaro e mais Tarcísio de Freitas”
Estava a bordo de um jato privado em viagem para a Flórida, nos Estados Unidos, quando se divulgou uma mensagem de despedida do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele se reelegeu com 14,4 milhões de votos (62,6% do total), no primeiro turno, no estado mais rico e onde vive parte expressiva (21%) do eleitorado brasileiro. No segundo turno, pilotou a campanha paulista de Flávio Bolsonaro, garantindo-lhe 14,1 milhões de votos no estado.
O governador paulista agradeceu ao candidato fracassado “por caminhar com a gente”. Quando chegou a Miami, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta de tom golpista, em papel timbrado com o antigo brasão dos “Estados Unidos do Brazil”, que assinou como “presidente eleito” (momentos depois, corrigiu o documento). Na contramão do aliado, Tarcísio de Freitas reconheceu a vitória de Lula e a unidade demonstrada por quase metade do eleitorado: “Reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos… Foram quase 60 milhões de brasileiros, e a cada um de vocês, obrigado”.
O discurso do governador paulista pode ter soado como música aos ouvidos de quem, na sua descrição, acabou vitimado pela “bolsa despencando, empresas perdendo valor, câmbio disparando…”. Propôs unidade oposicionista em torno de “um desejo” e explicou: “Esse desejo tem nome, chama-se ‘Projeto de País’”.
Começou um novo ciclo para a oposição derrotada. Nele, aparentemente, haverá menos Bolsonaro e muito mais Tarcísio de Freitas.
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Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019






