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Informação e análise

Fortes emoções

Quase metade diz ter medo com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 Maio 2026, 05h30 | Atualizado em 1 Maio 2026, 14h37

Flávio Bolsonaro agora se apresenta como “um projeto de Deus”. Sua candidatura presidencial pelo Partido Liberal, ele diz, é parte de um plano divino: “Eu sei que é, e, por isso, eu aceitei essa missão”.

Louvou-se diante de uma plateia de empresários do Mato Grosso, na semana passada, quando completava 45 anos de idade: “…E Deus usou o meu pai para apontar o dedo para mim e falar: ‘Vai você, garoto, vai você, porque você tá preparado, porque você tem o meu sangue e eu sei que, com você, o Brasil vai estar em boas mãos’ ”.

Estava num palanque em Sinop, a 1 400 quilômetros de Brasília. Cidade de nome esquisito (é acrônimo da antiga colonizadora da região, a Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná), abriga 220 000 habitantes na confluência de dois mundos da riqueza material — o do agronegócio na fronteira amazônica, onde a renda média por habitante ultrapassa 35 000 reais, e o do narcotráfico na rota caipira da cocaína da Bolívia e do Peru para os portos no Atlântico. Sinop premiou Jair Bolsonaro com oito em cada dez votos válidos nas últimas duas eleições presidenciais. Homenageou o filho senador, mas sem mobilizar multidão ruidosa como nas visitas do pai. “Ele não é Jair”, ouviu-se.

O candidato presidencial do PL ainda é apenas um sobrenome, beneficiário de transferência massiva do voto anti-Lula. A falta de identidade sobressai nos núcleos de pesquisas qualitativas, onde eleitores analisam candidatos por méritos e fragilidades — ou seja, por aquilo que não pode ser quantificado. O instituto Ideia organizou maratona de dezenas desses grupos de estudo. Restou evidente o desconhecimento: “As pessoas reconhecem o nome de família, mas não conseguem dizer uma segunda frase a respeito de Flávio Bolsonaro”, registrou a pesquisadora Cila Schulman.

O candidato desconhecido de sobrenome famoso adotou um roteiro de discurso com duas dezenas de palavras-chave (“família”, “educação”, “empreendedorismo” e “mérito”, entre outras). Tenta substituir slogans surrados, como o “vamos tirar o povo da pobreza” desgastado por Lula nas últimas quatro décadas, por referências religiosas sobre o paraíso, sugerindo acesso pelo atalho das urnas. “Essa é uma eleição em que nós vamos resgatar almas”, diz. “Vamos honrar o nome de Deus aqui neste país.”

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“Quase metade diz ter medo com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro”

Ensaia identificação com a maioria (53%) dos brasileiros que se declaram conservadores. “O Brasil é um país conservador em costumes e profundamente frustrado com a forma como a democracia funciona”, argumenta o sociólogo Felipe Nunes. Ele recomenda evitar-se o erro de olhar para o conservadorismo, a direita e a extrema direita como se fossem sinônimos. “Apenas 3% dos brasileiros podem ser classificados como de extrema direita; são quase 6 milhões de pessoas nessa bolha pequena e barulhenta”, comenta. “E o grande traço distintivo desse grupo dentro do campo conservador não é religião, não é família, não é ordem. É a disposição autoritária, ou seja, aceitam a ideia de que a ditadura pode ser preferível à democracia.”

Desde que desenhou em livro o mapa de um Brasil com alto nível de conservadorismo, a partir de 10 000 entrevistas em pesquisas da Quaest, a pergunta que Nunes mais escuta é: “Tá, e como é que Lula ganha tanta eleição nesse país conservador?”. Não foram poucas. Governou duas vezes, ajudou a eleger Dilma Rousseff em dois mandatos, voltou ao poder e, de novo, é candidato à reeleição. “O lulismo”, tem repetido, “está longe de ser fenômeno tipicamente de esquerda, progressista. Lula é visto pela sociedade como um conservador até pela maneira como trata alguns temas: o Bolsa Família, por exemplo, é na origem um programa liberal, né?”. É o oposto do que acham os petistas.

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Ele prossegue: “Lula não é o Boulos, não é a Gleisi Hoffmann. Lula é outra coisa, e isso lhe dá vantagem eleitoral maior, é capaz de penetrar nos conservadores. Por quê? Porque, originalmente, ele ofereceu a fórmula do Estado liberal, com proteção mínima, com programas sociais de proteção básica, em educação e saúde — segurança e a discussão das igualdades só entraram depois na agenda.”

Novidade na atual disputa pelo voto nesse Brasil conservador é o aviso de fadiga política que os eleitores repetem há meses em diferentes pesquisas. Quase metade diz ter medo do futuro com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro. E dois terços se declaram indecisos a seis meses da eleição. É prenúncio de uma temporada eleitoral com fortes emoções.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993

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