“Agora vai”, disse Lula no palanque, enquanto assinava uma simbólica ordem à Petrobras para terminar a construção da indústria de fertilizantes no Cerrado. Está quase pronta, falta apenas 20% da estrutura, nas contas do governo. Resta o enigma: por que a maior empresa pública brasileira vacila há uma dúzia de anos na conclusão dessa fábrica de adubo nitrogenado em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul?
O projeto foi decidido no segundo mandato de Lula, em 2007, como alternativa à extrema dependência brasileira das importações de fertilizantes (70% na época, 80% hoje) num cenário de crise no mercado mundial de fertilizantes. A Petrobras escolheu Três Lagoas pela equidistância com o fornecedor de gás natural, a Bolívia, e as indústrias consumidoras da Região Sudeste. Em 2011 iniciou a construção em terreno doado pela prefeitura e a montagem dos principais equipamentos comprados na China, entre eles um reator de amônia (761 toneladas) e outro de ureia (370 toneladas).
A obra foi interrompida uma semana antes do Natal de 2014, quando Dilma Rousseff já estava reeleita, depois de atropelar a ambição de Lula pelo terceiro mandato presidencial (ele esperou oito anos para conseguir se eleger de novo). Na sexta-feira pré-natalina, a Petrobras anunciou a rescisão de contratos com a empreiteira brasileira Galvão Engenharia e a chinesa Sinopec. Alegou necessidade de “garantir a conclusão do empreendimento no menor prazo possível”. Desde então, amarrou o tempo no poste, como escreveu o poeta Manoel de Barros.
Mais de doze anos se passaram, e ainda falta um quinto da estrutura. Já custou cerca de 2 bilhões de dólares, equivalentes a 10 bilhões de reais. São mais de 4 000 dias de atraso, o triplo do tempo que o governo Juscelino Kubitschek precisou para construir Brasília na década de 1960.
Quando a Petrobras começou a obra em Três Lagoas, o empresário Aliko Dangote limpava um terreno para projeto similar de fertilizantes nitrogenados nos arredores de Lagos, Nigéria, a 7 500 quilômetros de distância, do outro lado do Atlântico. A fábrica foi montada com base no preço médio de 300 dólares por tonelada de ureia — fertilizante na forma de grãos brancos formulado com nitrogênio (entre 20 a 40% da composição). Começou a produzir em 2022. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o valor do adubo mais que dobrou, chegando a quase 700 dólares a tonelada.
“Fábrica de adubos da Petrobras já leva o triplo do tempo da construção de Brasília”
Dangote, 69 anos, pertence à elite de Kano, situada a 1 200 quilômetros de distância da capital nigeriana, epicentro da comunidade fula, grupo étnico de pastores nômades. Controla grande parte do comércio de commodities da África. Costuma aparecer como empresário mais rico nas listagens de africanos bilionários. “Só entro em negócios que sou capaz de entender por completo”, repete em entrevistas.
Parece inexplicável o fracasso da Petrobras na fábrica de Três Lagoas. Lula até ensaiou uma autocrítica no comício da semana passada: “Não tem explicação por que uma empresa dessa magnitude, que ia produzir fertilizante para ajudar no barateamento e na qualidade dos alimentos, ficou parada doze anos”. Acrescentou: “Uma coisa é você não começar, porque não quer fazer, porque não tem projeto ou porque não tem dinheiro. Isso é uma coisa. Outra coisa é você começar, e você tem dinheiro, tem projeto e tem necessidade. E aí, quando você tem quase 85% da estrutura de uma obra como essa, de repente, para. Fica aí doze anos parado, com o Brasil pagando preços absurdos de fertilizantes que poderiam ter sido produzidos no Brasil”.
Mea-culpa à parte, Lula tem razão sobre as perdas imensuráveis para uma potência agrícola que depende da importação de 8 de cada 10 toneladas de fertilizantes nitrogenados. Terminar o projeto vai custar mais 1 bilhão de dólares, cerca de 5 bilhões de reais. Na conta final, o país terá uma linha de produção de adubos nitrogenados a um custo quase 50% acima do orçamento inicial e, também, do padrão mundial. É o custo básico de retomada desse empreendimento parado por doze anos, tempo maior que o gasto na construção da monumental usina hidrelétrica de Itaipu (1974-1984).
Há quem atribua esse e outros mistérios da Petrobras ao enredo de corrupção desvelado na Operação Lava-Jato. É possível, mas vale lembrar a prudente ressalva: não se considere exemplo de malícia aquilo que pode ser explicado por incompetência.
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Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002







