A cocaína superou o petróleo e se tornou o principal produto de exportação da Colômbia. A economia da droga triplicou na última década. Agora é responsável por 4,4% do produto interno bruto do país, constataram os pesquisadores Santiago Tobón Zapata e Daniel Mejía, do Centro de Estudos Valor Público, de Medellín. Movimenta 16,5 bilhões de dólares por ano — isto é, 1 bilhão e meio acima das exportações de petróleo, o dobro da receita com carvão e o triplo das vendas de ouro e café.
A pesquisa dos economistas de Medellín foi divulgada na semana em que o candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, venceu a disputa pela Presidência da Colômbia, com a ajuda da Casa Branca. Na véspera da votação, Donald Trump incitou os eleitores num tuíte: “Saiam para votar no ‘tigre’ Abelardo de la Espriella, ele não vai decepcioná-los”. Contados os votos, celebrou a intervenção vitoriosa: “Foi uma grande honra apoiá-lo, espero que trabalhemos juntos para construir uma relação poderosa”.
Espriella, 47 anos, é um advogado de múltiplas nacionalidades (americana e italiana, entre outras) que fez fortuna em transações obscuras no eixo Bogotá-Caracas-Miami com políticos e empresários acusados de corrupção, fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e narcotráfico. Nem todos ficaram satisfeitos. É o caso do golpista David Murcia Guzmán, antigo cliente que furtou a poupança de 200 000 colombianos numa pirâmide financeira. Ele acha que Espriella é apenas um “ladrão”, como disse ao jornalista Daniel Coronell. O estelionatário acusa o futuro presidente da Colômbia de roubá-lo em 1,6 milhão de dólares, abandonar sua defesa “de maneira injustificada” e delatar seu refúgio no Panamá. Guzmán passou nove anos em presídio americano e agora cumpre sentença de trinta anos numa cadeia em Bogotá.
A intervenção do governo Trump na eleição colombiana foi organizada pela dupla no comando do Departamento de Estado, o secretário Marco Rubio e seu vice, Christopher Landau. Eles perceberam uma oportunidade de reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos da fronteira com o México à Patagônia. É uma nova abordagem militarista legitimada na aplicação das leis antiterrorismo às máfias latinas do narcotráfico — entre elas, as facções brasileiras do PCC e do Comando Vermelho. Um dos entusiastas foi o subsecretário Landau, antigo assessor dos juízes Antonin Scalia e Clarence Thomas na Suprema Corte.
“Expectativa de intervenção nas eleições já aumenta despesas das empresas”
Espriella se elegeu pelo partido Movimento de Salvação Nacional com um projeto belicista de segurança pública harmonizado com o catálogo de vendas das indústrias americanas de equipamentos e serviços militares. No cardápio destacou a construção de presídios de segurança máxima; aquisição de tecnologia de vigilância; e compras de armamentos e munição para “abater todos os aviões carregados de drogas” e “afundar todos os barcos de narcotraficantes”.
Esse modelo está sendo copiado por Flávio Bolsonaro, o candidato do Partido Liberal que se esforça para ser reconhecido como representante de Trump na disputa pela Presidência do Brasil. Na semana passada, ele divulgou uma lista de ideias para política de segurança. Elas começam no “abate” de criminosos. Avançam com a construção de mais presídios federais e de um “sistema” de vigilância nos portos de Santos e de Paranaguá. Terminam na criação de “uma tropa de elite” militar. Sugere, em síntese, um estado de guerra doméstica como ambiente para multiplicação das compras governamentais de armamento e tecnologia.
Ampla maioria (65%) dos eleitores, segundo o Datafolha, trata com indiferença o eventual apoio de Trump a um candidato a presidente do Brasil. É uma das razões pelas quais diplomatas estrangeiros apostam em intervenções indiretas da Casa Branca. Acham provável que, em breve, o Departamento de Estado liste nomes de pessoas e empresas supostamente envolvidos em transações que tenham o PCC e o Comando Vermelho como beneficiários. Também consideram possível que, depois da posse de Espriella, na sexta-feira 7 de agosto, tropas colombianas e americanas comecem a se movimentar por cidades amazônicas na fronteira com o Brasil. Esse tipo de expectativa já se reflete na rotina das empresas, com aumentos em despesas de vigilância financeira e mudanças nos orçamentos de investimentos. É o “efeito Trump” nas eleições brasileiras.
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Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001







