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Dinheiro na mesa

Na reta final, Flávio Bolsonaro e Lula adotam o ‘evangelho da prosperidade’

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 out 2026, 06h00 | Atualizado em 16 out 2026, 18h26
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Vote e confie, o Brasil ainda será uma terra de riqueza abundante. É isso, em resumo, o que Flávio Bolsonaro e Lula estão prometendo desde a semana passada, quando chegaram à reta final da disputa pela presidência da República. Eles passaram a atuar como pregadores do “evangelho da prosperidade” e, agora, incitam à crença no sucesso pessoal e em realizações financeiras.

É como se estivessem adaptando às circunstâncias eleitorais o manual de felicidade do pastor americano Norman Vincent Peale no clássico O Poder do Pensamento Positivo. Não seria novidade nesse front, Donald Trump se elegeu duas vezes com o discurso da recompensa divina à positividade. A diferença é que os candidatos brasileiros tentam estimular a autoconfiança dos eleitores com a oferta de dinheiro público, mediante módica confirmação da fé política nas urnas, na votação de domingo (25/10).

Flávio Bolsonaro anunciou a criação de um “Ministério da Prosperidade”, caso seja eleito. O candidato do Partido Liberal não deu detalhes sobre o que seria, quanto custaria, quais seriam os privilegiados e como a conta seria paga dentro do orçamento federal. Mas deixou claro que planeja um novo organismo estatal para distribuir dinheiro público aos eleitores que, nas suas palavras, tenham vontade de “estudar, fazer curso, empreender, ter crédito, abrir o seu próprio negócio, crescer e prosperar”.

Lula reagiu rápido à ideia de esgrima eleitoral com o “evangelho da prosperidade” e mandou aumentar o catálogo de generosidades custeadas pelo erário. Lançou o Prospera, programa de anistia para eleitores endividados e cadastrados na Receita Federal como microempresários. O governo vai comprar do sistema financeiro privado as dívidas de profissionais autônomos. São 18 milhões de pessoas, cerca de 11% do eleitorado.

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“Qual é a grandeza da União?” — divagou o candidato do Partido dos Trabalhadores em comício improvisado no Palácio do Planalto. “É simplesmente ‘limpar’ o nome de vocês… A gente quer ‘zerar’ a dívida para vocês, porque vocês acreditaram no que o governo estava falando, acreditaram que a economia estava (na direção) certa e ia crescer. Vocês ‘fizeram’ esse voto de confiança, e nós estamos retribuindo a vocês.” Então, subiu o tom e anunciou: “Vamos criar um Pix de até 5 000 reais…”.

“Na reta final, Flávio Bolsonaro e Lula adotam o ‘evangelho da prosperidade’ ”

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Significa que, se reeleito, Lula pretende distribuir dinheiro. Mas quais seriam os beneficiários, quando e por quê? Ninguém sabia responder na Esplanada dos Ministérios, na semana passada, pela simples razão de que não existia plano governamental ou previsão orçamentária para doação de recursos públicos aos milhões de eleitores reconhecidos como microempresários.

Lula e Flávio Bolsonaro podem não acreditar, mas oito em cada dez brasileiros acham que já estão avançando no caminho da prosperidade — e, para eles, o governo deveria ajudar, no mínimo, não atrapalhar. Quase metade (47%) se vê progredindo “com dificuldade”, numa ascensão socioeconômica permeada de incertezas, sem a sensação plena de realização. É o que mostra a série de pesquisas feita no ano passado pelo Datafolha para a Sicredi, instituição financeira privada. Não é pouca coisa. Reflete um país que atravessou as últimas quatro décadas aprisionado na estagnação econômica, convivendo com alta concentração de renda.

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Foram múltiplas sondagens com dez grupos de discussão e 2 003 entrevistas pessoais, entre maio e setembro de 2025, sobre o significado da palavra “prosperidade” e sobre a percepção da qualidade de vida, educação, trabalho, família e bem-­estar em conexão com a ideia de vida mais próspera. No conjunto, atribuiu-se maior importância (39%) aos fatores econômicos, seguidos por bem-estar emocional (26%) e propósito de vida (21%). Ressalva relevante: os brasileiros veem no dinheiro um meio, não um fim, mas têm certeza de que pavimenta o caminho para uma vida mais feliz.

A conversão de Flávio Bolsonaro e Lula ao evangelho da prosperidade, a uma semana da votação final, lembra manobras do falecido coronel Hugo Chávez na Venezuela do início do século. Ele fazia o orçamento público superar a ficção. Nas temporadas eleitorais, decretava a “Política da Felicidade Suprema” no Diário Oficial, tomava metade do orçamento e viajava o país em campanha. Se ouvia dizer que a pobreza aumentava, pedia um microfone e culpava o capitalismo. Os discursos nunca duravam menos de três horas, sem interrupção. O ditador Chávez governou 14 anos. Ficou no poder até a morte, em 2013.

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Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017

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