Desalento
No segundo turno, talvez o eleitor descubra o que governo e oposição querem fazer com o país
Pedro Paulo Soares Pereira é um rebelde da periferia paulistana. Por trapaças da história, aos 56 anos o Mano Brown, do grupo de rap Racionais MC’s, passou a suspeitar que tenha virado um conservador.
Não perde o humor: — Vocês sabem que pega bem, pega muito bem, pra um rapper ser um defensor do sistema e do presidente? — disse numa conversa recente com outro poeta, Nei Lopes, e a cantora e atriz Thalma de Freitas.
— É realmente o fim do mundo! — ela replicou, rindo.
Pedro Paulo zombava do próprio personagem, que fala em versos de um Brasil onde perdedores disputam a sobrevivência com desamparados: — Sei lá, em algum momento, o Mano Brown foi um cara que tinha o pensamento da revolução e hoje é um conservador. “Tamo” lutando pra manter a situação, de novo… É onde nós “tamo”. Fazendo força pra eleger o que já tá eleito, de novo. Quer dizer, olha o lugar que nós “tamo”, velho. O que sobra pra molecada? Nos contestar. Não (ir) votar ou votar no cara da direita só pra atacar a posição dos velhos. Eu vejo essa molecada, que é muito religiosa, que tá falando em se casar… Olha, que loucura! Tá entendendo? Eles estão especialmente conservadores…
Efeito da erosão política, comentou, da longa permanência no poder: — Desmontou o senso de classe, enfraqueceu a ideologia, o próprio poder… Ali, já no quarto governo de esquerda, ali antes da Dilma (Rousseff) sofrer o golpe, já “senti” um projeto de continuidade na esquerda. Então, falei: isso não vai dar certo. Cheguei a comentar com o meu amigo (Eduardo) Suplicy. Eu falei: “Você não acha que tá na hora de dar uma alternada no poder, não?”. Isso tem dez, não, catorze anos, mano… A Dilma nem tinha caído… E aconteceu essa coisa de manter o poder… A manutenção do poder custou o poder, custou a base.
É a eleição do desalento, sob inédito clima de apatia. Até a semana passada, ao menos quatro em cada dez eleitores jovens (da faixa de 16 a 24 anos) diziam não ter escolhido um candidato à Presidência, situação nunca vista por pesquisadores como Mauricio Moura, do Instituto Ideia, desde a redemocratização.
“No segundo turno, talvez o eleitor descubra o que governo e oposição querem fazer com o país
Assim, depois de 37 anos como candidato constante do Partido dos Trabalhadores, Lula vai às urnas no próximo domingo (4/10) sem ter conseguido encantar os mais novos com seu projeto para um quarto mandato.
É novidade porque, como lembrou Moura em conversa com a repórter Bianca Gomes, essa fatia do eleitorado era a “linha de frente” de Lula e do PT nas eleições — “sempre foi assim, de 1989 até 2002, quando ele ganhou com 80% do voto dos jovens”.
Se o governo não produziu empatia, a oposição se mostrou inepta. Permanece fragmentada, sem bússola e sem rumo. Jair Bolsonaro, preso e inelegível, escolheu um dos filhos parlamentares para ser o candidato do Partido Liberal. O sobrenome conhecido levou o primogênito à liderança nas pesquisas, entre os oposicionistas, mas não conseguiu sair da solidão eleitoral a que a extrema direita acabou relegada pelos antigos aliados.
Flávio Bolsonaro, além disso, segue encalacrado num enredo recheado de suspeitas em parceria com o “irmão” Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master, que acaba de completar seis meses em prisão preventiva por maracutaias bilionárias no mercado financeiro.
Até agora, governo e oposição não conseguiram apresentar ao eleitorado um projeto nacional viável, uma proposta coerente e consistente de esperança de progresso individual, de melhoria da vida nas cidades cada vez mais violentas e de resgate do país da estagnação, depois de quatro décadas aprisionado na economia de baixa renda.
A soma dos fracassos contribuiu para a falta de engajamento durante a campanha e a razão do embaraço na reta final: duas semanas antes da eleição, quase metade (46%) da massa de eleitores com idade entre 16 a 59 anos dizia nas pesquisas ainda não ter se preocupado em escolher candidato a presidente, como mostrou a Quaest. Eles são donos de sete em cada dez votos disponíveis. Somam 120 milhões de pessoas num eleitorado de 158 milhões.
Entre os interessados, com voto já definido, Lula e Flávio seguiam concentrando 84% das intenções de voto para o primeiro turno, ocasionalmente empatados, e com os demais dividindo os 10% restantes.
Mantido esse quadro, haverá segundo turno na eleição presidencial — talvez, então, seja possível ao eleitor descobrir o que governo e oposição planejam fazer com o país e com o seu bolso até 2030.
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Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014







