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Informação e análise

Delírios

A campanha eleitoral será moldada pelos efeitos da guerra e dos crimes do Master

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 6 mar 2026, 13h32
  • A sete meses das eleições, é possível afirmar que vem aí uma campanha eleitoral inusitada, diferente das disputas anteriores por causa de um par de novidades relevantes.

    Uma delas é a expectativa persistente em algumas áreas do governo, do Congresso e do Judiciário com os efeitos da investigação sobre a fraude bilionária e os crimes em série cometidos pelos donos do Banco Master.

    É um tipo de tensão política que só aumenta com a perspectiva de delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro — um dos “profissionais do crime” que atuaram nos “mais altos escalões da República”, na definição do juiz André Mendonça, atual relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal.

    Outro evento de impacto é a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Acontece a 12 000 quilômetros de distância de Brasília, mas já dissemina incertezas na economia nacional e acena com mais inflação nos preços dos alimentos, o que pode afetar o humor do eleitorado.

    Os efeitos da guerra e do caso Master podem mudar os rumos da campanha, até agora reduzida a uma batalha de rejeições a Lula e ao clã Bolsonaro. Mas estão fora de controle político.

    O caso Master é eloquente. Não faltou mobilização no governo, nos partidos, no Congresso e no Judiciário, nos últimos catorze meses, para tentar manter encoberta a teia de relações suspeitas do grupo financeiro. Todas essas iniciativas fracassaram, por uma razão simples: é impossível enterrar um escândalo político e institucional com prejuízos já contados em 60 bilhões de reais, e aumentando.

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    Num delírio bilionário, o ex-banqueiro Vorcaro e associados — vários ainda não revelados — teriam atropelado quase todo o código penal. Entre outras coisas:

    • corromperam autoridades públicas;

    • espionaram concorrentes;

    • invadiram banco de dados sigilosos da Polícia Federal, do Ministério
    Público Federal e da Interpol;

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    • lavaram dinheiro das fraudes que realizaram e, também, das “mais perigosas organizações criminosas” do país, nas palavras do juiz Mendonça; e

    • mantiveram até a semana passada uma milícia privada (codinome “A Turma”) com o objetivo de intimidar auditores, policiais, procuradores, juízes e jornalistas como Lauro Jardim, de O Globo.

    “A campanha eleitoral será moldada pelos efeitos da guerra e dos crimes do Master”

    A súmula de suspeitas de crimes atribuídos à turma de Vorcaro sugere alguma razão ao Tribunal de Contas da União, que adotou a tese da existência de “risco sistêmico para a confiança nas instituições e para a moralidade administrativa” no enredo da fraude bilionária do Banco Master.

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    Esse risco de contaminação institucional seria derivado da cumplicidade de personagens com efetiva influência em áreas de poder, em Brasília. Algumas dessas “autoridades federais de alta cúpula”, segundo o relator do caso no TCU, Jorge Oliveira, teriam frequentado festas privadas promovidas pelos acionistas do Master até a liquidação do banco, em novembro do ano passado.

    No despacho, Oliveira se refere às orgias Master pela forma como ficaram conhecidas dentro e fora do banco: “Cine Trancoso”, porque parte delas aconteceu numa casa à beira-mar em Trancoso, no litoral sul da Bahia.

    Registros de autoridades nos eventos do “Cine Trancoso”, com mulheres bonitas e pouca roupa — várias estrangeiras recrutadas pela falta de intimidade com o idioma dos convidados, conforme relatórios policiais —, podem ajudar na compreensão da engrenagem de proteção ao Banco Master enquanto executou a fraude bilionária, com a parceria de corretoras e investidores interessados em inflar seus balanços.

    A tese do perigo social e moral contaminando instituições em Brasília nasceu na procuradoria de contas. Acabou encampada por Oliveira num pedido de partilha de provas que ele enviou na semana passada ao juiz Mendonça, do STF. Em fevereiro, Mendonça substituiu José Antonio Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso por manter negócios privados com a cúpula do Banco Master.

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    Por ironia, Mendonça e Oliveira trabalharam em equipe e foram nomeados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, em cujo governo a turma do Master comprou os serviços do chefe (Paulo Sérgio Neves de Souza) e do subchefe (Belline Santana) do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central.

    A campanha eleitoral será moldada pelo impacto econômico da nova guerra e pelas consequências das fraudes bancárias e do INSS — parcialmente conectadas às empresas associadas ao ex-banqueiro Vorcaro. Ainda não está claro quais são os personagens dos “mais altos escalões da República”, como diz o juiz Mendonça, atingidos pela voragem Master. Aparentemente, não são poucos.

    Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

    Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985

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