Começa na segunda-feira 26 o evento legislativo mais importante da temporada pós-eleição: a corrida de deputados e senadores para “ajudar” o vencedor da disputa presidencial. Acontece a cada quatro anos e só acaba quando termina a lua de mel do novo governo com o eleitorado, fogo-fátuo da política e cada vez mais efêmero na América do Sul.
Seja Lula ou Flávio Bolsonaro, não será difícil ao presidente eleito, mesmo sem maioria no Congresso, começar com apoio parlamentar muito além dos limites da bancada de aliados, circunscrita a dois em cada dez votos na Câmara e no Senado.
Isso se deve a uma peculiaridade do mapa das desigualdades regionais: fazer oposição é complicado para representantes de cidades pequenas (com até 20 000 habitantes) ou de regiões como o Nordeste, onde há mais dependentes dos programas de transferência de renda do governo federal do que empregados com carteira assinada.
Quanto mais frágeis a economia e o mercado de trabalho regionais, maior é a necessidade de socorro federal. Um retrato da dependência está na carta de Lula aos 5 569 prefeitos e 58 000 vereadores de todo o país, divulgada 96 horas antes do segundo turno da eleição para presidente. Ele lembra as transferências de verbas vitais para os serviços municipais de saúde, educação, assistência social e habitação, além de sustentar a folha salarial das prefeituras, principais empregadoras em oito de cada dez cidades do interior.
A dependência é relevante sobretudo nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, onde vivem 68 milhões de eleitores — dois milhões a mais que no rico Sudeste. É melhor sofrer no poder do que longe dele, repetia Antonio Carlos Magalhães, ex-governador da Bahia. Por isso, o magnetismo do caixa de Brasília permeia o oceano de histórias do poder.
Uma delas aconteceu em 2023, quando Lula ainda nem completara noventa dias do atual mandato. Primaz no aglomerado parlamentar conhecido como Centrão, o partido Progressistas estava desnorteado com a derrota e a tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro, a quem havia sustentado no Congresso nos últimos dois anos de governo.
“Vai começar a corrida para ‘ajudar’ o vencedor da eleição presidencial”
O PP nascera na fusão de grupos conservadores abrigados na antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena), esteio parlamentar da ditadura. Apoiou todos os presidentes das últimas três décadas (Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula em três governos). Associado ao Partido dos Trabalhadores, na década passada foi protagonista em processos do mensalão e da corrupção na Petrobras — destacando-se, nesse caso, pelo maior número de políticos investigados (18).
Fez-se uma reunião para definir objetivos do PP no novo mundo de Lula. Com a naturalidade de quem havia chefiado a Casa Civil de Bolsonaro até três meses antes, o senador Ciro Nogueira propôs reescrever a história da década de alianças com Lula e o PT migrando para oposição.
— Tá tudo muito bom, tudo muito bem, mas, ô Ciro, ensina aí pra gente como é ser oposição — alguém provocou.
Foi quando o deputado “Lula”, Luiz Eduardo, de 22 anos e quatro oligarquias pernambucanas no sobrenome (Queiroz Campos da Fonte Albuquerque), atalhou: — É, tio, mas esse negócio de óculos Ray-Ban, sapato branco e oposição só fica bonito nos outros…
O riso traduzia a memória coletiva sobre arranjos que levaram o PP e outros partidos da direita tradicional a atravessar este início do século XXI aglomerados no Centrão.
Três semanas atrás, renovou-se a moldura do bloco no Congresso. Ganharam realce as facções da extrema direita que gravitam em torno de Jair Bolsonaro, sujeito oculto de uma eleição que não teve candidato de centro. É notável que o avanço dos extremistas tenha sido impulsionado por pessoas e partidos que escolheram fazer política à margem e até mesmo contra a direita tradicional, centrista, moderada e geralmente educada no uso de garfo e faca. Aglutinada no Partido Liberal de Flávio Bolsonaro e no seu satélite, o Novo, a extrema direita deglutiu o Centrão nas urnas. Dobrou de tamanho no Senado e até tomou uma fatia (10%) do dinheiro dos fundos partidário e eleitoral que passa pelo caixa dos partidos do Centrão.
Rachada na eleição, a direita segue dividida no Congresso. Para o presidente eleito será incontornável: vai precisar negociar com o Centrão, dono de 49% dos votos na Câmara e de 40% no Senado, cada vírgula de cada projeto. É atração fatal.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018







