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Por que “True Detective 3” é talvez a melhor série que você verá este ano

Fenomenais, Mahershala Ali e Stephen Dorff são os dois detetives que transitam entre as relações violentas do Sul profundo para investigar um caso

Por Isabela Boscov 23 mar 2019, 19h03

Uma das coisas de que mais gosto nas novas séries policiais é o fato de elas não se resumirem ao quem-fez, por-que-fez – ou seja, gosto de elas descartarem aquela ideia herdada da literatura vitoriana de que, uma vez solucionado um crime, a ordem se impõe de novo sobre o caos e restaura-se o mundo ao seu estado normal. Um crime é uma erupção vulcânica na vida das pessoas tocadas por ele; ele muda todo o relevo, para sempre. E a própria investigação desse crime é uma nova sequência de erupções, às vezes tão destrutivas quanto a inicial: coisas que de outra forma permaneceriam enterradas são lançadas com violência à luz – e, novamente, não é possível colocá-las de volta no seu lugar de origem; agora, elas fazem parte da nova paisagem. Acho que a primeira série que vi trabalhar essa ideia, a da investigação como uma perturbação violenta, foi The Killing, sete anos atrás. Mas nenhuma outra a trabalhou tão bem até aqui quanto a terceira – e magnífica – temporada de True Detective: duas crianças somem; com certeza houve um ato criminoso; e as reverberações dele continuam se propagando com força pelas décadas seguintes. Atingem em cheio, é claro, o pai e a mãe (Scoot McNairy e Mamie Gummer) das crianças. Apanham transeuntes que estavam na beirada dessa cena – e que, por causa disso, temporariamente viram protagonistas. E redesenham toda a vida dos dois detetives encarregados do caso, especialmente a de Wayne Hays (Mahershala Ali).

True Detective 3
(HBO/Divulgação)

Assim como na primeira temporada de True Detective, com Matthew McConaughey e Woody Harrelson – melhor ignorar a segunda e fracassada temporada –, duas outras ideias são importantes aqui. A primeira é que crimes não são atos isolados: eles são um ápice de violência em um ambiente em que as relações violentas ou desiguais são costumeiras. No Sul profundo de TD3 – o Arkansas paupérrimo de 1980, em que as duas crianças desaparecem –, há brutalidade por toda parte. Entre brancos e não-brancos, entre homens e mulheres, entre crianças pequenas e crianças só um pouco maiores que elas, entre chefes e subalternos, entre ricos (poucos, e muito ricos) e pobres (muitos, e em geral miseráveis). Um outro tipo pervasivo de violência é relevante aqui: muitos dos personagens masculinos, a começar por Wayne Hays e seu parceiro, Roland West (Stephen Dorff), são veteranos da Guerra do Vietnã, da qual muita gente voltou, mas não voltou – por exemplo, o índio Brett Woodard (Michael Greyeyes, um ator sublime), que nunca mais achou seu eixo. Woodard perdeu a mulher e os filhos, perdeu todo o respeito próprio e começou a viver de catar lixo e ferro-velho, como se estivesse manifestando nele mesmo, e na sua casa e no seu quintal, o que ele pensa de si agora. No ambiente de preconceito racial aberto e hostil do Arkansas, Woodard vai ser, é claro, aquele primeiro suspeito em quem todo mundo pensa.

True Detective 3
(HBO/Divulgação)

A segunda ideia, essa clássica na ficção policial, é que todo detetive de crimes graves está destinado a, um dia, topar com o caso que vai assombrá-lo para sempre. Não só porque porque é um crime que mexe com sentimentos profundos (e crianças quase sempre mexem com esse tipo de emoção), ou porque o caso ficou sem resolução, mas porque aquele crime e aquele detetive foram feitos um para o outro – um encontro cósmico, digamos assim. Wayne foi rastreador na Guerra do Vietnã, porque aprendeu a rastrear desde criança. No Sudeste asiático, passava semanas a fio sozinho na selva, procurando rastros do inimigo. De volta ao Arkansas, ele vai rastrear os pequenos Will e Julie Purcell até nem saber mais, literalmente, por que o está fazendo: costurando três épocas – 1980, a reabertura do caso Purcell em 1990 e uma longa entrevista que Wayne dá à TV em 2015 –, nessa terceira fase TD3 pega o detetive já nos estágios iniciais de Alzheimer, com a memória cheia de buracos, mas ainda obcecado com as pistas que poderia seguir. Isso é o que dá a TD3 sua estrutura: os oito episódios acompanham o esforço de Wayne para reconstruir sua memória, reorganizá-la e lançar sobre ela um olhar novo, acrescido do aprendizado e das descobertas da velhice. Em outras palavras, Wayne incorpora toda a sua vida ao caso.

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True Detective 3
(HBO/Divulgação)

Eu disse que era o caso de ignorar a segunda e malsucedida temporada de True Detective, aquela com Colin Farrell e Rachel McAdams, mas não é bem assim: o criador Nic Pizzolatto aprendeu muito com os erros dela. Aprendeu tanto que fez uma terceira temporada melhor ainda que a sensacional primeira temporada. Melhor na artesania (as fusões de uma época para outra são magistrais, e vêm carregadas de significado narrativo) e melhor no tema: em muitos momentos, para mim, a resolução do caso Purcell ficou totalmente em segundo plano, porque aquilo que estava acontecendo entre os personagens era muito mais fascinante – a dinâmica complicada do casamento de Wayne com Amelia (a ótima Carmen Ejogo), o relacionamento entre Wayne e Roland, os laços que eles vão estabelecendo com pessoas ligadas à investigação (por exemplo, a tentativa tocante de Roland de proteger de si mesmo o pai das crianças, interpretado pelo sempre perfeito Scoot McNairy).

True Detective 3
(HBO/Divulgação)

Qualificar o trabalho de Mahershala Ali em True Detective esgotaria o meu estoque de adjetivos. Digamos apenas que é um trabalho tão superior ao que ele faz Green Book, tão mais complicado em termos técnicos e tão mais exigente em termos psicológicos, que nem parece ser do mesmo ator. Não chega a ser surpresa; Mahershala foi fenomenal também em House of Cards e em Moonlight, por exemplo. O que me surpreendeu, sim, e muito, é como Stephen Dorff, um ator da segunda ou mesmo terceira fileira, que anos atrás foi promessa mas não desenvolveu a carreira que se esperava, está também ele fenomenal como Roland West, o parceiro de Wayne. A amizade dos dois passa por momentos terríveis, mas se faz e refaz com aquela persistência e aquela camaradagem genuína que são a marca das boas amizades masculinas; é lindo de ver. E o último episódio – esse é inesquecível. Com e sem trocadilho. Veja, e entenda.

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