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Isabela Boscov

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Steve Jobs

Por Isabela Boscov 16 jan 2016, 17h25 | Atualizado em 11 jan 2017, 16h06
  • Como assim, não indicaram Aaron Sorkin?

    Steve Jobs é possivelmente a pessoa mais comentada deste novo século. E provavelmente uma das menos conhecidas e compreendidas: manipulador contumaz da própria imagem e mestre em mitificá-la (aproveitando-se inclusive de traços negativos de caráter que outros esconderiam do olhar público), o Jobs que todos nós vimos nas últimas décadas é uma entidade construída por um outro Jobs – presumivelmente o verdadeiro, que muito pouca gente pôde conhecer de fato.

    Como resolver esse paradoxo em uma cinebiografia? Para Aaron Sorkin, uma divindade do roteiro de cinema e televisão, a resposta pareceu simples: não fazer uma cinebiografia. Sorkin partiu da biografia escrita por Walter Isaacson para fazer seu próprio trabalho de pesquisa biográfica: foi conviver com as pessoas citadas no livro e tirar delas mais impressões, mais histórias, mais reflexões sobre Jobs. Reduziu então todo esse caldo aos elementos que julgou fundamentais: os dramas íntimos e os conflitos recorrentes na vida de Jobs. E, então, bolou uma estrutura dramatúrgica excepcional para dar conta dessa essência que havia depurado: três atos,cada um deles passado em um momento nevrálgico da trajetória de Jobs – o lançamento do Macintosh, em 1984; o do NeXT, em 1989; e o do iMac, em 1998.

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    Cada ato é uma sequência praticamente contínua durante a qual, nos quarenta minutos que antecedem sua subida ao palco, Jobs enfrenta sempre as mesmas seis pessoas: Joanna Hoffman (Kate Winslet), a executiva de marketing da Apple que foi de uma fidelidade absoluta a Jobs durante toda a sua carreira; John Sculley (Jeff Daniels), o executivo da Pepsi que Jobs contratou como CEO da Apple, e que depois ficaria célebre por demitir Jobs de sua própria empresa; Steve Wozniak (Seth Rogen), que fundou a Apple com Jobs em uma garagem e implora dele um reconhecimento que Jobs se recusa a dar; Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), o criador do sistema operacional revolucionário do Macintosh; Chrisann Brennan (Katherine Waterston), a ex-namorada carente e errática com quem Jobs teve uma filha, Lisa; e finalmente a mais importante de todas essas figuras, a própria Lisa, cuja paternidade Jobs demorou anos para assumir, com uma resistência perversa.

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    Lisa (interpretada com brilho e com coesão notável nos três diferentes momentos por Makenzie Moss, Ripley Sobo e Perla Haney-Jardine) é o pivô desse movimento incessante criado por Aaron Sorkin e pelo diretor Danny Boyle em torno de Jobs: ela é tão obviamente filha dele que, na maneira como ele a repele, tem de estar a chave para seu temperamento terrível, sua arrogância, sua compulsão em testar os limites da lealdade e da paciência alheias – assim como a chave para a sua imaginação, a sua visionariedade, sua observação penetrante do que as pessoas querem e do que ele pode obrigá-las a desejar.

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    Ouvir os diálogos de Sorkin é, para mim, como ouvir o jazz de Duke Ellington – as batidas são de uma tal complexidade e a orquestração é de um tal virtuosismo que dá para fazer uma comparação: aquilo que George Miller fez pela ação este ano com Mad Max: Estrada da Fúria, Sorkin faz pelo uso da fala no cinema com Steve Jobs. O elenco está todo ele excepcional. Não é para qualquer um dar conta desses ritmos contra-intuitivos e da quantidade assombrosa de informação que o roteirista comprime nesses 120 minutos, mas não há ninguém aqui que erre uma tonalidade sequer. E Michael Fassbender e Kate Winslet estão monstruosamente bons. Mas soa como um tapa na cara bem calculado e deliberado que só eles dois tenham ganhado indicações ao Oscar.

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    Mas, antes que fique parecendo que Steve Jobs é uma façanha técnica e nada mais: chorei com vontade no final. Tenho lido e ouvido muitos comentários sobre a pessoa terrível que Jobs era, mas para mim a moral da história aqui é outra. Ou melhor, outras, no plural. Muito já se escreveu sobre como genialidade e caráter podem vir separados por um abismo numa mesma pessoa – veja-se Wagner, Ezra Pound etc. etc. Acredito que o filme vai mais longe nessa reflexão: ele não só anota a existência desse abismo como também pondera que, em alguns indivíduos, a escassez de virtude moral (ou pelo menos a indiferença à moralidade e aos sentimentos dos outros) talvez seja um elemento inerente à genialidade específica deles. Ou seja, pode ser que amar o seu iMac e o seu iPhone mas desprezar Jobs seja um ato involuntário de hipocrisia. Finalmente, e isso é que me foi tão comovente no final, é impossível ser humano e não sofrer por quem se é, ou com quem se é. Jobs se bate sem parar, durante 120 minutos, com esses personagens, e no entanto é sempre com a mesma pessoa que ele está brigando – o seu inimigo mais dedicado, ele mesmo.


    Trailer

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    STEVE JOBS
    Estados Unidos/Inglaterra, 2015
    Direção: Danny Boyle
    Com Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston
    Distribuição: Universal

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