Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

Isabela Boscov Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO

Por Coluna
Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.
Continua após publicidade

O Trailer de Dunkirk

Em apenas 50 segundos, Christopher Nolan crava e arrasa - de novo

Por Isabela Boscov
Atualizado em 15 jan 2017, 17h37 - Publicado em 12 ago 2016, 20h37

Hoje vou na contramão: está todo mundo ouriçado com o trailer de Rogue One (sim, você-sabe-quem aparece no final!), mas o que me deixou realmente embasbacada foi o teaser de Dunkirk, do Christopher Nolan, que estreia em julho do ano que vem. São só 50 segundos de imagens – e, no entanto, elas fizeram valer a minha semana, o meu mês e quem sabe até o meu semestre. Estou achando que vão fazer valer meu 2017 também: são belíssimas, grandiosas, perturbadoras, únicas. Arrepiantes. Em menos de um minuto, me senti transportada para algo muito maior que eu, que o meu mundo. A ambição cinematográfica de Nolan não tem tamanho e, mesmo que ele às vezes erre aqui ou acolá, acerta no fundamental: a ambição narrativa dele se torna também cada vez mais extraordinária, e o cinema precisa disso. É o sangue dele.

divulgação

Só para dar uma palinha: em maio de 1940, quando a II Guerra ainda não havia completado nem um ano (ela começou em setembro de 1939), as forças Aliadas foram encurraladas pelos nazistas na costa norte da França, contra o mar do Canal da Mancha. Dezenas de milhares de belgas, ingleses e sobretudo franceses morreram na batalha. O comando militar mandou que os sobreviventes (um meio milhão de homens) recuassem até o porto da cidade francesa de Dunquerque, à espera de uma evacuação por mar. De destróiers a barcos a remo, quase 1.000 embarcações foram mobilizadas, e quase todos puderam ser retirados. Foi uma derrota terrível mas, dentro dela, obteve-se a maior vitória possível, que é a sobrevivência (o teaser usa essa frase, que é referência a um discurso muito célebre do primeiro-ministro inglês Winston Churchill).

divulgação

Quem, hoje, filma como Nolan? Rigorosamente ninguém: os três cineastas – três monstros do cinema, na verdade – que se percebe serem as influências mais nítidas dele em Dunkirk estão todos mortos. De Stanley Kubrick, que já fora uma grande referência de Interstelar, Nolan usa, nesses 50 segundos, o rigor geométrico, que faz com que as composições visuais pareçam sempre algo de fora deste mundo: as cenas têm elementos corriqueiros, como praias ou pessoas, mas a perfeição e a complexidade geométrica as tornam diferentes, ao mesmo tempo novas e estranhas (pense na cena de A Laranja Mecânica em que, andando ao lado de um espelho d’água em câmera lenta, Malcolm McDowell subitamente sai da linha da caminhada, enviesa-se na tela, dá uma bengalada em um de seus companheiros e o empurra para dentro d’água. É isso. Poderia ser comum, mas vira uma imagem que fica com você durante décadas).

Continua após a publicidade

divulgação

Do russo Andrei Tarkovsky, o gênio de Solaris e O Sacrifício, Nolan aproveita duas habilidades muito singulares. Primeiro, a de fotografar elementos da natureza com um enquadramento e uma distância que os faz parecerem abstratos – uma imagem antológica é a das algas movimentadas pela correnteza em Solaris ou, neste caso, a espuma do mar que abre o teaser de Dunkirk. Segundo, o dom de fazer com que paisagens “ajam” como personagens e, inversamente, fazer com que personagens funcionem como componente da paisagem. Tarkovsky faz isso o tempo todo em O Sacrifício, e Nolan faz isso o tempo todo no teaser de Dunkirk. Repare, por exemplo, na imagem dos cadáveres velados por uma camada de areia, com uma tropa ao fundo.

Finalmente, do mestre dos mestres, o japonês Akira Kurosawa, Nolan se aproveita de um truque simples (de explicar; nem sempre de fazer). Kurosawa nunca deixava de acrescentar movimento ao “pano” de uma cena, e geralmente se valia do clima: vento nas roupas ou na vegetação, chuva caindo de calhas ou escorrendo por um vidro, nuvens correndo no céu e mudando ou não a luz do sol. Às vezes, num efeito belíssimo, ele usava os movimentos de grupos de pessoas destacados dos personagens principais – gente ao fundo, ou no canto do quadro, interferindo nas linhas do olhar. É preciso manjar horrores (friso: horrores) de pintura e de composição cenográfica para fazer isso de maneira a que você sinta o movimento sem percebê-lo como algo à parte. Mas veja como Nolan usa em Dunkirk as duas formas de obter o movimento implícito, o clima e os deslocamentos de personagens.

divulgação

Continua após a publicidade

O que crava e arrasa no teaser, porém, é algo que Nolan foi aprendendo sozinho a apreciar e a valorizar. É algo que está na última imagem, e eu deixo que o próprio Nolan explique. O trecho abaixo é de uma entrevista que ele me deu na ocasião do lançamento de Interstelar, e não é por me gabar não, mas recomendo que você leia a resenha do filme e a entrevista inteira aqui, porque ambas são bem bacanas. Lá vai Nolan falando do mais decisivo de todos os elementos de um filme:

“Não existe nada mais interessante no mundo do que o rosto humano. Quando você se torna cineasta porque seu interesse é visual e cinemático, mais do que dramático – e foi esse o meu caso –, você quer ir para uma locação e filmar imagens impactantes. Se está chovendo, ou escureceu e você perdeu a hora de rodar uma cena, pensa: mas o que então vou filmar? Pouco a pouco, descobri que estava menosprezando o elemento mais intrigante, fascinante e essencial de todos que pode haver em um filme: o rosto dos meus atores. É nos atores, nas pessoas, que um filme vive ou morre. Criar outros planetas, filmar em Imax, imaginar uma travessia do universo – tudo isso só faz sentido se girar em torno do elemento humano.”


Trailer

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.