🔥 Mês do Cliente: Receba 4 Revistas Impressas por apenas R$ 35,90/mês. Aproveite!
Imagem Blog

Isabela Boscov

Por Coluna Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O Estranho que Nós Amamos

Sete mulheres sedentas, e um só copo d’água

Por Isabela Boscov 11 ago 2017, 14h00 | Atualizado em 11 ago 2017, 14h00
O Estranho que Nós Amamos Priorizar nos meus resultados Google

Depois da parceria em Meu Nome É Coogan (1968) e Os Abutres Têm Fome (1970), Clint Eastwood e o diretor Don Siegel fizeram um desses filmes que, na própria época, ninguém “pega” muito bem, mas que vão crescendo em estatura com o passar do tempo: O Estranho que Nós Amamos. Numa resenha de 31 de dezembro de 1970, a Variety dizia que o filme “fazia rir em todos os lugares errados”, e que Siegel “pesava a mão”. É compreensível:  o mundo com a cabeça ainda na década do flower power e a dupla se saía com uma história perversa, encharcada de humor negro e de truculência psicológica, sobre os jogos de poder que um soldado nortista institui na escola de mulheres em que vai se abrigar, no Sul da Guerra Civil de 1861-1865. (Pois o mundo não vira nada ainda: dentro de um ano, Siegel e Eastwood chutariam de vez o pau da barraca com o explosivo Perseguidor Implacável.) Hoje, porém, O Estranho que Nós Amamos é reconhecido como o grande ponto de inflexão na colaboração entre os dois, além de uma influência decisiva na longa carreira de Eastwood como diretor, que então estava apenas se iniciando.

O Estranho que Nós Amamos
(Universal/Divulgação)

Por que então Sofia Coppola haveria de mexer com um ícone desses? Ora, porque ele oferece uma grande oportunidade de, mantendo toda a estrutura original do filme de Siegel (e do romance em que ambos se baseiam), inverter a equação: e se esse homem que está muito ferido e em dupla desvantagem (ele é um, elas são sete; e como soldado inimigo, ele pode ser denunciado a qualquer momento) calculasse que há mais ganho em cortejar essas mulheres do que em colocá-las em pé de guerra? Interpretado por Colin Farrell com uma ótima calibragem de sedução e submissão, o soldado John McBurney agora discretamente testa os pontos fracos de Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning e as outras meninas, até ter certeza de onde pode pisar mais firme com cada uma delas. Elas, por sua vez, sorvem dessa presença masculina como quem está morrendo de sede – tentando manter a compostura e a brancura dos vestidos, e ao mesmo tempo fazendo o trabalho que antes era incumbência dos escravos, todas as sete estão se sentindo diminuídas e esquecidas num Sul em que ser mulher é um perigo constante, e um tédio infinito. Sofia, enfim, troca a potência do filme original por algo mais sinuoso e astucioso, e demonstra que pode haver dois jeitos certos de fazer a mesma coisa.

Leia a seguir a resenha completa:

Continua após a publicidade

O Flanco Aberto

Na versão de Sofia Coppola para O Estranho que Nós Amamos, um soldado da Guerra Civil americana refugia-se numa escola de mulheres e arma uma teia de sedução

Continua após a publicidade

Cineasta que não gosta do caminho mais direto mas sabe aonde quer chegar, Sofia Coppola pinta uma Arcádia no sul americano da Guerra Civil: em uma escola para meninas regida com rigor maternal pela senhorita Martha (Nicole Kidman), a fumaça das batalhas é perceptível – mas a distância, obscurecida pelo musgo que pende das árvores e filtra a luz, protegendo do olhar a mansão ocupada por sete mulheres. Capinando a horta, carregando água (os escravos fugiram faz tempo) ou conjugando verbos em francês, Martha, a professora Edwina (Kirsten Dunst) e as cinco alunas veem as fileiras de soldados passar – sempre do lado de fora. Quando algum deles toca o sino, Martha esconde as meninas e abre a porta com um revólver na cintura. Mas é na forma de erotismo, não de intimidação, que o sexo oposto vem se instalar no interior do casulo feminino. Amy (Oona Laurence), uma das alunas mais jovens, recolhe da mata John McBurney (Colin Farrell), um soldado nortista gravemente ferido. É duvidoso que ele sobreviva, mas Martha tira o chumbo de sua perna, costura a ferida e, enquanto ele está desacordado, o banha – e fica ela própria encharcada de suor com o contato íntimo. A toda hora, Martha afirma que vai entregar o nortista como prisioneiro às forças sulistas. Mas nem ela nem suas protegidas querem se privar dessa inesperada (e muito bem-apessoada) presença masculina.

O Estranho que Nós Amamos
(Universal/Divulgação)
Continua após a publicidade

Baseado no romance de 1966 do americano Thomas Cullinan, e também no filme homônimo que Don Siegel dirigiu e Clint Eastwood estrelou em 1972, O Estranho que Nós Amamos repropõe o conceito do material original por meio de uma sutil mudança. Ainda que, como Eastwood, Farrell faça o papel de único galo do terreiro, a sua figura é agora muito mais reativa e suave do que propositiva e agressiva. McBurney admite ser desertor, e deixa claro que adoraria permanecer onde está, em troca de trabalho – e talvez de algo mais. “Suas rosas precisam de atenção”, diz ele, numa double entendre casual. Como persuasão, o soldado estuda suas anfitriãs e dá a cada mulher precisamente aquilo que ela deseja. Com Martha, é todo cavalheirismo e admiração. À insatisfeita Edwina, ele acena com romance. Para a indócil Alicia (Elle Fanning), dirige os olhares libidinosos. Amy ganha atenção fraterna e a perfeccionista Jane (Angourie Rice), elogios.

O Estranho que Nós Amamos
(Universal/Divulgação)
Continua após a publicidade

O homem como a parte do relacionamento que se molda à outra e busca aprovação pode soar como um conceito extemporâneo no século XIX, mas tem uma medida de raiz histórica no Sul rural deixado a cargo das mulheres. McBurney entende que está em desvantagem; a certa altura, porém, ele erra o cálculo, favorecendo uma em detrimento de outras. O caldo entorna, e o soldado parte para o último recurso – a força. Como em outros filmes de Sofia Coppola, em particular As Virgens Suicidas (1999) e Maria Antonieta (2006), ambos também com Kirsten Dunst como pivô da ação, o círculo feminino parece vacilar, atemorizar-se e enfraquecer-se – mas, afinal, fecha-se, procurando alguma maneira de expelir de seu meio o corpo estranho. Alardear como feminista a versão de Sofia é reduzir a perspicácia da diretora, e o seu comentário ardiloso.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 09/08/2017
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2017

Trailer

Continua após a publicidade
O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS
(The Beguiled)
Estados Unidos, 2017
Direção: Sofia Coppola
Com Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Colin Farrell, Elle Fanning, Oona Laurence, Angourie Rice
Distribuição: Universal

Publicidade
TAGS:

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).